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CAPITULO 3

last update publish date: 2026-06-04 23:57:51

CAIM LEE

O silêncio na redação era total. Oito pares de olhos pesavam sobre mim  e eu podia sentir cada respiração contida, cada olhar que desviava assim que eu erguia a cabeça. Sabiam tudo. Ouviram cada palavra que James cuspiu, cada xingamento, cada ameaça. E agora fingiam que nada aconteceu.

— Nem precisa explicar, né? — falei sem graça . Forcei os músculos da boca numa imitação de sorriso, aquela deformação que aprendi a usar como escudo. — Já ouviram tudo.

Ninguém respondeu,nem sequer ergueram o olhar. Voltaram a bater nas teclas com fúria desesperada, como se trabalhassem duro demais para ter tempo de notar minha existência. Covardia coletiva, velha e conhecida. Aqui ninguém se levanta por ninguém. Aqui todos abaixam a cabeça e esperam a tempestade passar sobre o outro, aliviados por não ter sido eles.

Fui direto pra copa, um corredor estreito no fundo do espaço. Uma pia de louça com manchas de ferrugem que nenhuma esponja arranca, uma geladeira velha , e uma máquina de café que não presta para nada. Aqui é o único canto onde as paredes são um pouco mais grossas, onde posso respirar sem que cada suspiro seja ouvido e julgado.

Coloquei água pra ferver. A mão tremia tanto que quase derramei . Me apoiei na pia, os dedos brancos apertando a borda fria, e ergui os olhos pro espelho embaçado preso à parede. Ali estava eu: rosto fino, ossos salientes, olhos castanhos escuros e estreitos que parecem sempre úmidos, como se estivessem prestes a chorar. 

Cabelo preto, comprido, grudado na testa pelo suor que não para de escorrer. “Bonito”, dizem alguns, baixinho, como se fosse um defeito. Uma beleza frágil, que parece prestes a quebrar se alguém tocar com força demais. E é verdade. Eu tô sempre quebrado. Por dentro sou um monte de cacos pontiagudos que eu escondo sob sorriso e submissão.

Vejo Bia entrando naquele espaço apertado .É a única que fala comigo como se eu fosse gente. Escreve sobre celebridades e fofocas banais, coisas que não importam pra ninguém, mas é a única aqui que não me trata como lixo. Se encostou ao meu lado na bancada com os braços cruzados, e me olhou com aquela pena que dói mais que desprezo.

— Nossa, o velho tá com a macaca hoje, hein? — sussurrou, baixinho, os olhos atentos à porta  — Recusou de novo?

Dei uma risada que não saiu direito. Saiu fina, cortada no meio, parecendo um soluço.

— Disse que é ficção científica. Que a Start é santa demais pra sujar as mãos aqui. Que eu sou um menino que inventa história.

— E você vai fazer o quê?

Enchi duas xícaras de louça  com café preto. Engoli um gole queimando a língua, sem sentir o gosto. A febre não baixava. Corria nas veias como mel quente, pesando nos membros, fazendo a pele arder onde a camisa tocava.

— Bia, eu sinto que essa matéria é a minha única chance. — A voz saiu trêmula, sincera demais. 

— Se eu conseguir provar aquilo que tenho nas mãos, eu saio daqui. Deixo de ser o que sou. Não quero passar a vida escrevendo obituário, nota de casamento e publipost do prefeito elogiando obras que nunca existiram. Quero que alguém me leve a sério. Que me veja como repórter. Como alguém que faz a diferença. E não como…

Calei. Não consegui terminar. As palavras pesavam na boca.

— Como o viadinho esquisito da cidade? — completou ela, baixinho, sem malícia. 

Ela tem o direito de falar assim. Andou de cabelo curto e jaqueta de couro por anos, levou murro na cara na praça por andar de mãos dadas com uma moça, e continua de pé. Ninguém consegue machucá-la com palavras. Eu invejo isso nela.

