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last update publish date: 2026-08-30 14:31:06

Capítulo 4

— Senhor Leonardo?

A voz feminina ecoou pelo escritório, agindo como um balde de água fria que me arrancou do estado de transe absoluto em que eu me encontrava diante do monitor. Levantei a cabeça devagar, massageando a ponte do nariz antes de girar a cadeira de couro na direção da porta. Minha secretária estava parada ali, segurando um tablet contra o peito como se fosse um escudo protetor, com a expressão exata de quem estava ponderando se valia a pena arriscar a própria vida ao me interromper.

— Sim? — perguntei, finalmente desviando o olhar da tela do notebook.

Ali na minha frente, uma planilha interminável de contratos, faturamentos internacionais e negociações com mineradoras de diamantes se estendia como um mapa de guerra. Cada número representava uma decisão de seis dígitos; cada cláusula mal revisada era um rombo potencial no orçamento.

— O senhor vai querer que eu solicite o almoço para comer aqui na mesa mesmo?

A pergunta foi impecavelmente profissional, mas conheço o tom. Era a voz de quem sabia que, se deixasse por minha conta, eu sobreviveria à base de café puro e raiva até o dia seguinte. Ponderei por dois segundos. A ideia de passar mais dez minutos encarando aquele teto de vidro projetado por um arquiteto renomado me deu uma claustrofobia repentina. Eu precisava de ar. De preferência, um ar que não custasse dois mil dólares o metro quadrado.

— Não precisa, vou sair para comer. Obrigado, Amanda. — Minha resposta foi curta, sem espaço para réplica, mas mantive o tom civilizado. Voltei a atenção para a tela, os dedos voando sobre o teclado para fechar o último e-mail da pilha antes que a luz do sol desaparecesse por completo.

— Com licença, senhor. — Ela piscou, deu meio-volta e sumiu pelo corredor antes que eu mudasse de ideia.

Pousei de madrugada em Chicago, vindo direto de Los Angeles, e a palavra "descanso" não entrou no meu itinerário. A viagem tinha sido um massacre burocrático: reuniões de oito horas consecutivas em salas com ar-condicionado no mínimo, seguidas por jantares de negócios onde executivos de terno sob medida disputavam quem tinha o ego maior enquanto mastigavam lagosta. O jet lag ainda estava martelando a minha nuca com a força de uma marreta, e o comitê de boas-vindas na minha mesa era uma montanha de documentos urgentes.

Contratos para assinar, reuniões para remarcar, parcerias antigas para serem sumariamente canceladas porque o retorno financeiro tinha virado piada. Minhas secretárias faziam um trabalho espetacular filtrando o caos, mas a assinatura no final da página ainda era a minha. E, no topo da cadeia alimentar, o peso da lâmina só cai sobre um pescoço.

Ser o CEO de um império internacional de joias nunca foi o meu plano de vida. Era uma herança familiar, uma tradição corporativa entrelaçada ao sobrenome Knudson com a força de uma corrente de aço. Quando meu pai resolveu se aposentar, a opção óbvia para me substituir seria a minha irmã mais nova. Mas ela tem doze anos a menos que eu e o coração voltado para a criação — o sonho dela sempre foi desenhar roupas, pisar na moda, criar arte, e não passar o dia gerenciando crises de suprimento e advogados tributários. Eu não podia simplesmente empurrar essa bomba no colo dela e roubar sua chance de ter uma vida de verdade. Então, vesti o terno, assumi a cadeira e carreguei a cruz decorada com diamantes.

Chegar aos 40 anos com a conta bancária recheada e a vida pessoal em ruínas é um clichê corporativo quase poético. Eu não sou um homem realizado. Existe uma lista gigante de coisas simples que eu gostaria de ter feito, mas a tirania de "manter a imagem da empresa" sempre falou mais alto. É uma existência pautada por aparências: jantares de gala onde todo mundo se odeia, apertos de mão calculados e sorrisos de plástico para a imprensa. Se eu pudesse voltar no tempo, teria seguido a advocacia, que era o meu plano original. Pelo menos no tribunal os golpes são dados de frente.

Prazer, Leonardo Moreira. 40 anos, empresário, solteiro por opção — e por falta de paciência — e pai de um filho que é o meu maior pesadelo existencial. Tenho o tipo de vida que faz os leitores de revistas de negócios suspirarem: dinheiro ilimitado, jatinho à disposição, imóveis nas melhores capitais do mundo. Mas o segredo que ninguém te conta é que quanto maior a pilha de dinheiro, maior a cela. Tem dias em que a única coisa que eu queria era ser um cara absolutamente comum. Alguém que anda pela rua sem ver a própria cara em portais de finanças, que toma um café ruim sem medo de virar manchete e que consegue ter uma conversa sincera sem precisar checar se a pessoa do outro lado está interessada no meu sobrenome.

E aí entramos na questão do meu filho. Thiago tem 25 anos. Ele foi o resultado de uma noite de uísque barato e julgamento péssimo com uma dançarina de boate, mais de duas décadas atrás. Quando ela descobriu a gravidez, tentou a jogada clássica de me chantagear por um casamento. Deixei claro que assumiria a criança com todos os direitos e mordomias do mundo, mas que não me casaria por obrigação. O teste de DNA deu positivo, e quando segurei aquele garotinho nos braços pela primeira vez, prometi a mim mesmo que daria a ele tudo o que estivesse ao meu alcance.

Onde foi que eu errei? Essa é a pergunta que me assombra dia e noite.

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