MasukNarrado por Henrique
Vi que ainda confiava só em mim naquele momento e sorri, tentando passar segurança: — Pode confiar no meu amigo. Ela balançou a cabeça e seguiu os policiais, lançando olhares para mim até se aproximar do carro. De repente, ela correu de volta e perguntou desesperada: — Por favor, senhor, onde está Alberto? Eles estavam atrás dele também!Olhei para ela e, meio aborrecido, perguntei: — Alberto? É seu namorado? Antes que respondesse, o celular dela tocou. Pegou com nervosismo e disse: — Alberto, onde está? Ele informou a rua onde conseguiu despistar os perseguidores e que estava perto dali. Ela sorriu e pediu para ele ir até ela, mas não falou sobre a polícia presente. — Pode dispensar seus amigos policiais? — perguntou. — Por que você não vai mais depor? — perguntei irritado. — Sim, vou. Mas Alberto, que está envolvido nessa confusão, pode não querer vir se vir a polícia lá. Preciso convencê-lo antes. — Você disse aluno? — perguntei, surpreso. — Sim, delegado… Ainda não sei seu nome, senhor? — Henrique Macedo. — Muito prazer, senhor Macedo. Devo a minha vida a você. — Não precisa agradecer. Sou delegado, apenas fiz meu dever. Sabia que faria aquilo por ela, mesmo que não fosse delegado. Ela sorriu novamente e falou: — Sou professora de história no colégio São Jorge, morro Madalena. Alberto é meu aluno. Não sei como reagirá ao ver a polícia. — Entendi. Parece que ele está envolvido em algo sério. — Não acredito nisso, ele sempre foi esforçado. — Vamos descobrir. Vou falar com Santos. Ela concordou silenciosamente. Falei com Santos e o dispensei. Depois, voltei a ela, toquei seu ombro e, olhando em seus olhos, falei: — Estou encarregado de levar você e seu aluno até a delegacia. Se ele não vier por bem, terá que ir por mal. Ela assentiu nervosa, mordendo o lábio. Aquilo me fez engolir em seco e desviar o olhar daquele rosto belo e delicado. Assim que o garoto chegou, abraçou Anita, mas demorou-se naquele gesto, e ela logo voltou a chorar. Eu, que observava a cena à distância, senti uma certa raiva do garoto — sabia que aquele abraço da parte dela, não era apenas afeto, mas um alívio pela certeza de que ambos estavam vivos após o grande perigo que enfrentaram. Porém, notei um brilho nos olhos dele, um lampejo de admiração por sua professora. Ele devia ter uns 18 anos, mais ou menos, e um pensamento me passou pela cabeça: — Qual jovem nunca sonhou com sua professora? Ainda mais uma tão linda quanto Anita? Esse pensamento me incomodava. Estava sentado à parte, em uma mesa do restaurante, a pedido dela. Porém levantei-me, mas não me aproximei ainda porque Anita fez um sinal para que eu esperasse. Ela olhou para mim, depois para Alberto, que falava suavemente enquanto segurava sua mão: — Calma, professora. Já passou. Graças a você, estamos vivos! Sabe que lhe devo minha vida, não sabe? Ela franziu o cenho, séria: — Acabou, Alberto? Será que acabou mesmo? Aqueles homens eram muito perigosos e iam te matar ali mesmo se eu... Agi por impulso, nem sabia o que estava fazendo. Só quis te salvar. Mas preciso saber... — Professora Anita, eu... — Não, Alberto. Ainda não terminei. Quero que me conte o que aconteceu. O que fazia de fato naquela casa? Por que disseram que foi você quem pediu para falar com o proprietário? E quem era a pessoa que insistia para que ele soltasse? Ele hesitou, pensando se deveria contar ou não. — Fale, Alberto. Quem eram aqueles homens? Por que você se meteu nessa confusão? A dona Olga sabe disso? — Não, professora... minha mãe não pode saber disso. Ela teria um ataque se soubesse... Ao notar que eu me aproximava, ele percebeu que não era um