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CAPÍTULO 1
O sangue não mentia, e a dor era a única professora que nunca falhava neste mundo. Aos trinta e três anos, aprendi a olhar para o mundo através de uma lente fria, puramente calculista e desprovida de qualquer vestígio de piedade. Para o homem comum, a escuridão é motivo de pavor; para mim, Matteo Santini, o Dom da máfia italiana, a escuridão é o único lar que conheço. Sento-me no topo de um império colossal erguido sobre cadáveres, lealdade forçada e violência extrema. As pessoas tremem apenas ao ouvir o meu nome murmurado pelos becos sombrios da Itália. Elas me chamam de monstro, diabólico, implacável. E não estão erradas. Eu me tornei exatamente aquilo que a sobrevivência exigiu que eu fosse me tornei o próprio diabo em pessoa. Nem sempre fui essa casca feita de gelo e aço. Houve um tempo, distante e quase esquecido, em que acreditei na honra e na proteção incondicional do sobrenome Santini. Mas essa ilusão foi arrancada de mim de forma brutal no dia do meu aniversário de dezoito anos, a morte dos meus próprios pais. Ainda consigo fechar os olhos e sentir o cheiro forte de pólvora e sangue que impregnava o salão principal da nossa antiga propriedade. Foi uma emboscada sórdida, arquitetada por vermes que sorriam para o meu pai durante o dia e afiavam as adagas à noite. Traidores dentro do nosso próprio conselho de confiança. Ver o homem que me ensinou a andar ser metralhado sem qualquer chance de defesa, e minha mãe caindo ao lado dele, sufocada no próprio sangue, destruiu qualquer fagulha de humanidade que existia dentro de mim. Naquela noite trágica, o garoto que sonhava em apenas servir à Famiglia morreu junto com eles. Em seu lugar, renasceu o Dom. Com apenas dezoito anos, assumi o trono e a coroa de espinhos que me cabiam por direito de sangue. A transição não foi suave; foi uma guerra sangrenta e impiedosa. Os velhos capos e os inimigos externos acharam que um jovem de dezoito anos seria uma marionete fácil de manipular ou descartar. Eles não esperavam que a dor da perda se transformasse na tempestade mais devastadora que a máfia já testemunhou. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que tirei uma vida humana. Foi o homem que vendeu a rota dos meus pais aos nossos rivais. Não usei uma arma de fogo para facilitar o serviço. Olhei bem no fundo dos olhos dele enquanto afundava uma lâmina de caça na sua garganta, sentindo a vida dele se esvair devagar até que o pavor em suas pupilas se apagasse por completo. Naquela noite, fiz uma promessa solene a mim mesmo: nunca mais hesitaria. Qualquer um que ousasse desafiar a autoridade dos Santini seria exterminado sem a menor réstia de compaixão. Purguei os traidores um a um, com minhas próprias mãos. Deixei seus corpos expostos como aviso nos becos para que todos soubessem exatamente quem governava agora. Em poucos meses, o medo restaurou a ordem que a traição quase destruiu. No entanto, o fardo mais pesado que carreguei ao assumir o comando não foi liderar centenas de soldados armados nem expandir os negócios da família. Foi meu irmão, Klaus. Quando nossos pais foram brutalmente assassinados, Klaus tinha apenas quinze anos. Ele era um garoto, jogado de repente em um mar de sangue e conspirações mortais, tendo apenas a mim como porto seguro. Tive que ser o pai que ele perdeu, o tutor durão e o Dom intransigente. Ensinei Klaus a atirar antes que ele aprendesse a amar. Ensinei-o a desconfiar da própria sombra e a transformar o pânico em munição. Três anos mais novo do que eu, Klaus cresceu sob minha asa rígida e se tornou o meu Subchefe, meu braço direito e o único homem na Terra em quem confio corretamente a minha vida. Ele aprendeu a ser letal e eficiente, eu mando, e ele executa , sem piedade, um monstro igual a mim, não guardou se quer uma fagulha de bondade nessa nossa rotina sufocante. Enquanto encaro a chuva forte que b**e contra o vidro blindado do meu escritório, o relógio de pé no canto da sala marca quase meia-noite. Passo os dedos pelo meu queixo, sentindo a barba por fazer, enquanto saboreio um gole amargo de uísque envelhecido. A mente de um Dom nunca descansa. Lidar com o submundo exige vigilância constante, especialmente quando os velhos conselheiros do