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"Faz hoje um ano que abri as portas deste ateliê."
Olhei ao redor, absorvendo cada detalhe. Era maravilhoso ver o meu trabalho tomando forma. Neste momento tenho dezasseis alunos encantados pela arte do contacto do grafite com o papel — textura, leveza, camadas de intenção, luz e sombra.
— Ah, não consigo fazer isto! — desabafou Isabel, de 62 anos, muito impaciente. — Anabela, preciso de ajuda!
Aproximei-me com serenidade.
— Calma, Isabel. O que precisa? Mostre-me.
— Estou a tentar fazer um olho igual ao outro, mas não acerto! Nunca fica igual!
As marcas de borracha denunciavam as tentativas frustradas.
— Vamos olhar primeiro para a imagem de referência — apontei para a fotografia em escala de cinzas. — Este olho está perfeito. O outro está mais escondido. Por isso, serão diferentes: é a perspectiva.
Ela inclinou a cabeça.
— Ahh… tem razão. Mas não sei como fazer.
— Eu mostro.
Tracei linhas leves numa outra folha e guiei a sua mão. Minutos depois, o pássaro ganhava forma. Isabel sorriu, orgulhosa do primeiro desenho em grafite.
Desde que apresentei o projeto à assistente social Carla, as inscrições não pararam. Consegui parceria para pintura em acrílico às quintas e aos sábados, mas ainda preciso de mais cavaletes. Os de boa qualidade são caros e cada investimento pesa quando se vive do próprio sonho no primeiro ano.
Brevemente, quero reabrir a turma de aquarela, mas preciso de uma temática interessante.
A Primavera aproxima-se. Ouvi dizer que as cerejeiras no Douro vão desabrochar em breve. Sinto que preciso ir lá conhecer. Poderá servir-me de inspiração.
— Anabela, venha ver o cavalo que desenhei — chamou Rui, com um sorriso traquina que desmentia os seus 68 anos.
O cavalo cinza-escuro parecia respirar no papel.
— Rui, evoluiu muito. Lembra-se do alce da semana passada? Vamos comparar?
Rui colocou os dois desenhos lado a lado. A diferença era evidente.
— Consegue perceber a evolução da sua técnica de pelugem? — sorri.
Ele piscou-me o olho.
— Sim. Gosto de guardar as provas do meu avanço.
— E faz muito bem.
Senti um calor no peito. Além do orgulho, era a confirmação de que superei as dúvidas, as contas apertadas e o medo de falhar. Cada progresso dos meus alunos era também meu.
O meu projeto estava a funcionar.
— Muito bem, turma, vamos organizar tudo. Na quarta-feira continuamos — anunciei.
Saíram devagar, entre despedidas e risos suaves.
Apenas Rosa permaneceu. Aos 80 anos, organizava as folhas na sua pasta de couro com a mesma delicadeza com que segurava o lápis. Usava um conjunto azul‑pastel, com sobretudo e boina à francesa a combinar. Um alfinete prateado, em forma de rosa, brilhava discretamente no peito.
— Anabela, querida… posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?
Consenti com um leve aceno.
— É uma mulher inspiradora, sabe? Pergunto-me… tem um namorado?
Sorri por instinto, mas senti os ombros enrijecerem.
— Rosa… é uma pergunta bem pessoal — ri baixinho. — Não, não tenho. Por que a curiosidade?
Ela corou ligeiramente, abrindo um sorriso acolhedor.
— Porque é uma jovem, apaixonada pelo que faz, tem os olhos a brilhar quando fala de arte… e é linda. Como não tem namorado?
Corei também.
— Esteve a observar-me bem, pelo que percebo.
Cruzei os braços de forma divertida, sentindo os lápis guardados no bolso da camisa pressionarem o peito.
— A Anabela tem um dom — continuou ela. — Já fiz outros cursos, nos quais todos os alunos aprendiam a desenhar de forma semelhante. Aqui, somos livres. Sinto-me vista.
