LOGINCAPÍTULO 6 -
A biblioteca da universidade estava quase vazia quando Laura fechou o último livro. — Você está com essa cara há pelo menos vinte minutos — comentou Isabela, sentada à sua frente. — Que cara? — A cara de quem está pensando em um homem. Laura revirou os olhos. — Eu estou estudando. — Claro. E eu sou a próxima presidente da República. Laura tentou esconder o sorriso. Isabela apoiou os cotovelos na mesa. — É o CEO? — Não começa. — Eu nem falei o nome dele. — Mas pensou. As duas riram baixinho. Laura guardou o material na mochila. — Ele é meu chefe, Isabela. E eu estou ali por causa do estágio. Não posso misturar as coisas. A amiga ficou séria por alguns segundos. — Então não misture. Mas também não esqueça que existe uma coisa que você precisa resolver. Laura sabia exatamente do que ela estava falando. A idade. A mentira continuava ali, entre ela e Anthony, crescendo silenciosamente. — Eu sei — respondeu Laura. — Sabe mesmo? — Sei. Só estou tentando encontrar o momento certo. Isabela suspirou. — Espero que esse momento não chegue depois de uma confusão enorme. Laura não respondeu. Naquela tarde, ela recebeu uma mensagem de Mariana. Mariana: Laura, o senhor Avelar pediu que você participasse de uma reunião sobre o projeto de reabilitação. Pode vir à sala de reuniões? Laura olhou para o relógio. Ainda tinha tempo antes de sua próxima aula. Laura: Claro. Estou indo. Ao chegar ao prédio, foi conduzida até uma sala ampla, com paredes de vidro e uma vista privilegiada da cidade. Anthony estava à cabeceira da mesa. Gustavo também estava presente, além de Mariana e outros dois funcionários. — Boa tarde — Laura cumprimentou. — Boa tarde, Laura. Sente-se — disse Anthony. Ela ocupou uma cadeira próxima de Mariana. A reunião começou com a apresentação de uma proposta para ampliar o alcance dos projetos sociais do grupo. Anthony explicou que a empresa pretendia avaliar novas formas de apoiar instituições de reabilitação. Laura acompanhou tudo em silêncio até que uma pergunta surgiu: — Como poderíamos aumentar o impacto sem elevar tanto os custos? Houve alguns segundos de silêncio. Laura olhou para a apresentação. — Posso dar uma sugestão? Anthony voltou o olhar para ela. — Claro. Ela se ajeitou na cadeira. — Talvez o projeto não precise depender apenas da compra de equipamentos. Poderíamos estabelecer parcerias com universidades que tenham clínicas-escola. Os estudantes, sempre supervisionados pelos profissionais responsáveis, poderiam participar de ações educativas e atividades de orientação. Mariana assentiu. Laura continuou: — Também seria interessante criar encontros com familiares dos pacientes. Muitas vezes, a recuperação não depende apenas do atendimento na instituição. A família precisa entender como apoiar o paciente em casa, respeitando as orientações dos profissionais. Um dos diretores fez uma anotação. — É uma perspectiva interessante. Anthony observava Laura com atenção. — Você pensou nisso sozinha? — Conversei sobre algumas ideias na universidade e também pensei na minha própria família. — Sua família? Laura respirou fundo. — Minha avó teve dificuldades de mobilidade por um período. Foi muito complicado para todos nós. Percebi como a reabilitação pode devolver não apenas movimentos, mas também independência e dignidade. A sala ficou em silêncio por alguns instantes. Anthony desviou os olhos para a apresentação. — É exatamente esse tipo de visão que precisamos considerar. Laura sentiu o rosto aquecer. Não era comum receber elogios diante de tantas pessoas, principalmente de alguém tão exigente quanto