simples cliente e calou-se. Anita o incentivou novamente: — Alberto! — Vamos, rapaz. Conta logo, você terá que falar, por bem ou por mal! — falei com minha voz firme e pesada, que pareceu amedrontar o garoto. Anita me olhou surpresa. Aparentemente confusa a mudança tão repentina. Afinal aquele homem gentil de minutos atrás havia se tornado alguém arrogante – e parecia confusa a — Quem é você? — perguntou ele assustado com minha expressão. — Delegado Henrique Macedo, e você é Alberto, certo? — perguntei. — Envolveu a polícia nisso, professora? — questionou ele, ainda mais assustado. — Os homens me perseguiram até aqui, no restaurante, e eu devo minha vida a esse delegado. Se não fosse por ele, eu estaria morta agora. Mas não terminou. Eles ainda vêm atrás de mim. Viram meu rosto nas câmeras da casa, e você sabe que isso me põe em risco. Então, sim, chamei a polícia, e chamaria de qualquer jeito. — disse Anita, olhando para ele com seriedade. O rapaz baixou a cabeça e murmurou envergonhado: — Desculpa, professora Anita, por lhe envolver em toda essa confusão. Eu... — Não foi você, fui eu mesma. Mas jamais deixaria que machucassem meus alunos sem fazer nada — disse ela, com convicção sem afetação alguma. Ao escutar aquilo, senti uma admiração ainda maior por aquela mulher pequena, forte e determinada. — Eu não queria que passasse por isso, professora. Agora você corre perigo por minha causa — falou ele, arrependido. — É por isso que você precisa contar tudo de uma vez. Você não quer professora sofram por causa disso, quer ? — perguntei, mais sério e carrancudo. — Eu não posso, eu... — Não pode? Acha que não? Minha paciência acabou. Você vai falar, e será na delegacia! — afirmei, aproximando-me e pegando-o pelo colarinho, puxando-o para o meu carro. Anita seguiu atrás, implorando: — Por favor, delegado, não o machuque! Alberto, fale logo! O garoto olhou para ela assustado e finalmente disse: — Tudo bem, professora, eu falo! E então, diante de mim, desabafou: — Meu irmão mais velho é usuário e deve dinheiro para o Pivô. Ele o sequestrou, mas ainda não o matou porque paguei metade da dívida. Tenho até amanhã para conseguir o restante, ou ele o mata, mas ainda não consegui juntar o restante do dinheiro. Soube que o Pivô tinha essa casa aqui na Villa Olímpia. Pedi para falar com ele, para poder pedir mais tempo, mas ele ficou furioso e mandou os homens me apagarem. Só estou vivo por sua causa, professora. — E sua mãe não sabe disso? Como isso é possível? — ela perguntou aparentemente intrigada. — Boa pergunta! — falei de cenho franzido fuzilado o rapaz com um olhar que respondeu, assustado, baixando o olhar. — Meu irmão mora no começo do morro, e minha mãe quase não sai de casa. Eu sou o único que vai vê-lo. Enganei ela dizendo que está tudo bem, mas não sei por quanto tempo. Anita olhou para mim e explicou: — Dona Olga, a mãe de Alberto, é cadeirante e enfrenta grandes dificuldades para se locomover no morro. Mesmo assim, meu olhar não suavizou. Continuava a encará-lo com firmeza, quase feroz. Alberto, gaguejando, falou: — Agora não sei o que vai acontecer com ele... Ele começou a chorar, e Anita segurou sua mão com ternura: — Calma, querido. Agora você terá ajuda da polícia. O brilho nos olhos dele, ao sentí-la ali, não passou despercebido por mim. Fale com raiva: — Isso era para ter feito faz tempo! Ter buscado a juda da polícia — Acho que não vamos conseguir salvá-lo a tempo, professora. Se algo acontecer, não sei o que será da minha mãe... — lamentou. — Você terá que depor sobre tudo se quiser que a polícia ajude seu irmão. E não se esqueça: fala a verdade, entendeu? — afirmei, sério. Alberto