— Então é isso? Você quer que ele se divorcie de mim? — Juliana retrucou, e a pergunta, lançada com uma calma afiada, acertou Melissa bem onde mais doía.
Naqueles quinze dias, Melissa já tinha testado o terreno várias vezes, tentando descobrir até onde podia ir, mas Cláudio nunca deu o menor sinal de que pretendia se divorciar. Ainda assim, continuava ao lado dela como sempre esteve, cercando-a de atenção e cuidado, mais presente do que antes, e essa diferença, em vez de tranquilizá-la, só a fazia se sentir como a amante.
Dizem que, numa história assim, a amante de verdade é a mulher que não é amada. Se fosse para levar isso ao pé da letra, então quem tinha entrado no relacionamento deles era Juliana.
Na época da faculdade, Cláudio amava Melissa de um jeito tão evidente que ninguém precisava adivinhar, porque aquilo estava estampado nos olhos dele, nos gestos, na forma como a tratava. Por isso, ela jamais imaginou que, por causa de uma briga sobre ir para o exterior, ele acabaria se casando às pressas com uma mulher qualquer, sem brilho, sem importância, como se tivesse simplesmente puxado alguém da rua para ocupar um lugar que sempre deveria ter sido dela.
Para Melissa, aquilo era uma humilhação.
Se naquele dia ela não tivesse visto Juliana no hospital com os próprios olhos, e se Cláudio não a tivesse apresentado pessoalmente como esposa, Melissa jamais teria acreditado. Para ela, continuava sendo absurdo demais imaginar Cláudio casado com outra mulher.
Só que, depois de testar os sentimentos dele uma vez após a outra, ela acabou se convencendo ainda mais de que o homem continuava sendo dela. Talvez até mais do que antes.
Se Melissa queria alguma coisa, não importava o valor, Cláudio dava um jeito de comprar. Se ela demonstrava qualquer desconforto, por menor que fosse, ele aparecia correndo ao lado dela. Agora, inclusive, tinha aprendido a fazer chá de erva-doce e ainda insistia em cozinhar macarrão para ela, como se cada gesto fosse uma prova silenciosa de que o dinheiro dele e o amor dele continuavam pertencendo a ela.
No fim, Juliana não tinha nada. Nada além do título de Sra. Santos, um título vazio, quase desconhecido, que existia mais no papel do que na vida real.
No entanto, Melissa já tinha decidido que tomaria isso também.
Respirando fundo, ela ergueu um sorriso satisfeito e disse:
— Ele vai se divorciar de você.
Juliana não hesitou nem por um segundo em retrucar:
— Então eu agradeço.
E não era provocação. Era sinceridade.
Mais do que ninguém, Juliana queria que Cláudio assinasse logo aqueles papéis, porque continuar vivendo debaixo do mesmo teto, assistindo aos dois trocando cuidado, intimidade e afeto como se ela fosse invisível, era sufocante demais. Aquela casa tinha se tornado um lugar onde ela mal conseguia respirar.
Melissa, que esperava ver ciúme, dor ou pelo menos algum abalo no rosto dela, acabou ficando parada, surpresa demais para reagir.
Foi naquele momento que Cláudio saiu da cozinha carregando uma tigela fumegante de chá de erva-doce. Assim que viu Juliana acordada e sentada ali, seu passo vacilou por um instante, e o olhar dele, quase por reflexo, encontrou o dela antes de qualquer outra coisa.
A primeira palavra que saiu de sua boca foi:
— Amor, você acordou...
Melissa ouviu aquele "amor" e sentiu a acidez subir no peito.
Sem perceber o peso daquela palavra no ar, Cláudio se apressou em explicar:
— A Melissa não estava se sentindo bem e não quis ir ao hospital, então eu a trouxe para casa.
Falava tão depressa para se justificar que nem se deu conta de que ainda segurava a tigela escaldante nas mãos. Juliana, porém, percebeu no mesmo instante que os dedos dele já estavam vermelhos de tanto calor. Era evidente que ele não fazia a menor ideia de como lidar com aquilo. Pela cara, era a primeira vez na vida que entrava numa cozinha para fazer alguma coisa de verdade, e nem sequer tinha pensado em usar uma luva térmica ou um pano.
Por um breve instante, Juliana quase desviou o olhar.
Se queimasse, queimou. Bem feito.
Mas, antes que ela pudesse pensar mais um pouco, Cláudio já estendia a tigela para ela.
— Ainda vou fazer o macarrão. Leva o chá para a Melissa.
