LOGINSubi as escadas e fui direto para o meu quarto. No meio do caminho, quase pisei numa pelúcia roída em formato de macaco. Os brinquedos do Thor estavam espalhados pelo carpete. Fui recolhendo um por um — a bola de borracha dura, o urso sem olho, o osso de náilon — e jogando no cesto de vime no canto do quarto.
O Thor dorme na minha cama. Ele tem uma caminha ortopédica caríssima que comprei no ano passado, macia como uma nuvem, mas o folgado prefere se esticar na minha colcha de seda e me usar como travesseiro. E eu amo. Sentir o peso e a respiração ritmada dele à noite é a única coisa que impede o silêncio do quarto de me deixar louca. Ele só abandona o posto quando precisa passear... ou quando o Thiago resolve aparecer. O Thor odeia o meu namorado com todas as forças do seu ser canino. Na última vez que o Thiago tentou bancar o simpático e avançou a mão, quase ficou sem dois dedos. Os animais têm um instinto afiado para farejar escrotidão. Talvez eu devesse ouvir mais o meu cachorro. Fui direto para o banheiro, me livrando da roupa de ginástica encharcada de suor. Liguei o chuveiro no gelado e dei um passo para debaixo do jato de água. A dorzinha boa da água fria batendo nas minhas costas fez minha pele formigar, espantando os fantasmas da cabeça. Lavei meu cabelo com calma, deixando a espuma do xampu levar embora a tensão do dia que mal tinha começado. (...) Vinte minutos depois, eu já estava pronta. Um vestido leve, uma maquiagem natural e algumas borrifadas do meu perfume favorito de jasmim e baunilha. Peguei minha bolsa sobre a penteadeira e desci as escadas rumo à sala de jantar. O cheiro de café fresco e torrada quentinha invadia o ar, mas meu estômago estava um nó cego. — Bom dia — disse ao entrar na sala. Rafael estava sentado à mesa, devorando uma fatia de bolo enquanto checava alguns papéis. Ao me ver, abriu um sorriso largo. — Bom dia, maninha! Dormiu bem? Tá pronta para arrasar na passarela hoje? — Dormi sim, Rafe — sorri de volta, sentindo aquele mínimo alívio que o meu irmão sempre me proporcionava. Do outro lado da mesa, a cena era oposta. Minha mãe segurava o jornal dobrado com uma postura impecável, os olhos azuis fixos na coluna social. Nem sequer se deu ao trabalho de piscar ou levantar a cabeça para responder ao meu cumprimento. A presença dela exalava uma frieza de congelar o ar. — Bom, já estou indo nessa — falei, sem coragem de me sentar ali e encarar a tortura do café em família. — Não vai comer nada, pequena? — Rafael perguntou, franzindo a testa e apontando para a mesa farta. — Você mal tocou na comida ontem à noite. — Tô sem fome, juro. A ansiedade pro desfile tá me matando — respondi sinceramente. Sem baixar o jornal, a voz da minha mãe cortou o ambiente como uma lâmina afiada: — Pelo menos assim você perde um pouco desse peso acumulado nas coxas antes de subir na passarela. O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Sentindo o soco no estômago, soltei um suspiro baixo, engolindo a seco. — Mãe! — Rafael a repreendeu imediatamente, a voz carregada de uma indignação genuína, pousando os talheres na mesa com força. — Deixa pra lá, Rafe. Já tô atrasada — murmurei, girando sobre os calcanhares e saindo da sala de jantar antes que a primeira lágrima ousasse cair. Ela me achava fora dos padrões porque eu não parecia um cabide humano. Eu tinha pernas grossas, quadril largo e busto fartos — uma silhueta violão que a agência ama e explora em campanhas gigantes. Passei anos da minha adolescência brigando com o espelho para entender que meu corpo não era um defeito de fabricação. Sou loira, tenho os olhos claros do meu pai, os lábios cheios e uma teimosia que não me deixa curvar a cabeça para o veneno de ninguém. Nem mesmo para o dela. Eu me amo do jeito que sou, inteira, imperfeita e absurdamente viva. Ajustei a alça da bolsa no ombro, destravei meu carro na garagem e me deparei com meu próprio reflexo no vidro do veículo. Hoje era dia de desfile. E, por mais que a minha própria casa parecesse um campo de batalha, quando eu pisava naquela passarela, o mundo inteiro tinha que me engolir.— Então, Sofia... — Falo o nome dela, provando-o em minha língua como um doce proibido, uma fruta proibida que eu sei que não deveria provar. — Está com projeto novo? — Pergunto, tentando manter a conversa fluindo, tentando prolongar aquele momento que parece tão frágil e tão precioso.— Sim, uns dois. Se eu não me engano. — Começa a comer, seus movimentos graciosos, cada garfada uma dança, cada mordida uma poesia.— Aqui está, senhor. — O senhorzinho coloca meu pedido na minha frente, o aroma doce do morango invadindo meus sentidos como uma promessa de perigo e prazer. Agradeço e encaro o prato, mas não toco, paralisado pelo medo e pelo desejo que lutam dentro de mim.— Vai viajar? Ficar por aqui? — Ela olha para o meu prato e depois para mim, seus olhos curiosos, tentando decifrar o enigma que eu pareço ser, o homem que veio de um mundo tão diferente do dela.— Por agora não pretendo ir a lugar algum. — Pego a colher com mão trêmula, sentindo o metal frio contra meus dedos. — Soment