Ficamos em silêncio.  O cheiro forte do café se espalhou, mas por baixo dele senti o meu: aquele aroma doce, denso, que escapa de mim quando o fogo toma conta. Meu peito apertou de medo. Será que ela sente? Será que percebe que há algo de errado com o meu corpo, algo que não é suor comum, algo que me trai sem parar?

— Ele falou da minha mãe — confessei, baixo, olhando o fundo preto da xícara.

— A Mei Lee? O que ele tem a ver com ela?

— Nada. Só… 

 Não podia dizer que estou há quarenta e oito horas sem o chá que minha mãe me dá,e agora minha mente se abrira como uma ferida. Ando sonhando com mato úmido, terra fri. Sonho que algo grande me segue na escuridão, farejando a minha nuca, soprando um hálito quente e úmido no meu pescoço enquanto eu não consigo me mover. 

E há aquela dor, ou melhor, aquela pulsação  entre as pernas, nas costas, por dentro de cada osso que cresce à noite e me deixa tremendo, suado, envergonhado de mim mesmo até o ponto de querer me esconder debaixo da cama. Não contei que hoje, ao me levantar da cadeira, senti algo escorrer quente e espesso pelas coxas e corri pro banheiro tremendo de vergonha, vendo a cueca manchada de um líquido transparente e viscoso que cheirava a  flor noturna, sem que eu tivesse tido qualquer pensamento impuro, sem que ninguém me tocasse. 

A porta da sala de James rangeu. Ouvimos o passo pesado dele no corredor. Nós dois nos afastamos depressa, voltamos às mesas, fingimos digitar — dois cachorros que ouviram o dono chegar e fingem que estavam obedecendo o tempo todo.

O resto do dia foi um suplício lento e repetido. Escrevi a matéria que ele mandou. “Noite de solidariedade e esperança: prefeito demonstra amor pelas crianças de São Miguel.” Cada frase era uma mentira . Elogiei aquele homem que enriquece à custa dos pobres, que vira o rosto quando alguém pede ajuda, que certamente sabia de tudo e guardava silêncio por dinheiro.

 James passou por trás de mim várias vezes, lendo por cima do ombro, o hálito sujo chegando até mim. “Mais brilho, Caim. Mais emoção. Esse povo gosta de palavra bonita.” Eu escrevia, apagava, reescrevia, sentindo o nojo subir a cada linha. Vendendo minha voz, minha consciência, por um salário que mal paga o aluguel.

Quando o relógio bateu sete horas da noite, eu já estava acabado. Os olhos ardiam minhas costas doíam . A febre baixou um pouco, deixando em seu lugar um cansaço pesado, profundo, como se tivessem drenado minha alma .

Saí devagar e fui pro ponto de ônibus, entrei no primeiro que passou , lotado, abafado, cheiro de gente cansada, fritura rançosa e desodorante vencido. Fui espremido entre uma senhora com uma sacola de feira e um rapaz que dormia de pé. Quarenta minutos balançando, sentindo o suor escorrer, sentindo aquele cheiro doce se espalhar devagar, torcendo pra que ninguém percebesse.

Desci no meu bairro. Conjunto de prédio de cinco andares, sem elevador com pichações nas paredes, som alto saindo pelas janelas, varais com roupa estendida, crianças correndo gritando na calçada. É barato, mas o preço é o desconforto diário. 

Subi os cinco lances de escada devagar, segurando o corrimão , as pernas pesadas como chumbo. A cada degrau sentia minha cueca mais úmida, o tecido grudando na pele, aquela umidade que não deveria estar ali, que aparece sem aviso, sem desejo, sem minha vontade. E eu morria de vergonha a cada passo, mesmo sem ninguém me vendo.

Cheguei à porta do apartamento e minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui enfiar a chave. Abri a porta, entrei jogando a mochila no sofá , chutei o tênis para um canto e me deixei cair no chão de cerâmica fria. Ficou gelado contra a pele queimada, e por um instante aliviou. Fiquei deitado, de barriga pra cima, olhando o teto manchado de infiltração, e a voz da minha mãe soou na memória, nítida como se estivesse aqui: “Sai do chão, menino! Vai pegar friagem! Vai ficar doente!”

