Se connecterTudo aquilo parecia uma piada de péssimo gosto, considerando o dia absurdo que eu estava vivendo.
Há pouco, eu flagrara Vincent com Liana, deixara o Contrato de Noivado picado sobre a mesa de trabalho do meu ex-noivo e ativara Jules para revirar as cláusulas do Pacto — tudo para conseguir uma saída estratégica antes que a situação se voltasse contra mim.
Fechei o cardápio e acenei para o garçom, sem responder imediatamente a Nathan.
— Um cappuccino grande com caramelo e torradas com ovos. E uma água sem gás, por favor.
— Apenas um café puro — pediu Nathan.
Seus olhos estavam fixos em mim, mas não reuni coragem suficiente para encarar aquele olhar de volta. Que tipo de coincidência era aquela? Que razões o Chefe da Família Morgan teria para não querer meu casamento com seu próprio sobrinho — ainda mais sabendo do peso do acordo entre nossas famílias?
— Por que está dizendo isso? — perguntei, finalmente erguendo o queixo e forçando uma postura ereta.
Embora estivesse na casa dos trinta anos, Nathan tinha uma aparência arrebatadora: traços marcantes, feições elegantes que beiravam a delicadeza e uma postura intimidadora. Ele parecia ter saído da capa de uma revista, mas sua aura era sufocante e perigosa, típica dos grandes homens de negócios.
Ele retirou o celular do bolso interno do paletó, destravou a tela com um toque e deslizou o aparelho pelo tampo da mesa na minha direção. Observei o vídeo em silêncio: no visor, as figuras de Liana, Vincent e meu próprio pai travavam uma conversa abominável sobre me usar como peão e, em seguida, me descartar. Estavam na sala da minha casa, arquitetando um plano que, em suas mentes mesquinhas, parecia infalível.
Saber do envolvimento do meu pai não era exatamente uma surpresa, mas ver sua disposição fria para arruinar minha vida foi um golpe devastador. Aquela traição doía mais do que a de Vincent e Liana juntas. O homem que me vira nascer, que acompanhara cada fase do meu crescimento, não me enxergava como ser humano — e muito menos como filha.
— Como conseguiu essa gravação?
Nathan apenas deu de ombros, sem qualquer intenção de admitir a invasão à minha residência para a instalação de câmeras ocultas. Ele esperou em silêncio enquanto o garçom servia nossos pedidos. Ao morder o primeiro pedaço de torrada, meu estômago protestou pela falta de alimento. O doce do cappuccino agradou meu paladar e ajudou a acalmar, ainda que por um instante, o turbilhão de pensamentos em minha cabeça.
— Estou lhe mostrando isso não apenas em respeito ao Julian e à memória da sua mãe — disse Nathan, bebericando o café sem pressa. — Mas também porque conheço sua capacidade e seu temperamento. Seria um arrependimento que eu levaria para o túmulo se você se casasse com o inútil do meu sobrinho.
Nathan era dez anos mais velho que eu. Guardava memórias nebulosas da minha infância, quando ele andava pelos laboratórios com um bloco de notas na mão, seguindo os passos da minha mãe. Clarisse Calisto fora uma mulher brilhante, uma referência na ciência e no mundo corporativo. Talvez por sua amizade com Julian ou pelos acordos vigentes entre as famílias, Nathan se tornara um aprendiz dedicado de mamãe quando ainda era adolescente.
Por anos, ele me tratara com o carinho reservado a uma irmã caçula. Contudo, após a morte da minha mãe e sua ida para o exterior, quando eu tinha quinze anos, o contato se desfez naturalmente. Eu jamais imaginaria que ele ainda se importava ao ponto de me revelar algo que desmascarava a própria família. Obviamente, eu nada sabia sobre a real dinâmica entre ele e seus parentes.
— Eu não pretendo me casar com o Vincent — suspirei, girando a colher na xícara. Não ousei erguer os olhos enquanto calculava o quanto podia revelar. — Ele está dormindo com a minha irmã e, pessoalmente, odeio homens infiéis. Um par de chifres definitivamente não combina com meus cachos loiros.
— E o que pretende fazer a respeito?
— Deixei essa missão com o Jules. Ele está revirando as cláusulas do acordo para garantir que eu saia dessa bagunça sem violar o Pacto. — Ergui os olhos, oferecendo um sorriso sarcástico. — A não ser que o senhor tenha outros membros da família Morgan disponíveis para matrimônio para me apresentar...
Nathan pousou a xícara na mesa e tirou os óculos de leitura, guardando-os no bolso interno do terno. Seus olhos escuros e afiados se estreitaram sobre mim, e um arrepio involuntário percorreu minha espinha. Era como se ele enxergasse através da minha maquiagem, das minhas roupas e de toda a armadura que construí para esconder minhas feridas. Não me lembrava de ele ter esse olhar no passado.
