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Meu Ex-Marido Não Me Larga
Meu Ex-Marido Não Me Larga
Author: Semente Negra

Capítulo 1

Author: Semente Negra
Nos quatro anos de casamento com Henrique Vasconcelos, Natália Almeida o amara com uma paixão quase insana. Ele, por sua vez, sempre se mantivera calmo e indiferente.

Na alta sociedade, todos diziam que a herdeira da família Almeida jamais conseguiria viver sem Henrique.

Ela também acreditava nisso.

Até o dia em que levou o menino cujos estudos custeava para almoçar em um restaurante.

Ao passar por uma sala reservada, ouviu um dos amigos de Henrique brincar:

— Ah, agora tudo faz sentido! Você fez a Natália bancar os estudos do garoto porque a mãe dele é a Sofia! Poxa, Rique, você é apaixonado mesmo, hein? A Sofia te largou, casou com outro e teve um filho, e você ainda não guarda rancor?

— Rancor de quê? A Sofia sempre foi a única mulher por quem ele abriu uma exceção.

— E fala sério, como uma mulher como a Natália, que nunca quis saber de estudar nem de fazer nada da vida, poderia estar à altura do Henrique? A mãe dela mal tinha morrido quando a madrasta entrou em casa grávida. O pai sempre ficou do lado da madrasta. Se não fosse pelo Henrique, vocês acham que ela teria toda essa posição e prestígio que tem hoje?

— Mas, se o assunto for divórcio, podem esquecer. A Natália é louca por ele. Prefere morrer a aceitar a separação.

Henrique ocupava a cabeceira da mesa, com um cigarro entre os dedos. A fumaça envolvia seu rosto, deixando entrever um ar de cansaço e distanciamento. Seu olhar se perdia na paisagem além da janela.

Ao ouvir o comentário, Henrique esboçou um leve sorriso.

Não disse uma palavra.

O terno preto, de corte impecável, realçava seus ombros largos e a cintura estreita, dando-lhe uma presença imponente. O colarinho ligeiramente aberto suavizava a formalidade do traje, sem diminuir o ar de autoridade que ele transmitia.

Tinha traços marcantes, mandíbula bem definida e lábios finos. Bastava vê-lo sentado ali para perceber a segurança e o distanciamento de quem estava acostumado a ocupar uma posição de poder e manter tudo sob controle.

Do lado de fora da sala reservada, Natália apertava a maçaneta com tanta força que as veias azuladas saltavam sob a pele clara de sua mão. Pela fresta da porta, observava tudo.

Seu mundo acabara de desabar.

Sua mente ficou completamente vazia.

Então era assim que se sentia quando o amor que alguém carregava dentro de si era esmagado.

A dor era tão violenta que ela mal conseguia respirar.

Era como se lhe tivessem arrancado um pedaço enorme do coração, deixando uma ferida que doía até os ossos.

Sofia Martins.

A mãe do menino que estava com ela.

Sofia havia perdido a perna direita abaixo do joelho e trabalhava para sustentar o filho sozinha.

Um ano antes, Natália e Henrique haviam começado a ajudar financeiramente o filho de Sofia, um menino prodígio com um distúrbio na percepção das emoções.

Mãe e filho viviam numa região afastada. Henrique sugerira que os dois se mudassem para Santa Aurora, onde teriam acesso a escolas e serviços médicos melhores.

Natália concordara e cuidara pessoalmente de tudo, procurando uma escola para o menino, uma casa para os dois e resolvendo cada detalhe da mudança.

Agora, quanto mais repassava aquelas lembranças, mais ridícula e digna de pena se sentia.

Ela queria ter um filho, mas Henrique sempre dizia que não havia pressa.

Agora entendia.

Ele só não tinha pressa de ter um filho com ela.

Quando Natália sugerira comprar uma prótese mais cara para Sofia, Henrique se oferecera imediatamente para cuidar do assunto.

E ela, ingênua, achara que o marido estava sendo atencioso com ela.

Mas era Sofia quem ele queria agradar.

Henrique só se casara com Natália por despeito, porque Sofia o havia deixado.

Sua presença na vida dele não passava de uma piada.

Natália empurrou a porta e entrou.

O rosto, normalmente tão radiante e cheio de vida, estava inclinado para baixo, parcialmente encoberto pelas sombras. Não restava nada da vivacidade de sempre. Havia apenas uma frieza desoladora.

Os presentes ergueram os olhos, um após o outro, até que todos os olhares recaíram sobre ela.

Alguns demonstraram surpresa. Outros, nervosismo ou perplexidade.

Mas a maioria reagiu com indiferença, frieza e até desprezo.

Apenas uma pessoa permaneceu perfeitamente tranquila.

Henrique.

Ele se limitou a lançar um olhar para ela.

Natália sustentou aquele olhar, procurando qualquer sinal de que sua presença o tivesse abalado.

Mas não encontrou nada.

Era como se Henrique tivesse absoluta certeza de que, mesmo depois de descobrir sua infidelidade, ela continuaria incapaz de deixá-lo.

E não havia uma única pessoa naquela sala disposta a defendê-la.