Me levantei com esforço. Tirei a roupa suja jogando tudo num canto e fui pro banheiro. Abri o chuveiro e a água morna caiu sobre mim,  lavando o cheiro doce que insiste em voltar. Fiquei ali de pé, com os olhos fechados, e me vi no espelho embaçado depois de secar: corpo magro, ombros estreitos, braços, quadril largo demais pra um homem, mamilos levemente salientes que eu escondo com camisetas largas. Passei os dedos na nuca, atrás das orelhas, e senti: duas saliências pequenas, firmes, inchadas e sensíveis. Minha mãe dizia que eram marcas de nascença. Hoje latejavam e pulsavam no mesmo ritmo do meu coração.

Vesti apenas uma cueca  e voltei pra sala. A geladeira tinha o básico mas estava sem ânimo pra cozinhar. Peguei uma lasanha congelada no fundo do freezer, coloquei no micro-ondas, abri uma cerveja gelada e sentei no chão encostado na parede fria. Liguei a TV no canal que sempre assisto Naruto. O menino que carrega um monstro dentro de si, que é rejeitado por todos, que grita que vai ser reconhecido um dia, que nunca desiste mesmo quando ninguém acredita nele. Não sei bem por quê, mas sempre me vejo nele. Um perdido tentando provar que vale algo.

O micro-ondas apitou. Comi depressa, queimando a boca, sem sentir o gosto. A pasta preta estava no chão, aberta, as folhas espalhadas, as fotografias do galpão branco no meio da mata espalhadas ao meu lado. Olhei para aquelas imagens  e o medo voltou, mas mudou de forma. Não era medo de ser demitido. Não era medo de James. Era um medo mais antigo, mais fundo, que nasce nos ossos. O medo de quem sente a presença de algo muito maior e mais sombrio se aproximando devagar.

Todos os dias gente some nesta região e ninguém pergunta. Ninguém investiga. Ninguém cobra. A floresta engole rastro, a política cala boca, o dinheiro compra silêncio. A ciência avança a passos largos e a ganância sempre corre na frente, atropelando qualquer coisa que se ponha no caminho , é o que aprendi lendo e observando. 

Na TV, a cena mudou e apareceu Orochimaru , pele pálida, olhos de cobra, corpo que muda de forma, falando de corpos, de experimentos, de romper limites humanos em busca de algo que transcende a própria vida. Minha mãe dizia sempre que a arte imita a vida, e que na vida real existem monstros piores que os de desenho ,monstros que vestem jaleco branco, que recebem prêmios, que são aplaudidos por gente importante enquanto fazem coisas terríveis longe dos olhos do público.

Foi quando a febre voltou. De uma vez. Sem aviso.

O fogo subiu das entranhas  tomando conta de tudo. A barriga se contraiu com força, espasmos profundos, como se algo lá dentro estivesse se rasgando, se abrindo, crescendo. Larguei o prato no chão sem querer. O coração disparou a ponto de doer. Senti o calor escorrer entre minhas pernas, mais quente que antes, mais abundante. 

Olhei para baixo, ofegante, os olhos arregalados de terror. A cueca estava encharcada. Transparente e viscoso, escorrendo pelas coxas até a cerâmica fria. E o cheiro  doce, intenso, inebriante, como néctar apodrecendo ao meio-dia. Meu corpo produzia isso sozinho. Sem toque. Sem desejo consciente. 

— Porra… CHEGA! — gritei baixo, com a voz quebrada, passando a mão nos olhos como se pudesse apagar aquela realidade.

Não vou esperar a permissão de James. Não vou engolir mais a mentira nem vou tomar mais aquele chá que me amarra, que me apaga, que me deixa dormindo enquanto algo muda dentro de mim. Seja o que for que há naquele galpão, seja o que for que está acontecendo comigo  eu vou descobrir. Vou até lá amanhã. Depois do expediente. Vou entrar e ver com meus próprios olhos. Vou trazer a verdade de volta, custe o que custar.

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