Anthony Avelar. A reunião continuou por mais alguns minutos. Quando terminou, os funcionários começaram a deixar a sala. Laura organizava suas anotações quando percebeu que Anthony ainda estava ali. — Senhor Avelar? — Anthony — corrigiu ele. Ela sorriu discretamente. — Anthony. Precisa de alguma coisa? — Gostaria de conversar sobre sua proposta. Mariana se despediu, deixando os dois com os documentos. Anthony apontou para uma das cadeiras. — Sente-se um instante. Laura obedeceu. — Você parece ter uma preocupação genuína com esse projeto — ele comentou. — Eu tenho. — Por quê? Ela pensou antes de responder. — Porque, para algumas pessoas, receber ajuda não é um detalhe. É a diferença entre conseguir viver com independência ou depender de alguém para tudo. Anthony ficou em silêncio. — Meu pai sempre dizia que uma empresa precisa apresentar resultados — comentou ele. — Mas nem sempre concordávamos sobre o que deveria ser considerado resultado. — E o que você considera? Ele olhou para a janela. — Talvez seja justamente isso que ainda estou tentando descobrir. Laura percebeu algo diferente naquela resposta. Por trás do homem sério e seguro que todos conheciam, parecia existir alguém cansado de carregar expectativas que nunca escolheu. — Você sempre quis trabalhar com isso? — ela perguntou. Anthony soltou uma breve risada sem humor. — Não exatamente. Meu pai sempre imaginou que eu assumiria a empresa. Cresci ouvindo que um dia tudo seria minha responsabilidade. — E você não queria? — Eu queria escolher. Laura o observou com curiosidade. — Deve ser difícil ter tudo e ainda sentir que não pode escolher. Anthony voltou os olhos para ela. — Você acha que dinheiro resolve tudo? — Não. Acho que dinheiro resolve muita coisa, mas não compra liberdade quando outras pessoas decidem o que você deve fazer com a sua vida. Ele ficou olhando para ela por alguns segundos. — Você fala como alguém que já precisou lutar pela própria liberdade. Laura sorriu. — Talvez eu só goste de ter opinião. Anthony também sorriu, discretamente. O silêncio que surgiu entre eles não foi desconfortável. Até que ele voltou ao assunto profissional. — No próximo sábado, nossa equipe fará uma visita a uma das instituições parceiras. Gostaria que você acompanhasse o grupo. Laura arregalou os olhos. — Eu? — Você. Suas sugestões podem ser úteis quando conhecermos a realidade da instituição. — Eu adoraria. — O transporte sairá às oito da manhã. Mariana enviará os detalhes. — Estarei lá. Laura se levantou, recolheu seus documentos e agradeceu. Ao sair da sala, encontrou Gustavo no corredor. — Convite especial? — ele perguntou, com um sorriso provocador. — Visita profissional. — Claro. Aqui tudo é muito profissional. — Você deveria trabalhar mais e falar menos. Gustavo colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido. — Essa menina vai longe. Laura riu e seguiu pelo corredor. Gustavo entrou na sala de Anthony logo depois. — Você está arrumando companhia para sábado? — Estou organizando uma visita técnica. — Sei. Anthony ignorou a provocação. — Gustavo, conseguiu analisar os documentos? O sorriso do amigo desapareceu. Ele colocou uma pasta sobre a mesa. — Consegui. E a situação é pior do que parecia. Anthony abriu a pasta. Havia cópias de relatórios, registros de pagamentos e datas de alterações. — Os valores foram modificados antes de serem enviados ao nosso departamento — explicou Gustavo. — E isso não foi feito por qualquer funcionário. Anthony folheou os documentos. — Quem teve acesso? Gustavo apontou para uma lista. — Pessoas com autorização de