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last update publish date: 2026-06-26 05:27:56

Subi as escadas e fui direto para o meu quarto. No meio do caminho, quase pisei numa pelúcia roída em formato de macaco. Os brinquedos do Thor estavam espalhados pelo carpete. Fui recolhendo um por um — a bola de borracha dura, o urso sem olho, o osso de náilon — e jogando no cesto de vime no canto do quarto.

O Thor dorme na minha cama. Ele tem uma caminha ortopédica caríssima que comprei no ano passado, macia como uma nuvem, mas o folgado prefere se esticar na minha colcha de seda e me usar como travesseiro. E eu amo. Sentir o peso e a respiração ritmada dele à noite é a única coisa que impede o silêncio do quarto de me deixar louca.

Ele só abandona o posto quando precisa passear... ou quando o Thiago resolve aparecer. O Thor odeia o meu namorado com todas as forças do seu ser canino. Na última vez que o Thiago tentou bancar o simpático e avançou a mão, quase ficou sem dois dedos. Os animais têm um instinto afiado para farejar escrotidão. Talvez eu devesse ouvir mais o meu cachorro.

Fui direto para o banheiro, me livrando da roupa de ginástica encharcada de suor. Liguei o chuveiro no gelado e dei um passo para debaixo do jato de água. A dorzinha boa da água fria batendo nas minhas costas fez minha pele formigar, espantando os fantasmas da cabeça. Lavei meu cabelo com calma, deixando a espuma do xampu levar embora a tensão do dia que mal tinha começado.

(...)

Vinte minutos depois, eu já estava pronta. Um vestido leve, uma maquiagem natural e algumas borrifadas do meu perfume favorito de jasmim e baunilha. Peguei minha bolsa sobre a penteadeira e desci as escadas rumo à sala de jantar. O cheiro de café fresco e torrada quentinha invadia o ar, mas meu estômago estava um nó cego.

— Bom dia — disse ao entrar na sala.

Rafael estava sentado à mesa, devorando uma fatia de bolo enquanto checava alguns papéis. Ao me ver, abriu um sorriso largo.

— Bom dia, maninha! Dormiu bem? Tá pronta para arrasar na passarela hoje?

— Dormi sim, Rafe — sorri de volta, sentindo aquele mínimo alívio que o meu irmão sempre me proporcionava.

Do outro lado da mesa, a cena era oposta. Minha mãe segurava o jornal dobrado com uma postura impecável, os olhos azuis fixos na coluna social. Nem sequer se deu ao trabalho de piscar ou levantar a cabeça para responder ao meu cumprimento. A presença dela exalava uma frieza de congelar o ar.

— Bom, já estou indo nessa — falei, sem coragem de me sentar ali e encarar a tortura do café em família.

— Não vai comer nada, pequena? — Rafael perguntou, franzindo a testa e apontando para a mesa farta. — Você mal tocou na comida ontem à noite.

— Tô sem fome, juro. A ansiedade pro desfile tá me matando — respondi sinceramente.

Sem baixar o jornal, a voz da minha mãe cortou o ambiente como uma lâmina afiada:

— Pelo menos assim você perde um pouco desse peso acumulado nas coxas antes de subir na passarela.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Sentindo o soco no estômago, soltei um suspiro baixo, engolindo a seco.

— Mãe! — Rafael a repreendeu imediatamente, a voz carregada de uma indignação genuína, pousando os talheres na mesa com força.

— Deixa pra lá, Rafe. Já tô atrasada — murmurei, girando sobre os calcanhares e saindo da sala de jantar antes que a primeira lágrima ousasse cair.

Ela me achava fora dos padrões porque eu não parecia um cabide humano. Eu tinha pernas grossas, quadril largo e busto fartos — uma silhueta violão que a agência ama e explora em campanhas gigantes. Passei anos da minha adolescência brigando com o espelho para entender que meu corpo não era um defeito de fabricação. Sou loira, tenho os olhos claros do meu pai, os lábios cheios e uma teimosia que não me deixa curvar a cabeça para o veneno de ninguém. Nem mesmo para o dela. Eu me amo do jeito que sou, inteira, imperfeita e absurdamente viva.

Ajustei a alça da bolsa no ombro, destravei meu carro na garagem e me deparei com meu próprio reflexo no vidro do veículo. Hoje era dia de desfile. E, por mais que a minha própria casa parecesse um campo de batalha, quando eu pisava naquela passarela, o mundo inteiro tinha que me engolir.

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