— Nenhum deles é páreo para você, Stella. — Ele se levantou com elegância e deixou algumas notas altas sobre a mesa, quantia muito superior ao valor da conta. — No entanto... talvez eu tenha uma saída.
— E qual seria? — Franzi a testa, intrigada.
— Conversaremos assim que Julian retornar ao país com as respostas que você precisa.
Sem dar margem para mais perguntas, Nathan afastou-se com passos firmes e calmos, deixando-me para trás tomada por dúvidas — e com o rastro do seu perfume amadeirado impregnado no ar. Que tipo de solução ele tinha em mente? Poderia eu confiar de fato na sua intenção de me ajudar?
Após terminar a refeição, peguei meu carro com o manobrista e voltei para a pista. Embora repudiasse a ideia de encarar meu pai ou Liana, precisava ir em casa para recolher algumas roupas e me refugiar no apartamento de Kira. Seria prudente, inclusive, inspecionar a casa em busca das câmeras escondidas que capturaram a reunião daquele trio desprezível.
Ao cruzar o pátio e subir a escadaria da mansão, percebi que os funcionários desviavam o olhar. Poucos ali me tratavam com o respeito devido à herdeira legítima dos Calisto; a maioria bajulava Harry Calisto, o homem que eu lamentavelmente chamava de pai e que ficara temporariamente encarregado de gerir boa parte dos bens deixados por minha mãe. Todos tinham debandado para o lado de quem julgavam deter o poder.
Não me importei com os murmúrios disfarçados nem com os sorrisos de escárnio. Em dois meses, o jogo mudaria drasticamente. Na família Calisto, o herdeiro assumia o controle absoluto dos ativos ao completar vinte e quatro anos. Até lá, a gestão permanecia sob o encargo do guardião legal. Eu só precisava resistir por mais algum tempo — e então, todos os que me deram as costas voltariam rastejando.
A mansão estava num silêncio sepulcral. Subi diretamente para o meu quarto. Liana provavelmente continuava na casa de Vincent, e meu pai devia estar no Clube Ludwig, onde costumava passar as tardes esbanjando dinheiro para não ter que trabalhar. Sentei-me na cama e enviei uma mensagem rápida para Kira, pedindo para passar a noite em seu apartamento. O desabafo completo sobre o pesadelo do meu dia ficaria para mais tarde, acompanhado de algumas garrafas de Soju.
Abri o closet, selecionei um pijama, dois vestidos elegantes, lingeries e saltos. Em seguida, fui até a estante de livros e destravei o cofre oculto, alcançando a pequena caixa que guardava as joias que pertenceram à minha mãe. Toquei o delicado colar de pingente de jade, lembrando de como ele se destacava em seu pescoço. A saudade me atingiu como uma lâmina fria no peito.
Guardei as joias na mala de mão e voltei a atenção ao interior do cofre. Meus dedos tocaram a superfície metálica e gelada do estojo no fundo. Ao erguer a tampa, vislumbrei o conjunto de adagas de arremesso perfeitamente alinhadas. Há muito tempo eu não precisava daquelas armas, mas era impossível prever como Vincent reagiria ao encontrar o recado que deixei em sua sala.
Se ele ousasse vir atrás de mim com seus homens, eu garantiria que ele sangrasse primeiro.
CAPÍTULO DEZ — MUITO A PAGARNATHAN MORGANStella Calisto poderia, com facilidade, ser considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo. Não apenas pelos cachos dourados, olhos verdes ou corpo bem trabalhado. A beleza dela residia em sua postura e modos, no brilho e no perigo que emanava a cada gesto ou palavra.E, naquele momento, ela voltava toda a atenção para mim, preenchendo o interior do carro com a sua presença.— Eu preciso deixar algo claro, Sr. Morgan.— Me chame pelo meu nome, Stella. Se somos noivos agora, o mínimo que podemos fazer é mudar a forma como nos tratamos.Ela assentiu, embora seus movimentos estivessem um pouco mais lentos pelo efeito do álcool.— Tudo bem, Nathan. — A voz dela ressoou, firme até demais para alguém que havia tomado mais taças do que eu podia contar. — Eu estive com Vincent por dever e responsabilidade. Meus sentimentos foram todos moldados por isso; não posso dizer que o amava ou que estava apaixonada. Se houve algo nesse sentido, talvez tenh
