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CAPITULO 2

last update Data de publicação: 2026-06-04 23:52:26

CAIM LEE

Forcei o sorriso. O mais largo que consegui. Aquele sorriso treinado, que minha mãe me obrigou a repetir mil vezes diante do espelho: sorria, mesmo quando te xingam, mesmo quando te empurram. É a única defesa que não custa nada.

— Bom dia, senhor James. Trouxe um agrado.

Pus a caixa na beirada da mesa, bem à frente do teclado, e abri. O cheiro doce, pesado de açúcar e chocolate invadiu o espaço apertado, misturando-se ao fedor dele. Depois coloquei a pasta preta por cima, devagar, como quem diz: primeiro olha isso. Isso importa.

Ele pegou uma rosquinha com a mão grande e suada, com pelos grossos nos dedos. Mordeu metade de uma vez, sem delicadeza, e o chocolate espatifou-se nos cantos da boca. Com a outra mão abriu a pasta. Passou o dedo lambuzado de chocolate sobre as folhas, sobre as fotografias, os nomes que eu pesquisei noites a fio. Senti o estômago revirar. Quis arrancar as folhas das mãos sujas dele. Mas fiquei parado e sorri.

— Senhor, eu sei que vai achar absurdo. Mas tenho provas. Tenho nomes, datas, testemunhas. Isso não é sumiço de gente querendo ir embora. É alguma coisa grande, escondida ali. Tenho certeza: isso vai virar escândalo nacional. Me deixa investigar direito. É a matéria que muda o jornal. Que muda tudo.

Ele leu por dois minutos que pareceram horas. O único som na sala era o ventilador velho girando lento, e ele mastigando. Franziu a testa. Parou os olhos numa fotografia: o galpão branco, enorme, recém-erguido, no meio da mata fechada, longe de tudo. Câmeras em todos os cantos, postes de luz alta, muros que pareciam fortaleza. As câmeras que calculei depois, custavam mais do que a folha de pagamento de  todo o nosso jornal durante um ano inteiro.

De repente bateu a pasta a fechando  com um estalo seco. A jogou de lado com tanta força que a caixa de rosquinhas balançou na mesa. Uma caiu rolando e  espatifou-se no chão sujo.

— Caim, isso aqui é um absurdo completo. Uma loucura.

— Senhor, mas eu tenho fontes, eu vi…

— Não ME INTERROMPA quando eu tô falando! — A voz estourou, grossa e alta. Ele ergueu a mão com o punho fechado, e eu senti o silêncio lá fora. Todo mundo na redação parou de bater teclas. As paredes são finas, de compensado . Aqui não existe segredo nenhum. Todos ouvem e sabem. 

— Você acha que eu sou idiota? Laboratório escondido fazendo experiência com gente? Rapazes sumindo pra virar cobaias? Isso é invenção de filme, porra! Coisa de quem lê livros demais e não enxerga a vida real. A Start? A Start é a empresa mais respeitada do mundo. Ganhou prêmio internacional. Tem gente importante apoiando. Você acha que iam montar esconderijo de bandido aqui, em São Miguel? Pra quê? Pra estudar quem? Os bêbados da praça? Os vagabundos que não servem pra nada?

Ele riu. Uma risada curta e seca, com restos de chocolate nos dentes.

— Minha fonte é confiável, senhor. Alguém de dentro. Funcionário que entrou e viu coisas. Caminhões entrando de madrugada, sem placa. Homens algemados sendo levados. Gritos. Luzes que ficam acesas a noite inteira. E nenhuma placa, nenhuma explicação.

— Fonte? — repetiu a palavra devagar, como se fosse algo sujo na boca. 

— Que fonte? A velha que vende garrafada na feira? Que lê borra de café? Caim, olha pra você. Menino que fez faculdade à distância porque não tinha dinheiro pra sair daqui. Que escreve sobre festa de padroeiro e cachorro atropelado. Você não é jornalista investigativo. Você é o menino que eu deixo aqui porque sua mãe veio me pedir, com os olhos cheios de lágrimas quase ajoelhada. Você é o faz-tudo. O rapaz que carrega caixa e passa café. 

Inclinou-se pra frente. O rosto chegou perto demais. O hálito bateu em mim, quente e fedorento, e eu recuei um passo sem querer. A pele da nuca queimava. A febre subia. Senti a camisa encharcada grudando nas costas. O suor de repente, não cheirava a suor comum. Cheirava doce. Doce forte, denso e enjoativo ,aquele cheiro que o chá sempre apaga. Minhas pernas tremiam e tive que me segurar firme. Não ia cair. Não ia dar esse gosto a ele.

