LOGINThiago cresceu e se transformou em uma figura intragável. É um homem mimado, fútil, soberbo e arrogante, que mede o valor dos seres humanos pelo extrato bancário. Ele trata qualquer pessoa fora do seu círculo social como se fosse lixo descartável. Minha irmã cortou relações com ele depois que o Thiago teve a pachorra de humilhar o noivo dela em um jantar da família. Ver o próprio filho se tornar o tipo exato de pessoa que eu mais desprezo no mundo é uma derrota que nenhum balanço financeiro positivo consegue compensar.
A porta da minha sala foi aberta sem qualquer aviso. Nem um toque na madeira. Thiago entrou exibindo um sorriso autossuficiente que fazia minha úlcera reclamar instantaneamente. Ele caminhou até a minha mesa, puxou uma das cadeiras de design exclusivo e se largou nela, cruzando as pernas e jogando os braços sobre os apoios com a postura de quem se considera o dono do prédio. — Fala, pai! Como foi a viagem de volta da terra dos famosos? — perguntou, me encarando com aquela olhada superficial de quem está mais interessado no próprio reflexo no vidro da janela do que na resposta. — A viagem foi cansativa, Thiago. E estou cheio de trabalho — respondi, sem erguer os olhos do documento que tentava assinar. Mantive os dedos no teclado, torcendo para que a mensagem subliminar de "estou ocupado, caia fora" fosse absorvida por milagre. — Entendi. Sempre o trabalho, né? — ele deu de ombros, numa apatia irritante. — Mas enfim, passei aqui porque preciso te entregar isso. Olhei de relance. Ele colocou sobre a minha mesa um envelope de papel encorpado, com textura aveludada e detalhes gravados em relevo dourado. — O que é isso? — Parando o que estava fazendo, puxei o papel. A essa altura, trabalhar já era uma causa perdida. — É um convite VIP pro desfile de moda que vai rolar hoje à noite. Quero que você vá comigo. Franzina a testa. O Thiago frequentava boates com som ensurdecedor, festas privadas em iates e camarotes de circuitos de corrida. Eventos de moda sofisticados definitivamente não estavam no topo da lista de interesses dele. — Você odeia esse tipo de evento. O que mudou? Ele revirou os olhos com dramaticidade, soltando um estalo com a língua. — Ah, pai, é um saco mesmo. Mas a minha namorada atual vai ser uma das modelos principais da noite. Quero aproveitar a oportunidade para apresentar ela pra você formalmente. Soltei um suspiro pesado, sentindo uma dor de cabeça despontar na fonte. A última coisa de que eu precisava no meu primeiro dia de volta a Chicago era me submeter ao suplício de conhecer mais uma das namoradas efêmeras do meu filho. O padrão dele era dolorosamente previsível: garotas fúteis, obcecadas por marcas de luxo, que olhavam para o Thiago como um passaporte para a alta sociedade e para mim como um caixa eletrônico ambulante. — Thiago, com ou sem o seu convite, eu já teria que ir a esse evento. As joias que serão apresentadas na passarela principal são da coleção exclusiva da nossa empresa. Ele se mexeu na cadeira, visivelmente desconfortável, e desviou o olhar para o quadro na parede. Um tom levemente avermelhado subiu pelo seu pescoço. — Você deveria saber disso — continuei, soltando a caneta sobre a mesa. — Considerando que você faz estágio no departamento operacional e recebe um salário desta empresa, o mínimo esperado era que você conhecesse o cronograma de lançamentos da marca. Thiago tinha entrado na faculdade de Administração apenas por pressão, mas abandonou o curso no último ano alegando que "já sabia tudo na prática". Promovi a entrada dele na empresa sob a condição estrita de que cumpriria horários, respeitaria a hierarquia e responderia aos gestores como qualquer outro funcionário. Não admitia privilégios na minha equipe, por mais que ele tentasse usar o sobrenome para furar a fila. — Ah, fala sério... Eu não fico prestando atenção nesses detalhes cafonas de bastidores — ele desdenhou, abanando a mão no ar. — Pois deveria. Agora, se me dá licença, eu tenho reuniões para alinhar. Ajeitei minha postura na cadeira e voltei a encarar a tela, dando a conversa por encerrada. Thiago se levantou num pulo, passou a mão pelo cabelo bem alinhado e ajustou a jaqueta de grife com um gesto ostensivo. — Beleza. Passo na sua casa mais tarde e a gente vai junto no seu carro. — Tanto faz, Thiago. No segundo em que a porta do escritório se fechou, afundei a cabeça nas mãos. O silêncio da sala pareceu pesar toneladas. Se houvesse uma opção de reiniciar a vida e escolher um caminho longe de todos esses jogos de poder, eu não pensaria duas vezes. Mas o mundo real não dá margem para arrependimentos tardios, e o resto da minha tarde foi consumido por números e relatórios.— Então, Sofia... — Falo o nome dela, provando-o em minha língua como um doce proibido, uma fruta proibida que eu sei que não deveria provar. — Está com projeto novo? — Pergunto, tentando manter a conversa fluindo, tentando prolongar aquele momento que parece tão frágil e tão precioso.— Sim, uns dois. Se eu não me engano. — Começa a comer, seus movimentos graciosos, cada garfada uma dança, cada mordida uma poesia.— Aqui está, senhor. — O senhorzinho coloca meu pedido na minha frente, o aroma doce do morango invadindo meus sentidos como uma promessa de perigo e prazer. Agradeço e encaro o prato, mas não toco, paralisado pelo medo e pelo desejo que lutam dentro de mim.— Vai viajar? Ficar por aqui? — Ela olha para o meu prato e depois para mim, seus olhos curiosos, tentando decifrar o enigma que eu pareço ser, o homem que veio de um mundo tão diferente do dela.— Por agora não pretendo ir a lugar algum. — Pego a colher com mão trêmula, sentindo o metal frio contra meus dedos. — Soment