Ele simplesmente colocou a tigela quente nas mãos dela, sem dar tempo para recusa, e o calor foi tão forte que Juliana quase a soltou no mesmo instante. Uma fisgada ardida percorreu seus dedos, obrigando-a a firmar a mão por puro reflexo.
Sentada no sofá, Melissa arqueou os lábios num sorriso satisfeito e disse, num tom leve demais para ser inocente:
— Obrigada, Sra. Santos.
Juliana se aproximou e estendeu a tigela com cuidado. Melissa também levantou a mão para pegar. Tudo aconteceu num intervalo curto demais para qualquer uma das duas reagir com clareza, porque, no segundo seguinte, ouviu-se um grito agudo e o chá fervendo virou de uma vez, escorrendo sobre o braço claro de Melissa.
— Ah!
A pele dela ficou vermelha na hora, e, antes mesmo que alguém dissesse qualquer coisa, as primeiras bolhas já começavam a surgir, subindo depressa pela região atingida.
Cláudio saiu apressado da cozinha assim que ouviu o grito, mas, no instante em que seus olhos caíram sobre o braço queimado de Melissa, a expressão dele mudou por completo. Chocado, virou-se imediatamente para Juliana e perguntou, em tom duro:
— O que aconteceu?
Juliana ainda estava olhando para a cena, atônita, sem entender direito como aquilo tinha acontecido.
— Eu...
Tomada pela dor, Melissa respirava mal, com os olhos marejados, mas mesmo assim se apressou em intervir:
— Não foi culpa da Juliana. Fui eu que não segurei direito. Cláudio, não briga com ela.
Só que ver Melissa naquele estado não acalmou Cláudio; teve o efeito contrário. O coração dele se apertou tanto ao olhar para o braço ferido que sua preocupação se transformou em irritação no mesmo instante, e toda aquela irritação foi descarregada sobre Juliana.
— Como você entrega uma tigela dessas direto na mão dela? Não podia ter colocado em cima da mesa?
Com os dedos ainda ardendo por causa da queimadura, Juliana ergueu os olhos e respondeu, sem conseguir esconder a incredulidade:
— Mas você também me entregou do mesmo jeito...
Cláudio a interrompeu com um olhar frio:
— Você faz ideia do quanto a Melissa é importante? O projeto em que ela está trabalhando não pode ficar sem ela. É melhor torcer para que o médico diga que isso não vai afetar o trabalho dela.
Mal terminou de falar, ele já se abaixava para pegá-la nos braços e levá-la para o hospital.
Juliana não foi atrás. Ficou onde estava, olhando em silêncio para os cacos espalhados no chão, para o chá derramado que se espalhava de forma pegajosa pela sala e para os próprios dedos avermelhados, que doíam o suficiente para latejar. A explicação que ainda tinha parado na garganta acabou sendo engolida de volta, porque não importava o que dissesse, Cláudio já havia decidido, no fundo, em que versão queria acreditar.
Na cabeça dele, Juliana tinha feito aquilo de propósito.
Mais tarde, depois do hospital, Melissa voltou para a casa com ele.
No quarto de hóspedes, onde Rosiane não chegou a ficar, quem acabou se instalando foi Melissa. E, no fim das contas, ainda esperavam que Juliana cuidasse dela como se fosse a culpada por tudo.
Diante da família Santos, qualquer tentativa de se explicar sempre soava fraca, vazia, inútil, então Juliana desistiu de insistir e apenas disse que ia trabalhar, porque já eram oito da manhã e, mesmo que o instituto de pesquisa não precisasse dela para nada urgente naqueles dias, ela continuava saindo como de costume para não despertar suspeitas.
Quando a viu pronta para sair, Cláudio foi direto ao ponto:
— Peça licença. Esse seu cargo não faz diferença nenhuma para a empresa. Melhor ainda se pedir demissão e ficar em casa de uma vez.
Juliana ouviu aquilo e quase riu, não de humor, mas de descrença.
Virar dona de casa para quê? Para viver com uma mesada de três mil?
Ela ergueu o rosto e respondeu com firmeza:
— Não.
Cláudio perdeu a paciência na mesma hora.
— Como é?
A voz dos dois acabou se elevando um pouco, e Melissa, deitada no quarto de hóspedes, ouviu a discussão. Quase imediatamente, resolveu interferir com aquela delicadeza calculada que sabia usar tão bem:
— Cláudio, vocês realmente não precisam brigar por minha causa. Eu já disse que fui eu que não segurei direito.
Ele até conteve o impulso de continuar discutindo outras coisas, mas não abriu mão do que queria.
— Tudo bem, você não precisa pedir demissão agora, mas, nos próximos dias, vai ter que tirar licença até a queimadura da Melissa melhorar. Foi você quem a machucou, então vai assumir a responsabilidade.