apenas concordou. Entramos no carro e fui até a delegacia. Anita e eu esperamos lá fora enquanto Alberto dava o depoimento. Fiquei fascinado pelo delicado perfil dela, e ela percebeu meu olhar e corou. Sorri ao ver isso. Um rapaz passou por Anita e disse: — Professora Anita Furacão? O que faz aqui? Ela ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços, fazendo um bico: — Pedro, sabe que odeio esse apelido! — Desculpa, professora, é que é difícil evitar! Mas o que aconteceu? Ela olhou para mim, que respondi: — Assalto! — Poxa, eu também estou por isso. A loja do meu pai foi assaltada e vim com ele — disse o rapaz, abatido. — Sinto muito — falou Anita. — A senhora conseguiu recuperar algo? — perguntou ele. — Ah, sim! Mas preciso ainda registrar a queixa. Desculpe, tenho que ir — disse e entrou na sala do delegado. Ao passar pelo, pai do seu aluno, ele comentou: — Professora Anita?! — Desculpa, senhor, seu filho explica depois — disse ela, um pouco impaciente. Enquanto entrava, resmungava: — Droga, com esses dois aqui, não é só o colégio que vai ficar sabendo, é toda a comunidade Madalena... Olhei para ela, intrigado, buscando entender o significado daquele apelido, mas naquele momento preferi não perguntar nada, afinal o narizinho arrebitado dela estava totalmente franzido evidenciando a sua irritação.Narrado por Yuri O aeroporto de Guarulhos era um caos de pessoas, malas e sons. Eu odiava isso. Odiava a imperfeição. Odiava o Brasil. Já tinha vindo aqui algumas vezes a trabalho, mas nunca permanecia mais que alguns dias. Era um país simplesmente insuportável. Mas estava aqui. Pela minha filha. Pela minha esposa. E eu as teria novamente. Afinal, agora podia dizer que Anita estava bem mais estável. Poderíamos finalmente ser uma família feliz. Já que ela tinha uma filha minha, inventaria qualquer coisa. Mas teria Anita novamente comigo, junto com minha filha. — Senhor Ryang — meu advogado, Dr. Park, apareceu ao meu lado. — A comitiva está pronta. Temos os documentos. Temos os contatos. Mas… — Mas o quê? — A situação é mais complicada do que pensávamos. Aquele delegado… ele é bem conectado. Contratou uma firma de advocacia muito poderosa. A Mendonça & Associados. Meu sangue ferveu. Mas minha expressão não mudou. — Mendonça. Nunca ouvi falar. — É uma firma brasileira, mas com fi
Narrado por Yuri Há duas semanas atrás… O escritório em Seul era um reflexo perfeito de quem eu era: mármore frio, linhas retas, nenhuma imperfeição. Assim como eu. Assim como tudo que eu construí. Meu celular vibrou sobre a mesa de vidro. O nome na tela era de um dos meus informantes no Brasil. — Fale. — Senhor Ryang, temos novidades. A situação mudou. Inclinei-me para frente na cadeira de couro. Meus dedos tamborilaram uma vez. Um único toque. Preciso. — Explique. — O avô dela, Ninho Jeong, está no Brasil. E… ele mudou de lado. Está apoiando Anita. E há um homem. Além disso.. há um delegado. Henrique Macedo. Ele está… envolvido com ela. Ambos estão tendo um caso. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Não houve grito. Não houve explosão. Isso seria vulgar. Isso seria extremamente medíocre. Eu não era medíocre. Eu era Yuri Ryang. Um sorriso lento, gélido, curvou meus lábios. Não era um sorriso de alegria. Era um sorriso de cálculo. De um predador que acabou de identificar