— Não sei. — Dá de ombro, sorrindo de lado. — Sou muito ocupada, sabe? — Pisca os olhinhos e rio, sua risada contagiante, um som que parece música para meus ouvidos, uma melodia que eu quero ouvir repetidamente.— O de sempre, Sof? — O menino pergunta e me olha de relance, claramente desafiador, como um cachorrinho tentando proteger seu território contra um invasor. — Cadê seu namorado? — Pergunta, dando ênfase na palavra "namorado", me encarando com hostilidade disfarçada de curiosidade.— Sim, querido. E deve estar na casa dele, não sei. — O responde com toda a educação, sua voz doce mas firme, como se estivesse estabelecendo limites sem precisar levantar a voz. Ele sorri e vai fazer o pedido dela, mas não sem antes me lançar outro olhar de desaprovação, como se eu fosse um intruso em seu território, um lobo em meio a ovelhas.— E o senhor? — Me viro para o homem, e sua pergunta me pega desprevenido, como uma onda inesperada em um mar calmo.— É... — Olho para tudo que tinha ali — a
Subo novamente para o meu quarto e escovo meus dentes com movimentos mecânicos, o sabor da pasta de menta não conseguindo despertar meus sentidos adormecidos. Pego minhas coisas que preciso levar para o escritório — a pasta de couro italiana, o celular que nunca para de tocar, os óculos de leitura que uso cada vez mais, testemunhas silenciosas do passar dos anos. Saio da mansão e entro no meu carro, o motor roncando suavemente como um animal adormecido, e dirijo na direção da minha empresa, o trânsito de Chicago se movendo lentamente ao meu redor como um rio de metal e vidro, cada carro uma história, cada motorista um destino.Paro no sinal vermelho, apoio o braço na janela e olho para o outro lado da rua, sem nenhuma razão aparente, apenas o desejo de me distrair dos pensamentos que me assombram. Meu coração para quando a vejo. Ela está de saia, blusa branca e sapato também branco, seu cabelo preso em um rabo de cavalo que balança suavemente com seus movimentos, como se dançasse ao v
Solto um suspiro pesado, sentindo o peso do mundo sobre meus ombros — o peso das responsabilidades, das expectativas, do legado que carrego — e volto a me concentrar no meu café da manhã, começando a ler minha agenda no meu tablet. Os números e compromissos se misturam diante dos meus olhos, uma névoa de informações que não consigo processar. Minha mente ainda está presa na imagem da loira de olhos azuis — seus cabelos dourados como trigo ao sol, seu sorriso que iluminou a passarela como um farol na escuridão, seus olhos que encontraram os meus como se houvesse um segredo antigo entre nós, uma conexão que transcendia o tempo e o espaço.Pela minha agenda, terei três reuniões hoje, sendo uma delas com a nova contratada da minha empresa para ser a modelo oficial da mesma. Eu não faço parte da equipe que faz a escolha de modelos, não dou minha opinião e deixo isso sempre com eles. Cada setor tem seus especialistas, e eu aprendi a confiar em suas decisões — uma lição dura que custou caro
A manhã seguinte amanheceu cinzenta, nuvens pesadas e ameaçadoras cobrindo o céu de Chicago como um presságio de tempestade iminente. O ar estava carregado, pesado, como se a própria cidade estivesse prenunciando a tempestade emocional que se formava dentro de mim. Os raios de sol que teimavam em atravessar as nuvens pareciam fracos, impotentes diante da escuridão que se instalara em meu peito. Sentado à mesa de jantar, com uma xícara de café fumegante entre as mãos — o vapor subindo em espirais dançantes que se dissipavam no ar frio —, eu tentava processar os eventos da noite anterior, cada imagem gravada em minha mente como se tivesse sido esculpida em pedra com um cinzel impiedoso.Ótimo, fui me interessar justamente pela namorada do meu filho... Maravilha! Não tem nada melhor que isso, não é mesmo? A ironia do destino era tão cruel quanto cômica. Dos milhões de mulheres em Chicago, a única que despertou algo em mim depois de anos de apatia emocional tinha que ser a namorada do meu
— Querida, estava linda. — Beijou meu nariz com carinho, seus olhos brilhando de orgulho paterno. — Como sempre. — Piscou o olho, e senti um pouco do amor que sempre me faltou em outros lugares.— Obrigada, papai. — Thiago saiu de trás dele, parando ao lado do pai, que não estava com a cara muito boa, seus olhos escuros fixos em mim de uma forma que me fazia sentir descoberta, como se ele pudesse ver através de todas as minhas camadas.— Terei que ir para casa, querida. Amanhã tenho uma viagem de última hora. — Confirmo e o abraço com força, sentindo o cheiro familiar de seu perfume. — Mas, parabéns por mais uma conquista. Sua mãe e irmã vão ficar, seu irmão... Saiu com algumas das modelos. — Dou risada, tentando aliviar a tensão que pairava no ar.— Eu já estou indo também, pai. — Thiago se aproxima e me puxa para si com um movimento brusco, suas mãos frias em minha cintura.— Eu vou levá-la para sair, senhor Almeida. — Disse, e meu pai o encarou sério, mas nada disse. Seus olhos, no