nível diretivo. Anthony ficou imóvel. — Você está dizendo que alguém da diretoria está envolvido? — Estou dizendo que alguém com acesso privilegiado está alterando informações de um projeto que deveria ajudar pessoas. Anthony fechou a pasta lentamente. — Não quero acusações sem provas. — Eu também não. Mas precisamos descobrir quem está fazendo isso antes que percebam que estamos investigando. Anthony olhou para a porta por onde Laura havia saído alguns minutos antes. Ela tinha encontrado a primeira inconsistência sem sequer saber o tamanho do problema. E agora estava prestes a visitar uma das instituições envolvidas. — No sábado, quero atenção redobrada — ordenou Anthony. Gustavo franziu a testa. — Está preocupado com os documentos ou com a estagiária? Anthony lançou um olhar duro para ele. — Estou preocupado com a empresa. Gustavo não respondeu. Mas conhecia Anthony havia tempo suficiente para perceber quando ele estava escondendo alguma coisa. Naquela noite, Laura recebeu uma mensagem confirmando o horário da visita. Ela sorriu, animada com a oportunidade. Não fazia ideia de que, enquanto organizava a roupa que usaria no sábado, alguém dentro do Grupo Avelar já havia descoberto que os relatórios estavam sendo investigados. E essa pessoa não estava disposta a deixar a investigação continuar.CAPÍTULO 70 — Narrado por Laura— Eu ainda não acredito que você vai se casar.Olhei para Isabela sentada diante de mim, folheando uma pasta enorme cheia de revistas, amostras de tecidos e fotografias.Ela levantou os olhos.— Eu também não.— Você está noiva há quanto tempo?— Pouco mais de uma semana.— E já tem uma pasta desse tamanho?Ela sorriu.— Gabriel disse que eu podia escolher tudo.— Péssima ideia.— Por quê?— Porque agora você vai destruir o cartão dele.Isabela gargalhou.— Ele já sabe.Marina, sentada ao nosso lado, entrou na conversa:— E ele ainda não descobriu o preço do vestido.— Nem precisa descobrir — Isabela respondeu. — Quero que seja surpresa.Começamos a rir.Aquele almoço deveria ser apenas uma conversa entre amigas, mas havia se transformado em uma verdadeira reunião de planejamento.Casamento.Vestido.Local.Decoração.Convites.Música.Tudo parecia acontecer rápido demais.Mas, ao olhar para Isabela, eu conseguia entender.Ela estava feliz.Daquela fel
CAPÍTULO 69 — Narrado por LauraEu nunca imaginei que uma tatuagem pudesse carregar tanto significado.Mas talvez porque aquela não fosse apenas uma tatuagem.Era nossa.O pequeno desenho do nó de marinheiro repousava na parte interna do meu antebraço, ainda protegido pelos cuidados que o tatuador havia recomendado.Passei os dedos ao redor das linhas com delicadeza.Dois caminhos.Duas pontas.Entrelaçadas.Sem começo ou fim claramente definidos.Anthony estava sentado ao meu lado no banco traseiro do carro, observando o próprio braço.Ele parecia estranhamente pensativo.— Você está arrependido? — perguntei.Ele levantou os olhos.— Da tatuagem?— Sim.Anthony soltou uma risada baixa.— Laura, depois de tudo que você já me fez enfrentar, você realmente acha que uma tatuagem seria capaz de me assustar?— Então não está arrependido?Ele aproximou o braço do meu.As duas tatuagens ficaram lado a lado.— Nem um pouco.Sorri.— Eu gostei.— Eu também.Ficamos em silêncio por alguns segu
