FAZER LOGINTomás já estava com o telefone na mão quando eu o segurei pelo pulso.— Antes de você colocar vinte pessoas para descobrir quem vazou isso, eu quero pensar.Ele me olhou como se eu tivesse acabado de sugerir que deixássemos um incêndio se resolver sozinho.— Clara, alguém teve acesso a uma informação que não deveria ter. Não é só a gravidez. Eles sabem dos gêmeos e sabem que você interrompeu o tratamento.— Eu entendi.— Então por que eu não posso descobrir de onde saiu?— Porque você pode. Só não quero que essa seja a primeira coisa que aconteça.Tomás respirou fundo e pousou o telefone sobre a bancada, embora com a expressão de um homem a quem tinham confiscado uma arma.Eu voltei a olhar para o print. A matéria ainda estava aberta no meu celular e, quanto mais eu lia, menos a gravidez parecia ser o assunto. Os dois bebês apareciam quase como detalhe de uma narrativa que já tinham decidido por mim: eu tinha emagrecido, engravidado e agora meu corpo começaria uma espécie de prova púb
Fiquei olhando para a mensagem de Eduardo.“Você sabia que a Bianca ia me devolver o anel.”Li duas vezes.Depois uma terceira, como se as palavras pudessem mudar de posição.Tomás ainda estava deitado ao meu lado, com um braço sobre os olhos.— O que foi?— Eduardo.O braço saiu.— Excelente maneira de começar o dia.— Bianca devolveu o anel.Tomás sentou.— Disse não?— Não sei.Mostrei a mensagem.Ele leu.— Parece bastante com um não.— Obrigada pela análise.— Disponha.Digitei:“Não sabia.”Eduardo visualizou imediatamente.“Ela falou com você hoje.”Parei.Como ele sabia?Então lembrei.Bianca provavelmente tinha contado que me ligaria.“Falou. Mas quando desligamos ela ainda não tinha respondido.”A resposta demorou mais.“Entendi.”Só isso.Tomás olhava para mim.— Não começa.— Não falei nada.— Sua cara está falando.— Minha cara acha que você está prestes a entrar no relacionamento deles.— Eu não estou.O celular vibrou de novo.Eduardo.“Desculpa. Não devia ter te mandad
Fiquei olhando para Bianca pela tela.Ela ainda estava com aquela expressão de quem tinha colocado uma granada no meio da conversa e agora esperava que eu dissesse alguma coisa inteligente.Não disse.— Repete.— Eduardo me pediu em casamento.— Essa parte eu ouvi.— Então por que pediu para repetir?— Porque parece uma frase inventada.Bianca quase sorriu.— Não é.— Ontem?— Ontem à noite.— Antes de você saber do meu pedido?— Muito antes.Parei.Aquilo importava mais do que eu gostaria de admitir.— Ele não sabia mesmo?— Clara, eu não sabia que o Tomás tinha te pedido. Como o Eduardo saberia?Justo.— E como foi?A pergunta saiu rápido demais.Bianca levantou uma sobrancelha.— Você quer detalhes?Queria.Isso me irritou.— Talvez.— Clara.— Não quero saber se teve pétala.— Não teve.— Ainda bem.— Nem restaurante.— Melhor.— Nem violino.— Excelente. Dois homens minimamente treináveis.Bianca sorriu.Depois ficou séria de novo.— Foi aqui.— Na sua casa?— Sim.— Com a Elisa?
Fiquei olhando para Tomás ajoelhado diante de mim.A pergunta ainda estava no quarto.— Casa comigo?Meu cérebro fez uma coisa muito pouco digna.Parou.Completamente.Eu tinha imaginado aquela cena depois da conversa com minha mãe. Depois do anel de Marina. Depois de Bianca enfiar a ideia na minha cabeça.Tinha até decidido, em vários momentos, o que faria se acontecesse.Nenhuma das respostas apareceu.Tomás começou a ficar pálido.— Clara.— Espera.— Certo.— Não fala “certo”.— Desculpa.— E não pede desculpa.Ele fechou a boca.Continuei olhando.Não havia anel.Não havia fotógrafo escondido.Não havia pétala.Não havia música.Só Tomás ajoelhado no chão do quarto que tinha criado para mim antes de saber que eu estava grávida.Aquilo importava.Muito.— Você tem certeza? — perguntei.A expressão dele mudou.— Tenho.— Não responde rápido.— Mas eu tenho.— Tomás.Ele respirou.— Está bem.Esperou.Depois falou devagar:— Eu tenho certeza de que quero casar com você. Não tenho ce
Fiquei olhando para Tomás ajoelhado diante de mim. A pergunta ainda estava no quarto. — Casa comigo? Meu cérebro fez uma coisa muito pouco digna. Parou. Completamente. Eu tinha imaginado aquela cena depois da conversa com minha mãe. Depois do anel de Marina. Depois de Bianca enfiar a ideia na minha cabeça. Tinha até decidido, em vários momentos, o que faria se acontecesse. Nenhuma das respostas apareceu. Tomás começou a ficar pálido. — Clara. — Espera. — Certo. — Não fala “certo”. — Desculpa. — E não pede desculpa. Ele fechou a boca. Continuei olhando. Não havia anel. Não havia fotógrafo escondido. Não havia pétala. Não havia música. Só Tomás ajoelhado no chão do quarto que tinha criado para mim antes de saber que eu estava grávida. Aquilo importava. Muito. — Você tem certeza? — perguntei. A expressão dele mudou. — Tenho. — Não responde rápido. — Mas eu tenho. — Tomás. Ele respirou. — Está bem. Esperou. Depois falou devagar: — Eu tenho certeza de que
Passei os dois dias tentando descobrir o segredo de Tomás. Não porque eu fosse controladora. Porque ele era péssimo escondendo felicidade. Havia diferença. Na quinta-feira, ele recebeu uma mensagem durante o café e sorriu para o telefone. — Quem é? — Ninguém. — Ninguém está muito engraçado ultimamente. — Você está ficando paranoica. — Você passou sete anos guardando um quarto, um anel e metade da sua história. Eu tenho treinamento. Tomás fechou os olhos. — Justo. Peguei uma torrada. Ele olhou. Eu olhei de volta. — O quê? — Nada. — Você olhou para a torrada. — Eu olhei para você. — Muito perto da torrada. Tomás começou a rir. — Clara, eu juro por Deus que não estou fiscalizando seu café da manhã. — Ótimo. Passei manteiga. Mais do que normalmente colocaria. Por pura infantilidade. Comi olhando para ele. — Isso foi para mim? — Um pouco. — Você e Eduardo realmente transformaram comida num instrumento de vingança. Parei. — Ele contou? — Contou o quê? — Nada.