— O prefeito me ligou ontem — continuou, baixando a voz, como se me desse conselho, mas os olhos eram duros .

— Ligou brabo. Perguntando por que meu  viadinho andava fuçando nas estradas vicinais, tirando foto de propriedade alheia. Acha que ninguém te viu? Aqui todo mundo conhece cada passo seu. Principalmente um viadinho de cabelo comprido andando onde não deve, olhando o que não é seu.

A palavra saiu baixa, quase um sussurro, mas pesada, jogada com ódio e prazer. “Viadinho”. A palavra ficou flutuando entre nós, doce e venenosa.

Apertei a borda da pasta até os dedos doerem. Senti o gosto amargo subir à boca. Tenho vinte anos e nunca toquei em ninguém. Nunca fui beijado. Não por falta de vontade, mas por medo. Medo de ser visto, de ser falado, de ser reduzido a essa palavra que ele cuspiu com desdém. Cresci ouvindo que homem tem que ser forte, tem que ser duro, não chora, não treme. E eu? Sou aquilo que todos apontam. E ele sabia. Sabia exatamente onde doía mais.

— Eles sumiram, senhor — insisti. A voz saiu mais fina do que queria. 

— Três em um ano. Nenhum levou nada,nem avisou ninguém. A família do Rafael diz que ele mandou mensagem dizendo que ia voltar com dinheiro e nunca mais apareceu. A mensagem foi enviada de perto do galpão. Eu tenho a prova. Tem registro, tem horário…

— CHEGA! — Bateu a mão na mesa com violência. A rosquinha que restava escorregou e caiu, espatifando-se no chão imundo. 

— Você vai parar com isso AGORA. Esquece esses nomes. Esquece essas fotos. Esquece essa estrada. A Start paga imposto. O prefeito apoia. Quem mexe ali se dá mal. Você quer se matar? Quer matar o jornal inteiro?

Respirou fundo, o peito subindo e descendo. Olhou-me de cima, imenso quase um metro e noventa de peso e raiva.

— Hoje você faz o que eu mandei. Escreve a matéria do jantar de ontem. Elogia. Diz que ele é homem de caráter, de Deus, trabalhador. Que cuida da cidade. Porque ele paga o nosso aluguel, seu merda. Sem ele nós fechamos as portas amanhã. E se eu ouvir mais uma vez que você andou fuçando por aí... se eu souber que voltou perto daquele lugar... eu te ponho na rua sem um centavo. E ainda ligo pra sua mãe. Conto que você anda se metendo com gente perigosa, que pode morrer a qualquer momento por ser intrometido. Vou vê-la preocupada doente, como só uma mãe sabe ficar. Você quer isso? Quer matar a sua mãe de preocupação?

Ficou em silêncio, pesado. Depois baixou o tom, como quem dá um aviso final.

— Vocês todos saem de um curso barato achando que vão mudar o mundo. Mas você não é nada, Caim. Não tem nome nem  dinheiro, não tem poder. Você é filho da Mei Lee, que faz chá e reza pra Buda e pra todos os santos ao mesmo tempo. E do Zé, que te criou porque teve pena. Ninguém te deve nada. Ninguém vai te defender. Se põe no seu lugar antes que eu te coloque à força.

As palavras bateram em mim mais forte que qualquer soco. Entraram fundo, onde já doía. Fiquei parado ali, queimando por dentro. A raiva lutava com a febre, e a febre vencia. Minha visão embaçou. Tudo girou devagar. O suor escorreu pelas têmporas, quente e grosso. O cheiro doce se intensificou ,aquele cheiro de flor podre, de fruta fermentada, de alguma coisa que cresce na escuridão. O cheiro que eu escondo a vida inteira, que o chá da minha mãe sempre apaga, agora escapa sem controle. 

Eu engoli. Engoli o grito, as lágrimas, tudo o que eu queria gritar. Fechei a pasta devagar, com as mãos que tremiam. Não disse mais uma palavra. Se abrisse a boca, ia chorar. Ou vomitar. E ele ia rir e eu não ia dar esse gosto a ele.

Dei meia-volta. Saí. Fechei a porta atrás de mim, suavemente, sem fazer barulho.

O ar da redação parecia ainda mais quente. Todos estavam curvados sobre as mesas, mas ninguém teclava. Ouviram tudo. Sei que vão cochichar assim que eu sair. Vão rir baixinho. “Levou na cara”, “deu pra ele”, “que menino atrevido”. Ninguém vai perguntar se estou bem. Ninguém olha nos olhos de quem já caiu.

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