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CAPÍTULO 55

Author: Alan Rios
last update publish date: 2026-10-08 00:37:58

Eu fui atrás de Tomás.

Não pensei muito. Só fui.

Atravessei o corredor, virei a esquina e encontrei ele perto dos elevadores, falando com Lívia. Ela percebeu minha aproximação antes dele, olhou para mim, depois para Tomás e fez uma expressão tão discreta que teria sido educada se eu não soubesse exatamente o que significava.

Problema.

— Tomás.

Ele virou.

Lívia olhou para nós dois.

— Eu vou descer.

— Não precisa — ele disse.

— Precisa, sim.

Ela entrou no elevador sem esperar autorização.

Fiquei
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    Eu fui atrás de Tomás.Não pensei muito. Só fui.Atravessei o corredor, virei a esquina e encontrei ele perto dos elevadores, falando com Lívia. Ela percebeu minha aproximação antes dele, olhou para mim, depois para Tomás e fez uma expressão tão discreta que teria sido educada se eu não soubesse exatamente o que significava.Problema.— Tomás.Ele virou.Lívia olhou para nós dois.— Eu vou descer.— Não precisa — ele disse.— Precisa, sim.Ela entrou no elevador sem esperar autorização.Fiquei ali, ainda sentindo a boca quente do beijo com Eduardo, o que tornava toda aquela cena muito pior.— Você pode me ouvir?Tomás apertou o botão do elevador.— Posso.— Não assim.— Assim como?— Como se estivesse esperando o elevador enquanto eu tento explicar.Ele olhou para mim.— Clara, eu não vou fazer uma cena no seu evento.— Eu não quero uma cena.— Ótimo, porque eu também não.O tom era calmo demais.Preferia que ele estivesse com raiva.— Aconteceu agora.— Eu percebi.— Não foi planejad

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    Eu não respondi.Fiquei olhando para Tomás durante alguns segundos, com a bolsa presa contra o corpo e uma irritação que provavelmente tinha menos a ver com ele do que comigo mesma. A pergunta era simples demais para permitir uma resposta confortável. Se eu dissesse que não queria beijar Eduardo, estaria mentindo. Se dissesse que queria, transformaria alguns segundos de hesitação numa coisa maior do que eu sabia se era.— Eu não sei — falei por fim. — E acho que essa é a melhor resposta que consigo te dar agora.Tomás assentiu devagar.— Certo.— Não faz esse “certo”.— Clara, eu não tenho outro.Eu poderia ter começado outra discussão. Em vez disso, abri a porta.— Boa noite.— Boa noite.Ele não veio atrás.O caminho inteiro para casa foi uma sucessão de decisões maduras que eu não tomei. Pensei em mandar mensagem para ele. Não mandei. Pensei em ligar para Eduardo e perguntar que merda ele achava que estava fazendo ao procurar Tomás. Não liguei. Pensei em passar na casa de Helena e

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    Eu devia ter dito não.Era uma palavra simples, duas letras, e ainda assim fiquei olhando para Eduardo por tempo suficiente para que o silêncio começasse a dizer coisas que eu não tinha autorizado.Ele não avançou.Isso tornou tudo pior.Se tivesse me agarrado, tentado me beijar ou usado qualquer uma daquelas atitudes masculinas irritantes que facilitam uma boa indignação, eu poderia empurrá-lo, xingá-lo e sair dali com minha superioridade moral perfeitamente preservada. Em vez disso, ficou parado a poucos centímetros de mim, esperando.— Você precisa sair — falei finalmente.Eduardo sustentou meu olhar.— Preciso?— Precisa.— Certo.Ele deu um passo para trás.Meu corpo percebeu a distância antes da cabeça, o que foi humilhante.Eduardo passou a mão pela nuca e soltou o ar devagar.— Eu não vou te beijar sem você querer.— Ótimo.— Mas não vou fingir que não percebi.— Percebeu o quê?A expressão dele quase virou sorriso.— Que você pensou.Meu orgulho reagiu imediatamente.— Eu est

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    Passei o resto da manhã tentando trabalhar como se Eduardo não tivesse acabado de me informar, dentro de um elevador, que pretendia me fazer apaixonar por ele de novo.O problema não era acreditar que conseguiria. Era perceber que uma parte de mim queria descobrir como ele pretendia tentar.Isso me irritava num nível quase ofensivo.Eu tinha reuniões, números para aprovar e uma empresa para administrar, mas em algum canto ridículo da minha cabeça continuava repetindo a conversa. Eduardo não tinha prometido flores, viagens, presentes ou qualquer uma das coisas que eu poderia rejeitar facilmente. Tinha feito algo muito pior: reconhecido que provavelmente não tinha chance e decidido tentar mesmo assim.Às dez, Renato entrou na minha sala com a equipe da campanha e me salvou de mim mesma.— Hoje é prova de figurino e ensaio de câmera com você e Bianca.Olhei a agenda.— Isso não era amanhã?— Antecipamos porque a Ferraz quer avaliar o conceito antes de fechar mídia.— Tomás vem?Perguntei

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    A resposta mais fácil teria sido dizer que não.Eu já tinha uma lista enorme de motivos para isso. Eduardo tinha me traído, mentido, passado meses tratando meu corpo como um problema e participado de decisões que quase me apagaram da empresa que eu ajudei a construir. Se alguém me perguntasse se eu queria voltar para aquele casamento, eu sabia responder sem hesitar.Não.Mas Tomás não tinha perguntado aquilo.— Eu não sei — respondi.A expressão dele mudou na hora.Não dramaticamente. Tomás não era homem de bater na mesa nem sair andando como se tivesse acabado de descobrir que a protagonista de uma novela tinha um passado. Ele apenas fechou o notebook com mais cuidado do que precisava e desviou os olhos por alguns segundos.— Certo.— Não faz isso.— Isso o quê?— Esse “certo” que claramente significa que não está certo.— Você preferia que eu dissesse o quê?Eu também não sabia.Levantei da cadeira e fui até a janela da sala de reuniões, mais para ter alguma coisa para fazer com o c

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    Eu tinha imaginado aquela frase durante anos.Não exatamente com aquelas palavras, mas perto o suficiente. Em algumas versões, Eduardo me dizia que meu corpo tinha mudado e que isso não fazia diferença. Em outras, me puxava para perto sem olhar para minha barriga como se estivesse tentando decidir se ainda gostava do que via. Na maioria, eu já estava mais magra quando ele dizia.Essa era a parte que mais me incomodava agora.Eu não estava.Continuava com o mesmo corpo que ele tinha criticado, com as mesmas roupas que ficaram mais apertadas, a mesma barriga que eu escondia em certas fotos e os mesmos braços que passei meses tentando diminuir. E, de repente, ele me olhava como se nada daquilo fosse problema.— Não faz isso comigo — falei.Eduardo franziu a testa.— O quê?— Não aparece depois de tudo dizendo exatamente o que eu passei anos querendo ouvir.— Eu não estou tentando manipular você.— Talvez não esteja. Mesmo assim, é conveniente.Ele se aproximou um pouco, mas parou do outr

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