Natália nunca conseguira fazer parte do círculo social do marido. Henrique vivia cercado de grandes empresários, figuras influentes e gênios das mais diversas áreas. Ela, aos olhos deles, não passava de uma mulher sem instrução, interessada apenas em comer bem, se divertir e aproveitar a vida. Não tinham absolutamente nada em comum.

Para aquelas pessoas, a simples presença de Natália já rebaixava o nível do grupo. Era por isso que nunca a haviam recebido de braços abertos.

Se fosse agir como de costume, Natália já teria virado aquela mesa, provocado um escândalo e feito a cidade inteira ficar sabendo do que acontecera.

Mas não fez nada disso.

Dessa vez, estava mais calma do que o habitual.

Finalmente aprendera a lição que Henrique tantas vezes tentara lhe ensinar.

"Natália, amadureça. Pare de deixar suas emoções mandarem em você."

— Nati! Você chegou! Vem, senta aqui! — Disse alguém, fingindo que nada havia acontecido.

Naquele momento, Sofia apareceu novamente à porta, trazendo mais um prato.

Carregava uma enorme travessa de vidro com sashimi, maior que sua própria cabeça. Uma montanha de gelo triturado sustentava as fatias de peixe, e o peso fazia seus pulsos cederem. Sofia mantinha os lábios firmemente cerrados enquanto se esforçava para segurar a travessa.

Um dos presentes logo se levantou para ajudá-la a colocar o prato na mesa e, aproveitando a ocasião, convidou-a a se sentar.

Sofia ocupou justamente o único lugar que ainda estava vago.

Ao lado de Henrique.

Natália, por sua vez, continuou de pé, sozinha, como uma intrusa naquele ambiente.

— Sofi, por que você insiste em trabalhar tanto? Não é como se o Rique não tivesse te dado dinheiro.

— É um bom emprego. Ganho meu dinheiro com meu próprio esforço. Não vejo motivo para me sentir humilhada por isso... — Respondeu Sofia, articulando cada palavra com firmeza, sem deixar transparecer a menor fragilidade.

Nesse instante, os garçons entraram empurrando um carrinho com um bolo enorme, de mais de dez andares.

Era o bolo que Natália havia feito com as próprias mãos.

Durante o último mês, passara os dias inteiros ensaiando com sua companhia de dança e preparando um espetáculo. Mal tinha tempo para comer, mas, ainda assim, conseguira encaixar aulas com um confeiteiro entre os compromissos para aprender a fazer aquele bolo.

Tudo para comemorar seu quarto aniversário de casamento.

E, escondida dentro do bolo, havia uma aliança.

Henrique já não usava a dele havia muito tempo. Dissera que a perdera por acidente. Natália, então, viajara ao exterior para encontrar o designer responsável pelas alianças originais e encomendara outra exatamente igual.

— Rique, você até encomendou um bolo pra Sofi?

Todos se voltaram para Sofia, sorrindo.

— Sofi, que bom ter você de volta!

Natália olhou para Henrique.

Ele ergueu a taça junto com os demais, sem demonstrar o menor interesse em saber de onde viera aquele bolo.

A primeira fatia foi servida a Sofia.

Algo brilhou na parte cortada. Surpresa, ela observou a aliança parcialmente exposta entre as camadas.

— Mas isso é...

A sala inteira explodiu em gritos e comemorações.

— Uma aliança! É um pedido de casamento!

— Fica com ele! Fica com ele! Fica com ele!

— Beija! Beija!

Um estrondo interrompeu a gritaria.

O enorme bolo de vários andares despencou no chão.

Em segundos, o ambiente antes impecável e luxuoso se transformou numa verdadeira bagunça.

— Natália! O que você está fazendo?! Ficou louca?!

Todos se viraram para ela, sem esconder a indignação e a raiva.

Sob os olhares atônitos dos presentes, Natália tirou a aliança do dedo anelar e a atirou sobre os destroços do bolo.

Usara aquela aliança durante quatro anos.

Uma marca funda permanecia em seu dedo, e ela não sabia quanto tempo levaria para desaparecer.

Mas, agora que o anel não estava mais ali, aquela marca também acabaria sumindo um dia.

— Henrique, não precisamos mais comemorar nosso aniversário de casamento. Quero o divórcio.

Ao sentir o vazio deixado pela aliança em seu dedo, percebeu como sua garganta estava seca.

Os presentes, porém, logo recuperaram a tranquilidade, como se tivessem acabado de assistir a uma cena corriqueira.

Afinal, Natália vivia perdendo a paciência e ameaçando pedir o divórcio. Bastava passar um tempinho para ela mesma voltar, implorando para ficar com Henrique.

Aquele casamento jamais terminaria. Todos tinham certeza disso.

— Só não quero que acorde amanhã arrependida. — Disse Henrique, num tom despreocupado, como se aquilo não tivesse a menor importância. — Cumpra o que está dizendo. Nada de vir amanhã fazer manha e tentar me convencer a voltar atrás.

— Pode ficar tranquilo. Isso não vai acontecer de novo.

O que nenhum deles sabia era que, daquela vez, Natália estava falando sério.

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