CAPÍTULO 68LauraEu deveria ter imaginado que contar aos nossos amigos sobre a tatuagem seria um erro.Um erro enorme.— NÃO ACREDITO! — Isabela praticamente gritou assim que viu meu braço.Estávamos em um restaurante reservado no Rio. Uma noite simples entre amigos, sem reuniões, sem assuntos da Holding e, principalmente, sem ninguém falando de trabalho.Era exatamente o que eu precisava.— Ficou linda! — Marina segurou meu braço com cuidado. — E o significado?Olhei para Anthony.Ele estava sentado ao meu lado, tranquilo demais.— Força — respondi. — Resistência. União.Gabriel ergueu a taça.— E o mais importante?Anthony respondeu:— Entrelaçamento.Gabriel fez uma expressão exageradamente emocionada.— Meu Deus. O homem virou poeta.Todos riram.Anthony olhou para ele.— Quer que eu mande você embora?— Não.Gabriel tomou um gole do vinho.— Mas eu precisava tentar.Isabela deu um tapa leve no braço dele.— Para de provocar meu futuro marido.Gabriel imediatamente olhou para ela
CAPÍTULO 67LauraEu sempre achei curioso como algumas decisões pareciam enormes antes de serem tomadas e, depois que aconteciam, pareciam simplesmente inevitáveis.Naquela manhã, enquanto observava Anthony dirigir pelas ruas do Rio, eu pensava em todas as vezes que havíamos falado sobre aquela tatuagem.Anos.Sempre existia um motivo para adiar.Uma viagem.Uma reunião.Uma mudança.Uma fase nova.E, principalmente, aquela nossa mania de acreditar que ainda teríamos tempo para tudo.Olhei para ele.Anthony dirigia com uma das mãos no volante e a outra apoiada no console.— Você está quieta demais — ele comentou.— Estou pensando.— Isso me preocupa.Revirei os olhos.— Engraçadinho.Ele sorriu.— Em quê?— Na tatuagem.Anthony ficou alguns segundos em silêncio.— Está arrependida?— Não.— Nervosa?— Talvez.Ele finalmente olhou para mim.— Laura.— O quê?— Se você desistir, eu desisto também.Franzi a testa.— Você esperou tanto quanto eu.— Justamente.Ele estendeu a mão.Entrelac
CAPÍTULO 66LauraEu deveria ter aprendido, depois de tantos anos, que provocar Anthony Avelar tinha consequências.Mas algumas lições eu simplesmente não queria aprender.— Você está me olhando de novo — murmurei, sem tirar os olhos do espelho.Atrás de mim, Anthony estava encostado na porta do closet, com os braços cruzados e aquele meio sorriso que eu conhecia perfeitamente.— Estou olhando para minha esposa.— Há uma diferença entre olhar e encarar.— Eu sei.Virei-me.Ele continuava exatamente onde estava.Terno escuro, camisa aberta no primeiro botão, barba curta impecavelmente cuidada. Jovem demais para carregar a imagem de um CEO que fazia salas inteiras ficarem em silêncio quando entrava, mas seguro demais para precisar provar alguma coisa.Anthony deu dois passos na minha direção.— E você está fazendo isso de propósito.— Fazendo o quê?— Fingindo que não percebe o efeito que causa.Sorri.— Talvez eu só goste de ver você perder a concentração.Ele soltou uma risada baixa.
CAPÍTULO 65 — 22h58 — A ligaçãoANTHONYAnthony desligou o telefone e permaneceu alguns segundos olhando para a tela.Laura, que estava sentada no sofá, percebeu imediatamente a mudança em seu rosto.— O que aconteceu?Ele passou a mão pela nuca.— A mãe da Isabela passou mal. Está no hospital. Ainda estão fazendo exames.Laura se levantou.— Meu Deus… E a Isabela?— Está com ela. Gabriel vai para lá.— Então nós também vamos.Anthony olhou para a esposa.— Laura, já está tarde. Não sabemos exatamente o que está acontecendo.— Justamente por isso. Isabela não deveria passar por isso sozinha.Anthony não discutiu. Pegou as chaves do carro enquanto Laura buscava a bolsa.Antes de saírem, ele segurou a mão dela.— Você tem razão.Ela apertou os dedos dele.— Eu sei.— Impressionante. Três anos de casamento e você continua aproveitando qualquer oportunidade para me lembrar disso.Laura soltou uma risada nervosa.— Anda, Anthony.— Sim, senhora.---23h36 — HospitalGABRIELGabriel estava