CAPÍTULO NOVE — COVARDE SEM SERVENTIASTELLA CALISTOA memória mais antiga que tenho de Nathan é de um dia de neve e festividades. Mamãe sempre preparava as melhores festas, e a família Morgan era convidada como membro de honra, vista a proximidade que ela possuía com eles. Julian tinha estragado meu boneco de neve, e todas as suas tentativas de melhorar a situação apenas me faziam chorar ainda mais.Naquele momento, o garoto quieto e observador que permanecia afastado dos pais e das outras crianças — embora se mantivesse ao lado de um jovem adulto de roupas formais — apareceu com mãos hábeis e transformou o meu pesadelo em uma obra de arte. Ele bagunçou meus cachos com os dedos longos e gelados e pediu para que eu não chorasse mais, com um pequeno sorriso nos lábios. As lágrimas pararam como mágica.Quando crianças, é normal termos alguém para considerar nosso herói: uma pessoa que nos salvaria de tudo e de todos. Eu tinha três: mamãe, Julian e o caçula da família Morgan.Embora muit
CAPÍTULO OITO — A MELHOR DECISÃOSTELLA CALISTOVirei a taça de vinho de uma vez e a preenchi com o que restava na garrafa. Julian continuou escondendo o rosto, enquanto Nathan mantinha a atenção fixa em mim, provavelmente esperando para avaliar a minha reação.Meu irmão havia me chamado e convidado o chefe da família Morgan para propor algo impensável: uma tentativa de me resgatar do casamento miserável que eu teria com Vincent. Aparentemente, ele não encontrara nenhuma outra brecha no acordo, exceto a cláusula que ditava que eu deveria me casar com um herdeiro direto. Embora fosse absurdo vê-lo apelar para o melhor amigo, eu me sentia grata por ter um irmão capaz de tudo por mim.— Você não deveria beber vinho como se fosse água — alertou Nathan.Ignorei o aviso, terminando o líquido na taça e apertando o botão na mesa para chamar o atendimento.— Para discutir o que o Jules acabou de dizer, preciso estar bêbada o suficiente.Uma mulher de uniforme se aproximou discretamente, exibin
CAPÍTULO SETE — UM CEO IMPORTANTE E OCUPADONATHAN MORGAN— Cancele a reunião com a equipe das Indústrias Jark — ordenei a Damian assim que ele entrou na minha sala. Sua boca se abriu para protestar, mas o interrompi antes que pronunciasse uma única palavra: — Apenas cancele. Tenho assuntos mais importantes para tratar.Vesti um casaco por cima do terno e arranquei a gravata incômoda, largando-a sobre a mesa. Saí do escritório antes de dar tempo para meu assistente reconsiderar a decisão ou tentar me convencer do contrário. Afinal, a reunião seria apenas uma desculpa para pedirem financiamento e investimento, alegando lucros promissores caso selássemos a parceria. Negócios como esse não eram mais importantes do que decidir o rumo da minha família e, consequentemente, o da família Calisto.Embora estivessem acostumados a me ver todos os dias, os olhares da equipe ainda se voltavam para mim enquanto eu caminhava em direção ao elevador. Por mais indiferente que parecesse, foram necessári
CAPÍTULO SEIS — A ÚNICA SAÍDASTELLA CALISTOEncarei a tela do tablet, aberta em um aplicativo de design, e resetei o projeto por completo. A inspiração não tinha dado as caras nos últimos dias e, não importava o quanto eu tentasse desenhar, tudo parecia terrível e sem nexo.Suspirei ao pensar na mesa digitalizadora do meu escritório. Eu estava há três dias enfurnada no apartamento de Kira, depois que me avisaram que Vincent e meu pai tinham deixado homens à minha espera — provavelmente para me arrastar de volta para casa assim que me vissem. Eles não tinham como me obrigar a aceitar o casamento; porém, com certeza estavam arranjando um jeito de me chantagear.Ao menos, minha equipe era autossuficiente para continuar com os trabalhos sem mim. As ligações eram breves e os fornecedores mantinham contato direto com meus colaboradores. Os laboratórios permaneciam em perfeito funcionamento, o que era uma preocupação a menos para a minha cabeça lotada.Levantei para pegar mais uma xícara de
CAPÍTULO CINCO — UM ABRIGO SEGUROSTELLA CALISTO— Ellie, você deveria me largar logo — resmungou Kira, se debatendo para se livrar do meu abraço. Apertei ainda mais, temendo o que ela faria se eu a deixasse sair do apartamento em meio à sua crise de fúria.— Se eu fizer isso, vou ter que aparecer na delegacia com um advogado para livrar sua cara — respondi, lutando contra os fios escuros do cabelo da minha melhor amiga que insistiam em entrar na minha boca. — Não te contei toda essa merda para você ir atrás do Vincent ou da Liana. Eu vou me certificar de que eles se arrependam do que me fizeram, pode ficar tranquila.Kira suspirou e seus ombros caíram. Soltei-a quando percebi que já não apresentava mais perigo. Com o rosto sombrio, ela pegou a garrafa de vinho branco e tomou alguns goles como se fosse água.A sala do apartamento estava um verdadeiro caos. Caixas de pizza e garrafas vazias se enfileiravam na mesa de centro, na poltrona de couro e no carpete. O jantar tinha começado ca







