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CAPITULO 4

last update Fecha de publicación: 2026-06-05 05:40:32

CAIM LEE

Acordei antes do despertador. O relógio digital no criado-mudo marcava 04h47. O quarto ainda estava escuro, abafado pelo calor que não vai embora nem de madrugada. E acordei assim: ofegante, grudado no chão de cerâmica fria, com a boca seca como se tivesse engolido pó, e a calça presa à pele da virilha, úmida e pegajosa.

Não foi sonho erótico. Não foi desejo. Foi o meu corpo de novo, se entregando sozinho, sem que eu pedisse, sem que eu quisesse.

Afundei a palma da mão na barriga e senti: uma contração baixa, espremendo por dentro . Fechei os olhos e respirei pelo nariz devagar, sem conseguir abafar o gemido que me escapou baixo, rouco. Faz dois dias que não tomo o chá. No primeiro dia foi só dor de cabeça, uma pressão atrás dos olhos que fazia o mundo parecer distante. No segundo, ontem, foi a febre que me queimou na frente do James. Hoje é isso. O cobertor velho que eu uso de lençol está manchado, úmido, e não é suor. É outra coisa ,um líquido  transparente, escorregadio, frio ao toque, e com um cheiro.

Um cheiro doce demais. Enjoativo. Quase floral, mas com algo de ferida aberta, algo que apodrece devagar e ainda assim parece tentador. Um cheiro que eu nunca tinha sentido sair de mim antes. Esfreguei os dedos na mancha sem querer e senti o líquido escorrer entre eles, pegajoso, e na mesma hora senti vergonha de mim, do meu corpo, daquilo que me escapa sem controle. Esfreguei o dedo na cerâmica fria tentando limpar. Mas o cheiro ficou como uma marca, um rastro.

Desde os catorze anos ela faz isso. Toda vez que eu começava a ficar “fraquinho” — como ela dizia —, com a febre subindo, as pernas amolecendo, os olhos lacrimejando sem motivo, e aquela vontade esquisita, absurda, de ter uma mão pesada na minha nuca, de ser segurado, de não ter que me segurar mais… ela aparecia. Sempre na hora certa com a caneca de alumínio na mão fumegando cheia  daquele chá  amargo que fazia os olhos lacrimejarem só de sentir o cheiro. 

Folhas que ela mesma plantava e colhia atrás de casa, em canteiros que ninguém mais podia tocar. “Toma, Caim. É pra te fortalecer.” E em vinte minutos eu caía. Pesado. Dormia como quem morre. E quando acordava, a febre tinha baixado, a dor tinha sumido, e eu não cheirava a nada. Era eu de novo. 

Hoje não tinha chá. Eu tinha jogado fora. Ou melhor, tinha guardado — escondido, no fundo da mochila, num vidro tampado, como última opção. E odiava precisar ter feito isso. Odiava depender daquilo pra ser gente. Odiava saber que sem aquela bebida amarga, eu não sou eu. Sou outra coisa.

Me arrastei até o banheiro. As pernas tremiam. Cada passo parecia pesado demais. Abri o chuveiro e a água caiu gelada, como sempre . Deixei bater na testa, nos olhos, escorrer pelo pescoço até a nuca. E ali, senti de novo: aquelas duas bolinhas inchadas, duras, quentes, logo abaixo da linha do cabelo, onde a pele arde se alguém toca. Minha mãe sempre dizia que eram ínguas. “Só inflamam quando você está fraco, filho.” Mas eu nunca fui forte. E hoje estavam maiores. Mais quentes. Como se estivessem prestes a arrebentar.

Esfreguei o sabonete  na pele até doer, até ficar vermelha. Mas o cheiro não saiu. Ficou entranhado, doce e persistente, e quando fechei os olhos eu sentia vindo de mim, como se eu estivesse apodrecendo por dentro e exalando perfume.

Abri os olhos e me encarei no espelho pequeno, embaçado de vapor. Cabelo preto comprido, molhado, grudado no pescoço. Pele oliva que sempre foi morena queimada de sol, hoje pálida,. Um metro e sessenta, magro demais, ombros estreitos, quadril largo que nem a camisa mais larga consegue esconder. “Bonito”, dizem. “Uma beleza que parece pedir pra ser cuidada.” Eu já ouvi isso de mulheres, de homens, de gente que não sabe o que há por baixo da pele. Hoje, me olhando ali, pálido e tremendo, eu não vi beleza. Vi um corpo doente. Vi alguém que está se transformando em outra coisa e não sabe parar.

Mesmo assim, forcei um sorriso. Fraco, torto, mas sorriso. Hoje eu não sou o faz-tudo do Dia a Dia. Hoje eu não sou o menino que abaixa a cabeça e aceita insulto. Hoje eu vou ser repórter. E vou descobrir o que escondem naquela mata. 

