— Juliana, o que foi? O que você está olhando? — Perguntou Rafaela, percebendo que ela tinha parado por um instante.
Juliana ainda mantinha o olhar voltado para o fim do corredor quando respondeu, em voz baixa:
— Acho que tinha alguém olhando pra gente agora há pouco.
— Hã? — Rafaela acompanhou a direção do olhar dela, mas já não havia ninguém ali. O hall, amplo e silencioso, seguia com o movimento de sempre. — Não vi ninguém.
Juliana então desviou os olhos para a lateral e explicou com calma:
— Ele entrou no elevador.
— No elevador? Naquele ali?
Rafaela apontou, quase por reflexo, e, no instante em que recebeu o aceno afirmativo de Juliana, engoliu em seco.
Aquele era o elevador exclusivo do chefe.
Quando chegaram à porta da sala de Rafaela, Juliana ergueu os olhos e notou a nova placa fixada ao lado da entrada: Vice-presidente de Recursos Humanos.
Ela sorriu, virando-se para a mulher.
— Rafaela, parabéns pela promoção.
— Obrigada.
Rafaela respondeu com um sorriso, mas ainda estava tensa por causa do que Juliana tinha acabado de dizer. Passou a mão de leve na lateral da saia, como se quisesse afastar o suor frio da palma, e tentou se tranquilizar em silêncio. Pelo menos, pensou ela, tinha feito tudo com cuidado até agora. Se não havia deixado nenhuma ponta solta, talvez não tivesse motivo para se preocupar.
Assim que entrou no escritório, Juliana foi direto ao ponto, sem rodeios:
— Rafaela, vim resolver meu desligamento.
Rafaela, que sabia muito bem que aquilo era só um procedimento de fachada, ergueu os olhos para ela e perguntou:
— Você quer que isso leve quanto tempo?
— Pode seguir o processo normal.
— Pelo processo normal, um funcionário efetivo precisa avisar com um mês de antecedência, mas, considerando o seu nível P4, se a passagem for feita direitinho, em dois ou três dias costuma dar para encerrar tudo.
Ela mal tinha terminado de falar quando duas batidas firmes soaram na porta.
— Pode entrar. — Disse Rafaela. No instante seguinte, ao ver quem era, ela se levantou depressa e endireitou a postura. — Murilo.
Sempre impecável, Murilo se limitou a dizer:
— Rafaela, o Sr. Bernardo quer falar com você.
O coração dela afundou.
Então era isso.
Mais cedo ou mais tarde, aquele momento chegaria.
No primeiro semestre, o Grupo Amorim havia descoberto um desvio de milhões cometido por alguém ligado à alta cúpula da empresa, e o pior era que o responsável ainda era parente de um executivo. Desde então, Bernardo vinha cortando sem piedade qualquer sinal de favorecimento, apadrinhamento ou relação encoberta dentro do grupo. O antigo superior direto de Rafaela tinha sido afastado e investigado, e foi só por isso que a cadeira de vice-presidente de RH tinha acabado nas mãos dela.
E ela mal tinha tido tempo de se acostumar com a sala nova.
A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi simples e assustadora. Será que tinham encontrado algum "indicado" entre as contratações assinadas por ela?
Pensando bem, a única pessoa que se encaixava nisso era Juliana. Só que Juliana tinha entrado por indicação da própria família Amorim.
Além disso, o cargo dela era tão baixo que quase não chamava atenção. No sistema interno, aparecia com salário mensal de quatro mil, mas, na prática, nunca tinha recebido nada.
Mesmo com o nervosismo subindo pelo corpo, Rafaela ainda conseguiu manter a voz estável ao se virar para Juliana:
— Me espera só um instante, tá?
Juliana acenou com a cabeça.
Só que bastou Rafaela cruzar a porta para a calma desabar. No corredor, ela baixou a voz e perguntou, já inquieta:
— Murilo, o Sr. Bernardo falou por quê?
Murilo sorriu de leve por trás dos óculos.
— Rafaela, é melhor você ouvir dele.
A resposta vaga não ajudou em nada. Pelo contrário, deixou o peito dela ainda mais apertado.
O escritório da presidência ocupava uma área ampla no alto do prédio, todo em tons de preto, branco e cinza, com uma sobriedade quase fria. No centro daquele espaço silencioso, sentado à frente da mesa, estava o homem que comandava o Grupo Amorim com mão firme e sem abrir espaço para discussões.