As palavras tocaram-me fundo.
— Fico muito feliz que sinta isso, Rosa.
Ela levantou-se, segurando a pasta de couro que reparei que combinava com as suas botas. Eu tinha uma admiração pela Rosa, era um exemplo para mim.
— Agora veja se começa a namorar, menina Anabela.
Caminhei ao lado dela até à porta.
— Já me iludi algumas vezes… não é fácil encontrar alguém que queira construir algo verdadeiro.
Rosa parou antes de sair e segurou-me a mão. Senti o calor do seu toque reconfortante.
— Não pense assim. No momento certo, algo especial aparece. Digo por experiência própria.
Apontou discretamente para a rua. Um senhor elegante aguardava, sorrindo com paciência.
— Hoje comemoramos sessenta anos de casados.
Observei enquanto ele pegava a pasta da sua mão e oferecia o braço para caminharem juntos. Havia ali cumplicidade, leveza e história. O meu peito apertou, desta vez pela esperança.
Os meus dias pertenciam ao trabalho, às cores, às telas e aos traços inseguros que ganhavam coragem.
As noites… pertenciam à minha solitude. Mas eu estava pronta para manifestar algo diferente.
Talvez a Primavera trouxesse mais do que flores. Talvez trouxesse o amor que eu finalmente estava pronta para viver.
~ CarlosJá estava no meu lugar e já tinha verificado tudo pelo menos duas ou três vezes.As cadeiras estavam alinhadas entre as cerejeiras, as flores brancas distribuídas em pequenos arranjos, e o caminho por onde Anabela surgiria estava exatamente como tínhamos idealizado. Ainda assim, continuei olhando.— Se continuares a verificar as flores, alguém vai começar a achar que fizeram algo de errado.Olhei para Richard, que estava ao meu lado.— Quero ter certeza de que está tudo perfeito.Ele soltou uma pequena risada.— Carlos, quando estás ansioso, ficas a querer ter o controlo de tudo.— Eu sei.— É o teu casamento, então relaxa.Olhei ao redor.A Quinta Ferraz parecia diferente.Talvez fosse a luz daquela manhã. Talvez fossem as flores. Talvez fossem as cerejeiras, carregadas de pequenas flores que se moviam suavemente com a brisa.Ou talvez fosse apenas porque, pela primeira vez, eu não olhava para aquele lugar pensando em tudo o que precisava proteger.Hoje eu só queria viver.
Eu nem imaginava que o homem que eu manifestei seria o mesmo que encontrei aqui entre as cerejeiras. Qual era a probabilidade de um sonho daqueles se repetir na vida real? Sonhar em detalhes sobre algo e, numa manhã, a vida mudar completamente.Olhei pela janela, vi os meus pais a conversar com os pais do Carlos e mais atrás, estava ele. O amor da minha vida, da nossa vida, e passei a mão sobre a barriga.— Bela! Amore mio, sai de perto da janela, antes que alguém te veja!A Rebecca surgiu atrás de mim puxando a cortina para cobrir a janela.— Ah, desculpa, estava distraída — disse, afastando-me dali.Foi aí que reparei num grande buquê de rosas brancas.— E o que é isto?— Um pedido especial — respondeu ela. — Tem bilhete.Aproximei-me e senti o aroma das rosas. Um envelope estava entre as flores; peguei-o e abri-o. Não havia nenhuma mensagem, apenas um QR code.— Que estranho…— Não é nada estranho, faz o scan do código — disse, entregando-me o aparelho. — É de confiança, acredita!