Juliana franziu a testa e retrucou:
— Eu já falei que isso não teve nada a ver comigo. Quando passei a tigela para ela, ela a pegou normalmente. Se você quer saber por que derramou, então devia perguntar à Melissa, não a mim.
Cláudio a encarou com dureza, como se já soubesse de antemão o que vinha por trás daquela frase.
— O que você está querendo dizer? Que a Melissa jogou chá fervendo nela mesma de propósito? Ela está envolvida num projeto de pesquisa muito importante, leva o trabalho dela a sério e não é uma pessoa cheia de malícia. Ela nunca faria uma coisa dessas.
Juliana quase riu ao ouvir aquilo.
Não porque fosse engraçado, mas porque era absurdo.
Projeto de pesquisa importante? No projeto do chip desenvolvido internamente, Melissa não passava de um nome pendurado ali para enfeitar relatório; sequer tinha acesso aos dados centrais. E quanto à falta de malícia... Juliana já tinha aprendido, do pior jeito possível, como algumas lágrimas bem colocadas eram suficientes para deixar um homem completamente cego.
No fim, a única pessoa por quem ela sentia raiva de verdade era de si mesma, por ter demorado tantos anos para enxergar isso.
Sem dizer mais nada, ela se virou e foi em direção à porta, mas Cláudio a alcançou em poucos passos e segurou seu pulso com força.
— Eu já falei. Peça licença ou peça demissão.
Juliana baixou os olhos para a mão dele apertando seu braço e, por um instante, já nem soube dizer se Cláudio queria que ela ficasse em casa para cuidar de Melissa ou se, no fundo, só aproveitava a situação para empurrá-la de vez para o papel de dona de casa submissa que sempre lhe pareceu tão conveniente.
Talvez fossem as duas coisas ao mesmo tempo.
Ela puxou o ar e respondeu:
— Eu também já falei que não vou.
Cláudio apertou os lábios, como se tentasse manter o controle.
— Se você acha que perder esse emprego vai ser prejuízo, eu posso compensar.
Juliana repetiu a palavra num tom amargo:
— Compensar?
Como se dinheiro pudesse resolver qualquer coisa. Como se houvesse algum valor capaz de pagar os quatro anos que ela tinha colocado naquela relação.
— Sim. Se você pedir demissão e ficar em casa, te dou o que você quiser. — Cláudio continuou.
Foi naquele instante que uma ideia começou a tomar forma na cabeça de Juliana, e ela ergueu o queixo com uma calma que contrastava com tudo o que estava sentindo por dentro.
— Tudo bem. Então quero este apartamento.
— Este apartamento? — Cláudio franziu levemente a testa.
— Quero que você transfira este apartamento para o meu nome. Se você assinar o contrato de transferência, peço demissão do Grupo Amorim.
Para Cláudio, aquele imóvel de três quartos não tinha importância suficiente para merecer discussão. Agora que Melissa já não tinha problemas com verba de pesquisa, ele pretendia comprar outro apartamento maior dali a algum tempo, então aceitou sem pensar demais.
— Eu mando preparar o contrato.
— E eu quero ler antes de você assinar.
A força na mão dela diminuiu. Juliana aproveitou para puxar o pulso de volta e esfregar de leve o local onde ele a tinha segurado.
— Tudo bem. — Cláudio acenou com a cabeça.
Na mesma hora, ele ligou para o assistente para resolver a papelada.
Juliana não insistiu mais em ir ao trabalho. Em vez disso, foi com Cláudio até a empresa e ficou esperando no carro, como ele mandou. Pouco tempo depois, o assistente apareceu com o contrato de transferência, e Juliana o leu com atenção, página por página, sem pressa nenhuma, como se quisesse ter certeza de cada linha.
Só depois levantou os olhos e disse:
— Quero ver ele assinando pessoalmente. Se eu não subir, ele desce.
O assistente concordou.
Quando já estava se afastando, Juliana o chamou de novo:
— Espera. Traz um grampeador também. Não quero que as folhas se soltem.
Ele assentiu mais uma vez e foi embora.
Assim que ficou sozinha no carro, Juliana abriu a bolsa e tirou dali a última página do acordo de divórcio, justamente a folha onde faltava a assinatura do marido. Com movimentos rápidos e cuidadosos, trocou aquela página pela folha de assinatura do contrato de transferência, mantendo tudo no lugar como se nada tivesse sido alterado.
Pouco depois, Cláudio apareceu na garagem com um grampeador numa das mãos e, no bolso do paletó, uma caneta-tinteiro dourada.