Vesti a calça jeans mais grossa e escura que tenho. Camisa preta de manga comprida, mesmo sabendo que lá fora faz trinta e cinco graus, que o sol queima a pele em poucos minutos. Calcei o tênis velho de sola grossa, que não faz som quando pisa no chão. Prendi o cabelo num coque apertado, na nuca, escondendo aquelas bolinhas. Passei desodorante três vezes tentando cobrir o cheiro que insistia em voltar.

Sentei na beira da cama e abri a mochila conferindo cada coisa devagar: carregador portátil cheio de bateria. Lanterna pequena de LED, comprada na loja de pesca, que nunca usei. Caderninho de capa preta e uma caneta . Garrafa de água de um litro. Pacote de biscoito de polvilho que não enche mas sustenta. O canivete de lâmina única, cabo de madeira gasta, que foi do pai José, ele me deu dizendo “pra se defender quando ninguém puder te ajudar”. E no fundo, enrolado num saco plástico pra não vazar, o vidro com o resto do chá.  Se a dor ficar insuportável, se eu não conseguir ficar de pé, eu vou ter que beber. 

Fechei a mochila. Peguei a chave do carro e desci os cinco lances de escada na ponta dos pés, sem fazer barulho. Lá fora o céu ainda era roxo, sem sol, com aquele tom escuro que parece não querer clarear nunca. O carro vermelho, velho, com arranhão na porta e ar-condicionado que só cospe vento quente. Passei a mão sobre a lataria que já esquentava mesmo de madrugada. Era meu. E talvez seja a única coisa que realmente é.

Não tomei café porque queria chegar na redação o mais cedo possivel. Liguei o motor e saí devagar, pelas ruas vazias de São Miguel, até chegar ao estacionamento do jornal às 06h15 ainda vazio. O porteiro, seu Raimundo, roncava na cadeira da guarita com o rádio ligado baixinho, tocando música antiga. Subi de escada, evitando o elevador .

A redação estava silenciosa. Sentei na minha mesa. Liguei o computador. E comecei a escrever.Escrevi a matéria do jantar do prefeito como uma máquina. Sem pensar. “Jantar beneficente reúne autoridades e demonstra compromisso com o povo.” Cada linha era mentira. Mas escrevi rápido, sem vírgula, sem parar, querendo acabar com isso antes que alguém chegasse. Se James visse a produção quando entrasse, ia me deixar em paz. Se eu escrevesse o que ele quisesse, ele não ia me perguntar pra onde eu vou.

Às 09h40 a redação começou a encher. Som de teclas sendo batidas, tosses abafadas, passos pesados, o ronco de moto passando na rua de terra. Eu não levantei a cabeça. Mantive os olhos na tela, a mão no teclado, e senti antes de ver: o cheiro de café , e o som de passos leves parando ao meu lado.

— Bom dia, Caim.

Bia. Colocou minha caneca do Naruto na minha frente, quente, do jeito que eu gosto. Me olhando daquela forma que só ela sabe  direto nos olhos, enxergando o que eu tento esconder. Me conhece desde sempre. Sabe quando eu minto.

— Você dormiu aqui? — perguntou baixo, inclinando-se um pouco.

— Não. Cheguei cedo.

Ela levou a mão à minha testa, devagar, e eu não me afastei. A mão dela era fresca. A minha queimava.

— Tá com febre. Tá brilhando de suor, Caim. E tá pálido.

Toquei a própria testa com o dorso da mão. Ela estava certa, eu estava  queimando. E o suor… aquele cheiro doce voltou, fraco, mas ali.

— É o calor. — Tentei sorrir.

— O que você vai fazer hoje? — sussurrou, baixando mais a voz.

— Trabalhar.

— Mentira. — Ela me olhou firme, os olhos castanhos sérios. — Você tá com cara de quem vai fazer merda. 

Sorri de novo. Torto. Sem graça.

— Bia, me faz um favor. Se James perguntar de mim depois das dezoito horas… fala que eu fui no posto de saúde. Que minha mãe passou mal e eu precisei ir vê-la.

Ela franziu a testa. Olhou pra mochila no chão, pra camisa de manga comprida naquele calor infernal, pro meu rosto, pro suor que não parava de escorrer.

— É o negócio do laboratório. A estrada da vicinal. Os meninos que sumiram. — Não era pergunta.

 — Caim, não vai. Todo mundo fala. Não é fofoca. Lá tem coisa ruim. Tem gente que não volta.

— Justamente por isso alguém precisa ir.

— Então leva alguém. Me leva. Eu vou junto.

Eu neguei com a cabeça. 

— Eu não posso te meter nisso. É perigoso.

— E você acha que eu deixo você ir sozinho? Doente assim?

— É coisa rápida. Só vou olhar, tirar foto e voltar. Ninguém vai me ver eu Prometo.

Ela não acreditou. Seus olhos se encheram de água, mas não disse mais nada. Apenas estendeu a mão e pousou no meu ombro por um instante. A pele dela fria contra a minha queimando. 

— Se você não me esponder  até meia-noite… eu vou até a sua mãe. E depois vou atrás de você. Nem pense que não vou.

— Fechado. — Sorri de verdade dessa vez, fraco mas grato. — Vou responder. Prometo.

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