~ CarlosO almoço foi divertido.A mansão ganhou uma energia diferente.As conversas espalharam-se pelos ambientes, e, finalmente, mais ninguém falava de auditorias, documentos nem de decisões empresariais.O meu pai e Leonard conversavam com o Tomás sobre os vinhedos da quinta. E a minha mãe estava com a Alice a trocar receitas pelo que percebi.As cerejeiras estavam especialmente bonitas naquela tarde. A quinta começava a transformar-se aos poucos para o casamento, e era impossível não sentir que aquele lugar estava a preparar-se para um momento importante.Eu estava prestes a acompanhar a Bela quando a Rebecca a abordou primeiro.— Bela, tens de vir comigo.Anabela olha para ela, divertida.— Isso parece perigoso.— É apenas uma visita de inspeção.— A quê?Rebecca sorriu.— À tua própria cerimónia.A minha mãe e a mãe da Bela juntaram-se imediatamente à conversa das duas.Olhei para as quatro e percebi imediatamente que já não tinha qualquer hipótese de manter a Bela comigo.— Par
~ CarlosQuando cheguei ao ateliê, alguns dos alunos já começavam a despedir-se. Parei do outro lado da rua e fiquei a observá-la por alguns instantes.A Anabela estava junto a uma das mesas, a conversar tranquilamente com duas alunas enquanto recolhia alguns materiais. O cabelo caía-lhe suavemente sobre os ombros e havia aquela expressão serena que eu conhecia ao pormenor.Depois da manhã que tinha tido, aquela imagem quase parecia-me irreal.Passei horas numa sala onde cada palavra era medida, cada decisão tinha consequências e onde o meu tio tentava encontrar uma brecha para recuperar o controlo.Ali, diante dela, tudo parecia mais simples.Permaneci onde estava, sem interferir por enquanto.Afrouxei a gravata, o casaco ficou no carro, e ainda bem, pois os dias estão a ser mais quentes a cada dia. Arregacei as mangas da camisa devagar e comecei a atravessar a rua.Pouco a pouco, os alunos foram saindo. Alguns despiram-se dela com abraços, outros com sorrisos e comentários sobre tra
~ CarlosPela primeira vez naquela manhã, a expressão de Luís mudou.— Rebecca?Assenti.— A Rebecca Ferraz assumirá interinamente a liderança do Polo de Itália, com o apoio do conselho diretivo, dos investidores majoritários e dos parceiros estratégicos, até à conclusão do processo de reorganização e redefinição da administração permanente. Uma das janelas da tela abriu o áudio.Era o representante de Seul.— Peço desculpas, mas gostaria de esclarecer uma questão antes de avançarmos. Rebecca Ferraz é filha do senhor Luís Ferraz, correto?— Sim. Mas, em caso de dúvidas, podemos consultar a Rebecca sobre a sua disponibilidade.O representante assentiu com interesse à minha sugestão.Eu sabia que a Rebecca estava no edifício.Pedro fez um breve sinal ao Miguel e este saiu da sala discretamente.Luís ajustou-se na cadeira.Observei-o atentamente.Até ali, tinha conseguido manter o controlo da própria expressão.Mas agora era diferente.Estávamos prestes a descobrir o que Luís faria ao v
~ CarlosNas vésperas do casamento, tornava-se cada vez mais difícil afastar-me da Bela. Ela estava no ateliê com os alunos, enquanto eu precisava tratar de assuntos que não podiam esperar.Eu fui direto para a sala de reuniões. Duarte conversava com Leonard, mas ambos interromperam a conversa quando me viram entrar.— Tudo pronto, Carlos — comentou Leonard. — O conselho está a par de tudo.— E temos o apoio necessário — acrescentou Duarte.Conferi o relógio. Faltavam vinte minutos para as nove.— Acham que o Luís ainda vai tentar alguma coisa?Leonard soltou um breve sorriso.— Conhecendo-o? Com certeza. Duarte aproximou-se de mim com calma.— Uma hora, a máscara dele vai cair — disse, num tom sério. — E, se ele reagir, estaremos preparados.Respirei fundo.Não tinha dúvidas de que Luís tentaria defender-se. Seria estranho se não o fizesse.O que eu precisava garantir era que, desta vez, ele não conseguisse escolher o terreno onde a discussão aconteceria.Bateram à porta.Pedro, o a