Narrado por Henrique Saímos do galpão, mas infelizmente não podia seguir com a Anita como falei. Ainda tinha que resolver o problema com Madalena. E um outro problema que precisava ser resolvido o quanto antes. "Yuri." Peguei meu celular. Disquei um número que não gostava de discar, mas que estava virando uma constante, depois da entrada de Anita em minha vida. — Júlio. Sou eu. Silêncio do outro lado. — Henrique? — A voz da pessoa do outro lado estava carregada de surpresa. — Você está… bem? — Não. E preciso da sua firma para algo de extrema importância. — Minha firma? Para quê? — Para o caso mais importante da sua vida. Você vai me ouvir. E vai aceitar. — Fechei os olhos, sentindo o gosto amargo das palavras. — Ou eu entro com uma ação para reivindicar o que é meu. E os seus cinquenta por cento congelam. Você não pode comprar minha parte sem meu acordo. — Você está me chantageando? — A voz dele subiu de tom. — Seu… — Sim. Estou. — Minha voz não vacilou. — E não me importa o
Narrado por HenriqueA zona leste de São Paulo era um labirinto de galpões abandonados, ruas sem saída e becos escuros. O tipo de lugar onde o mundo esquecia que havia lei.O tipo de lugar que eu odiava, mas também era exatamente o tipo de lugar perfeito para encurralar ratos.— Alfa, posição — ordenei pelo rádio.— Alfa posicionado. Vista do galpão 47 desobstruída. Dois suspeitos na entrada.— Bravo?— Bravo na cobertura. Sem movimento nas laterais.— Snipers?— Sniper um, pronto.— Sniper dois, pronto.Respirei fundo. Sabia que não poderia estar usando a minha equipe para aquela ação pessoal, mas se não tivesse a chance de salvar a minha garota e sua filha, eu não era digno de ser um delegado. Era o que eu pensava naquele momento. Suspirei e olhei novamente para o galpão. A chuva havia voltado, uma garoa fina que transformava o chão em lama. Cada passo era um ato de vontade.— Santos, me dê o mapa.Ele estendeu o tablet. As amizades que eu havia construído com pessoas específicas me
Narrado por Henrique O carro cortava a noite da zona leste em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado pela chuva fina que teimava em cair. Ivan estava ao meu lado, verificando o mapa no tablet, enquanto eu mantinha os olhos fixos na estrada. — A emboscada foi limpa — ele disse, sua voz carregada de tensão. — Três mortos e dois feridos. Nenhum dos nossos. — Bom. — Minha voz saiu seca, metálica. Não havia espaço para emoção agora. Apenas cálculo. — E o Pivô? — Não estava lá. Era isca. Maldição. O galpão que havíamos invadido naquela noite tinha sido um banho de sangue. Quando chegamos com a E.I.E., já sabíamos que algo estava errado. Os homens que encontraram não eram traficantes de baixo escalão. Eram mercenários. Profissionais. E isso significava apenas uma coisa: alguém com muito dinheiro e muita influência estava por trás daquilo. A troca de tiros foi brutal. Eles atiraram primeiro, sem hesitação. Nós revidamos com a precisão que anos de treinamento nos de
Narrado por AnitaA manhã chegou cedo, e com ela, a partida de Henrique. Ele me beijou a testa antes de sair, seus olhos ainda carregados da ternura da noite anterior, mas já assumindo a frieza do delegado.— Vou para a delegacia. Ivan tem novidades sobre possíveis esconderijos do Pivô. Se conseguirmos chegar às pessoas ligadas a ele, podemos descobrir onde está.— Toma cuidado — eu disse, segurando a lapela do seu casaco. — E me avisa se não puder almoçar.— Vou avisar, coisinha pequena. Prometo.Ele saiu, e eu fiquei observando a porta se fechar, meu coração dividido entre o medo e o orgulho. Meu delegado. Meu protetor. Cuidadoso até nos silêncios.Eu, por outro lado, teria que ir para a comunidade. Ainda estava me arrumando e me preparando para levar Shun-he ao colégio quando meu celular vibrou. Era ele novamente.— Anita, não vou conseguir voltar para almoçar. Ivan e eu estamos seguindo uma pista. Um dos contatos do Pivô pode estar em um galpão na zona norte. Vamos verificar.— He