Bernardo nem perdeu tempo. Assim que Rafaela entrou, ele ergueu os olhos e perguntou, num tom direto:
— Quem era a mulher que você recebeu pessoalmente agora há pouco?
Era mesmo por causa de Juliana.
Rafaela sentiu as costas gelarem.
— Ela se chama Juliana. — Respondeu ela, tentando não demonstrar o nervosismo.
Bernardo repetiu o nome em voz baixa, como se o provasse mentalmente:
— Juliana...
No mesmo instante, a imagem que lhe veio à mente foi a da noite no hotel, quando a tinha visto com os olhos avermelhados, claramente à beira do choro. Agora, porém, o rubor no rosto dela já havia sumido. O cabelo continuava preso atrás da orelha, deixando o rosto limpo e delicado totalmente à mostra. Vestia um simples vestido-camisa azul, sem nada chamativo, e carregava uma bolsa de tecido tingida no mesmo tom, já um pouco desbotada pelo uso e pelas lavagens.
Bernardo apoiou uma das mãos no teclado e levantou o olhar para Rafaela.
Ela entendeu imediatamente o que ele queria.
— Juliana Oliveira. — Completou, apressando-se. — Esse é o nome completo dela.
Bernardo começou a puxar o registro no sistema, mas a ficha que apareceu na tela era curta demais, quase vazia. A foto, tirada anos antes, ainda carregava a leveza de alguém que tinha acabado de sair da universidade, com cabelo na altura dos ombros, pontas levemente viradas, um ar discreto de juventude que ainda não tinha sido apagado pela vida. Fora as informações básicas de formação acadêmica, não havia praticamente nada. Nenhum histórico de carreira, nenhuma mudança salarial, nenhum rastro profissional digno de nota.
O silêncio no escritório ficou mais pesado.
Então Bernardo fechou um pouco a expressão e perguntou:
— Me explica.
O suor frio brotou nas costas de Rafaela.
— Sr. Bernardo, a Juliana foi colocada aqui pela Sra. Letícia. Ela está só vinculada ao quadro de forma nominal. Não recebe salário e também não participa de nada da empresa. Ela não sabe de nenhum assunto interno.
Tia Letícia?
A simples menção do nome fez Bernardo franzir levemente as sobrancelhas. Letícia Amorim nunca tinha se envolvido na gestão do grupo. Era justamente por isso que aquela interferência soava tão fora do lugar. Por que, de repente, ela colocaria alguém ali dentro?
Sem dizer mais nada, Bernardo levantou a mão num gesto curto.
Murilo se aproximou na hora.
— Investigue ela.
— Sim, senhor.
Antes que os dois seguissem, Rafaela ainda reuniu coragem para acrescentar:
— Sr. Bernardo, a Juliana veio hoje para pedir demissão.
Dessa vez, Bernardo não respondeu de imediato.
Demissão?
A palavra pareceu prender sua atenção por alguns segundos. Ele baixou os olhos, pensativo, e ficou em silêncio enquanto esperava o resultado da apuração. Em geral, Murilo levava no máximo meia hora para voltar com uma pasta minimamente robusta. Só que, dessa vez, foram apenas dez minutos. E dez minutos diziam muita coisa.
Quando Murilo retornou, trazia nas mãos uma única folha, fina demais para quem deveria ter uma vida inteira registrada em algum lugar.
Até ele parecia desconfortável.
— Sr. Bernardo, foi só isso que conseguimos levantar.
Bernardo recebeu o papel e passou os olhos pelo conteúdo.
A folha mostrava apenas que Juliana era órfã e tinha se formado com as melhores notas na melhor universidade pública de Alegria. Não havia o nome do orfanato onde ela cresceu. Sobre a vida dela depois de formada, os papéis estavam em branco. Pelo menos, o arquivo de funcionários do Grupo Amorim tinha a informação de que ela era casada e ocupava o cargo de assistente administrativa.
Murilo ajeitou os óculos antes de completar, num tom mais sério:
— Uma ficha tão limpa assim não costuma ser natural. Isso parece ter sido mexido. A identidade dela não é simples.
Ou, pior do que isso, era cuidadosamente escondida.
A expressão de Bernardo ficou ainda mais fechada. O que antes era mera curiosidade começou a ganhar contornos de preocupação. Uma mulher de origem nebulosa, ligada a alguém da família Amorim e registrada, ainda que nominalmente, dentro do grupo que ele comandava... era difícil olhar para aquilo e não pensar em segundas intenções.