Juliana reconheceu a caneta no mesmo instante. Tinha sido o primeiro presente que dera a ele.
Mesmo depois de quatro anos, Cláudio continuava usando a mesma.
Por um breve segundo, ela ficou olhando para aquele detalhe como se o tempo tivesse feito questão de dar uma volta completa e parar exatamente ali.
— O grampeador.
A voz de Cláudio a trouxe de volta, e ele entrou no carro.
Sob a luz fraca da garagem subterrânea, Juliana abaixou os olhos, organizou as folhas com cuidado, grampeou o documento e o abriu exatamente no ponto em que ele precisava assinar. Como o contrato tinha sido preparado pelo próprio assistente e já tinha passado pelas mãos dele antes, Cláudio não desconfiou de nada; apenas pegou a caneta, assinou o nome e colocou a data com a tranquilidade de quem acreditava estar resolvendo uma simples transferência de imóvel. Estava feito.
Anos atrás, tinha sido com aquela mesma caneta que ele havia assinado o registro de casamento. Agora, com ela, assinava também o divórcio.
De certa forma, aquilo encerrava tudo como havia começado.
Naquele exato instante, o acordo de divórcio entrou em vigor, selando a certeza de que em apenas um mês os dois deixariam de ser marido e mulher de vez.
Segurando as folhas do contrato com firmeza nas mãos, Juliana não deixou escapar nenhuma lágrima, pois havia feito uma promessa a si de que jamais voltaria a chorar por Cláudio ou por aquele casamento falido.
A luz fraca do ambiente escondia a expressão de puro alívio no rosto dela, impedindo que o homem percebesse o que ela sentia por dentro enquanto ele ainda insistia no assunto da demissão.
— Cumpri a minha parte do trato. — Avisou Cláudio. — Vou pedir para o meu assistente levar você até o Grupo Amorim para pedir demissão agora mesmo.
— Tudo bem. — Concordou Juliana, acenando com a cabeça.
Afinal de contas, ela não trabalhava de verdade na empresa e bastava dar uma volta pelo prédio do Grupo Amorim fingindo que iria resolver a situação toda. Ela tinha uma lembrança da gerente de recursos humanos fazendo o seu cadastro facial na entrada, mas sabia que o seu acesso só passava das catracas da portaria.
O carro de Cláudio, um modelo de luxo de quatro milhões, era um espaço em que Juliana mal tinha estado ao longo do casamento, e aquela era a primeira vez que ele mandava o assistente levá-la em particular.
Do lado de fora, as folhas vermelhas dos bordos cobriam a rua e, quando o vento passava, desciam em redemoinhos leves, espalhando-se pela calçada e formando um cenário bonito demais para combinar com o vazio que ela carregava por dentro.
Juliana virou o rosto para a janela, com o olhar desfocado.
O acordo de divórcio repousava sobre seu colo.
Enquanto dirigia, o assistente observou Juliana algumas vezes pelo retrovisor e não conseguiu deixar de achar estranha a calma dela. Havia algo de excessivamente sereno naquele silêncio, e mais de uma vez ela levou os dedos até a aliança, tocando-a como se estivesse prestes a arrancá-la dali.
— Sra. Santos, chegamos.
Juliana guardou o documento na bolsa e respondeu:
— Certo. Pode voltar.
— Sim, Sra. Santos. Quando terminar, por favor, avise o Sr. Cláudio.
— Eu sei.
Sob o olhar atento do assistente, Juliana passou pelo reconhecimento facial e entrou no prédio do Grupo Amorim. Na época em que Sofia a havia colocado ali naquele cargo apenas nominal, tinha sido Rafaela, a gerente de RH, quem a havia recebido pessoalmente. Por isso, se era para "pedir demissão", o caminho natural era procurá-la.
Ela nem precisou perguntar nada na recepção, porque logo avistou Rafaela com um copo de café na mão. Rafaela também a viu e, depois de um breve momento de surpresa, abriu um sorriso caloroso e caminhou diretamente até ela.
— Juliana! Você veio!
— Rafaela.
— Vem, vamos conversar na minha sala.
Juliana não era uma simples funcionária de passagem; tinha sido colocada ali por indicação direta da tia de Bernardo, e Rafaela sabia muito bem que não podia tratá-la com descuido.
Enquanto seguia com ela, Juliana percebeu que havia alguém olhando em sua direção. O incômodo daquela sensação a fez virar discretamente a cabeça, mas, quando procurou a origem do olhar, viu apenas o perfil de uma figura alta e elegante se afastando ao longe.
Parecia alguém conhecido, mas ela não conseguia se lembrar de onde.