— Não sei. — Dá de ombro, sorrindo de lado. — Sou muito ocupada, sabe? — Pisca os olhinhos e rio, sua risada contagiante, um som que parece música para meus ouvidos, uma melodia que eu quero ouvir repetidamente.— O de sempre, Sof? — O menino pergunta e me olha de relance, claramente desafiador, como um cachorrinho tentando proteger seu território contra um invasor. — Cadê seu namorado? — Pergunta, dando ênfase na palavra "namorado", me encarando com hostilidade disfarçada de curiosidade.— Sim, querido. E deve estar na casa dele, não sei. — O responde com toda a educação, sua voz doce mas firme, como se estivesse estabelecendo limites sem precisar levantar a voz. Ele sorri e vai fazer o pedido dela, mas não sem antes me lançar outro olhar de desaprovação, como se eu fosse um intruso em seu território, um lobo em meio a ovelhas.— E o senhor? — Me viro para o homem, e sua pergunta me pega desprevenido, como uma onda inesperada em um mar calmo.— É... — Olho para tudo que tinha ali — a
Subo novamente para o meu quarto e escovo meus dentes com movimentos mecânicos, o sabor da pasta de menta não conseguindo despertar meus sentidos adormecidos. Pego minhas coisas que preciso levar para o escritório — a pasta de couro italiana, o celular que nunca para de tocar, os óculos de leitura que uso cada vez mais, testemunhas silenciosas do passar dos anos. Saio da mansão e entro no meu carro, o motor roncando suavemente como um animal adormecido, e dirijo na direção da minha empresa, o trânsito de Chicago se movendo lentamente ao meu redor como um rio de metal e vidro, cada carro uma história, cada motorista um destino.Paro no sinal vermelho, apoio o braço na janela e olho para o outro lado da rua, sem nenhuma razão aparente, apenas o desejo de me distrair dos pensamentos que me assombram. Meu coração para quando a vejo. Ela está de saia, blusa branca e sapato também branco, seu cabelo preso em um rabo de cavalo que balança suavemente com seus movimentos, como se dançasse ao v
Solto um suspiro pesado, sentindo o peso do mundo sobre meus ombros — o peso das responsabilidades, das expectativas, do legado que carrego — e volto a me concentrar no meu café da manhã, começando a ler minha agenda no meu tablet. Os números e compromissos se misturam diante dos meus olhos, uma névoa de informações que não consigo processar. Minha mente ainda está presa na imagem da loira de olhos azuis — seus cabelos dourados como trigo ao sol, seu sorriso que iluminou a passarela como um farol na escuridão, seus olhos que encontraram os meus como se houvesse um segredo antigo entre nós, uma conexão que transcendia o tempo e o espaço.Pela minha agenda, terei três reuniões hoje, sendo uma delas com a nova contratada da minha empresa para ser a modelo oficial da mesma. Eu não faço parte da equipe que faz a escolha de modelos, não dou minha opinião e deixo isso sempre com eles. Cada setor tem seus especialistas, e eu aprendi a confiar em suas decisões — uma lição dura que custou caro
A manhã seguinte amanheceu cinzenta, nuvens pesadas e ameaçadoras cobrindo o céu de Chicago como um presságio de tempestade iminente. O ar estava carregado, pesado, como se a própria cidade estivesse prenunciando a tempestade emocional que se formava dentro de mim. Os raios de sol que teimavam em atravessar as nuvens pareciam fracos, impotentes diante da escuridão que se instalara em meu peito. Sentado à mesa de jantar, com uma xícara de café fumegante entre as mãos — o vapor subindo em espirais dançantes que se dissipavam no ar frio —, eu tentava processar os eventos da noite anterior, cada imagem gravada em minha mente como se tivesse sido esculpida em pedra com um cinzel impiedoso.Ótimo, fui me interessar justamente pela namorada do meu filho... Maravilha! Não tem nada melhor que isso, não é mesmo? A ironia do destino era tão cruel quanto cômica. Dos milhões de mulheres em Chicago, a única que despertou algo em mim depois de anos de apatia emocional tinha que ser a namorada do meu
— Querida, estava linda. — Beijou meu nariz com carinho, seus olhos brilhando de orgulho paterno. — Como sempre. — Piscou o olho, e senti um pouco do amor que sempre me faltou em outros lugares.— Obrigada, papai. — Thiago saiu de trás dele, parando ao lado do pai, que não estava com a cara muito boa, seus olhos escuros fixos em mim de uma forma que me fazia sentir descoberta, como se ele pudesse ver através de todas as minhas camadas.— Terei que ir para casa, querida. Amanhã tenho uma viagem de última hora. — Confirmo e o abraço com força, sentindo o cheiro familiar de seu perfume. — Mas, parabéns por mais uma conquista. Sua mãe e irmã vão ficar, seu irmão... Saiu com algumas das modelos. — Dou risada, tentando aliviar a tensão que pairava no ar.— Eu já estou indo também, pai. — Thiago se aproxima e me puxa para si com um movimento brusco, suas mãos frias em minha cintura.— Eu vou levá-la para sair, senhor Almeida. — Disse, e meu pai o encarou sério, mas nada disse. Seus olhos, no