Parada a poucos passos, Rafaela chegou à mesma conclusão quase no mesmo instante.
E, junto com ela, veio o desespero.
Seu cargo de vice-presidente de RH mal tinha começado, e ela já conseguia imaginá-lo escapando de suas mãos.
— Sra. Rafaela...
— Sim, Sr. Bernardo!
O susto foi tanto que ela respondeu alto demais e se endireitou no mesmo segundo, ficando rígida como se estivesse diante de um comandante.
Bernardo fez uma pausa. Então levou a mão à orelha, esfregando-a de leve, visivelmente incomodado com o volume da resposta.
— Pode voltar. — Disse, num tom contido. — E segure o pedido de desligamento dela por enquanto.
Rafaela piscou, sem reagir de imediato.
— Ah... certo.
Ele não a tinha repreendido. Nem afastado. Nem pedido explicações adicionais.
Aquilo, por si só, já parecia um alívio absurdo.
Ainda meio atordoada, ela deixou o escritório da presidência e voltou para a própria sala, mas, ao abrir a porta, encontrou o ambiente vazio. Juliana já tinha ido embora.
Sobre a mesa, só havia um bilhete curto, escrito às pressas, dizendo que tinha surgido um assunto urgente e que ela voltaria outro dia.
Na verdade, Juliana tinha saído dali por causa de uma ligação do instituto.
Ela atravessou o complexo quase correndo, com passos rápidos e firmes, e sua silhueta esguia acabou chamando atenção de quem observava do alto.
Do último andar, a vista era ampla.
Bernardo a acompanhou com os olhos enquanto ela saía pelo portão oeste. Pouco depois, uma van executiva encostou; o motorista desceu imediatamente para abrir a porta para ela, e o veículo partiu em direção à zona leste da cidade.
Bernardo semicerrou os olhos.
Em seguida, pegou o celular e enviou uma mensagem para a irmã: [Hoje à noite, volto para a mansão antiga.]
Pois sua tia Letícia morava lá.
...
No instituto de pesquisa, todos os envolvidos no projeto de "chips independentes" já estavam reunidos, e nem Melissa, mesmo machucada, tinha faltado.
Sentada entre os demais, ela olhava repetidamente para a porta, tomada por uma curiosidade crescente. Havia tempo que aquela tal Dra. Juliana evitava encontrá-la, e agora ainda fazia o grupo inteiro esperar. Melissa queria ver com os próprios olhos que tipo de mulher era essa afinal.
Do lado de fora da sala, Juliana levantou a mão para empurrar a porta, mas, antes que entrasse, ouviu a voz de Daniel no corredor:
— Juliana, vem aqui um instante. Sozinha.
A porta, que já estava entreaberta, tornou a se fechar devagar.
Juliana se virou para ele e perguntou:
— Daniel, aconteceu alguma coisa com o projeto?
— Não, problema nenhum. — Respondeu ele, abaixando um pouco a voz. — Na verdade, a direção já bateu o martelo. O resultado da pesquisa será anunciado publicamente em uma semana, e a licitação deve ser concluída dentro de um mês. Seu marido é o CEO da Universo Tech, e você também está vinculada ao Grupo Amorim, que tem empresas de tecnologia concorrendo no mesmo setor. Os dois lados devem participar da disputa, e, como você é a responsável central pelo projeto, sua identidade virou um ponto extremamente sensível. Até o processo de concorrência terminar, ninguém pode saber quem você é. Nenhuma informação pode sair daqui, principalmente a seu respeito. Este é o novo termo de confidencialidade. Quando a licitação for concluída, você representará o projeto na cerimônia de assinatura, e sua identidade será divulgada oficialmente naquele momento.
Ao ouvir isso, Juliana ficou em silêncio por um breve instante.
Um mês. Outra vez, um mês.
Seu olhar vacilou por um segundo, e algo parecido com um suspiro preso atravessou o peito.
No fim, talvez fosse até melhor assim.
Se as duas coisas acontecessem ao mesmo tempo, ela se livraria de muita complicação desnecessária. Dentro de um mês, poderia se soltar da prisão que Cláudio tinha tecido ao redor dela e também deixar para trás a encenação de funcionária comum com salário de quatro mil.
Depois disso, restaria apenas ela.
Juliana pegou a caneta e assinou o nome com firmeza.