Conselho da Famiglia começam a sufocar o ambiente com exigências antiquadas. O som suave da porta se abrindo quebra o silêncio pesado do cômodo. Nem preciso me virar para saber quem é. Os passos descontraídos e confiantes são inconfundíveis. — Trabalhando até tarde de novo, Matteo? a voz provocante de Klaus ressoa pelo escritório. Ele entra sem pedir licença, vestindo um terno sob medida ligeiramente desalinhado, com os primeiros botões da camisa abertos. — Você vai acabar mofando nessa cadeira, meu irmão. — O império não se governa sozinho, Klaus, respondo, sem mudar minha postura firme diante da janela, apenas girando o copo entre os dedos. Klaus caminha até o bar privativo no canto da sala, serve-se de um copo de bourbon e se senta na borda da minha mesa, com um sorriso debochado nos lábios. — O carregamento do porto já foi totalmente liberado e os homens da zona norte estão devidamente alinhados. Tudo sob controle, diz ele, dando um gole longo na bebida. Em seguida, inclina a cabeça e me encara com diversão no olhar. — Agora, chega de negócios por hoje. Vamos sair. Organizei uma uma noitada VIP no nosso clube no centro. Mulheres bonitas, bebida de primeira e zero preocupações por algumas horas. Você precisa descarregar essa tensão antes que a sua cara feia assuste nossos próprios soldados. Respiro fundo e me viro devagar para encará-lo. O olhar de Klaus é leve, mas o meu permanece sério, gélido e imperturbável. Coloco o copo de uísque sobre a mesa com um baque seco que ecoa por todo o ambiente. — Agradeço a intenção, Klaus, mas você não deveria estar pensando em noitadas e futilidades esta noite, digo com a voz pausada e dominadora. O sorriso no rosto do meu irmão diminui instantaneamente, substituído por uma expressão de desconfiança. — Do que você está falando, Dom? Aproximo-me da mesa, apoiando as duas mãos sobre a madeira polida e me inclinando ligeiramente na direção dele, prendendo seu olhar no meu. — O Conselho esteve aqui hoje à tarde. Eles estão impacientes, cobrando sucessão, herdeiros e estabilidade para a Famiglia, declaro, com o tom firme. — Eles estão cobrando casamento para nós dois. E decidi que vou começar por você. Vou arrumar uma noiva para você muito em breve, Klaus. O olhar de choque no rosto do meu subchefe é imediato, e o silêncio que se segue é mais pesado do que qualquer sentença de morte que já decretei nesta sala.A visão da lateral do carro contra o poste e do sangue escorrendo pelos cabelos loiros de Lia era uma imagem que queimava na minha cabeça toda vez que eu piscava. Naquela noite, quando o carro nos atingiu, o mundo parou por alguns segundos. A sensação devastadora de impotência — de ver o corpo frágil da minha mulher desacordado nos meus braços — fez um abismo de escuridão se abrir no meu peito. Eu teria queimado a cidade inteira se ela não tivesse aberto aqueles olhos verdes.Ver o curativo delicado e os três pontos na têmpora dela todos os dias era um lembrete constante de que a fúria cega não resolveria essa guerra. Eu não podia agir por impulso. Os Rossi e aquele verme do Dário queriam exatamente isso: que o Dom da família Santini perdesse o controle e atacasse sem estratégia.Entrei no meu escritório no térreo da mansão, fechando a porta de madeira pesada. Klaus já me esperava, em pé diante da grande mesa de mogno, com mapas de rotas e relatórios financeiros espalhados sobre o tam
A chuva fina que começou a cair na saída do jantar cobria o vidro fumê do SUV blindado com vários pingos de água. O ambiente dentro do veículo era quente e silencioso. Matteo mantinha uma das mãos firmemente entrelaçada à minha sobre o banco de couro, enquanto a outra repousava no seu joelho.— Você esteve perfeita hoje — murmurou ele, a voz grave cortando o som suave do motor. — Não sobrou um único conselheiro naquele salão sem saber quem é a Senhora Santini.Sorri, inclinando a cabeça para encostá-la em seu ombro.— Eu só fiz o que você me pediu... mantive a cabeça erguida.O momento de paz foi destruído em uma fração de segundo.O som agudo de pneus cantando no asfalto molhado ecoou pela avenida deserta. Antes que nosso motorista pudesse reagir ou que os seguranças do carro de apoio gritassem pelo rádio, um carro desgovernado surgiu do cruzamento e atingiu a lateral traseira do nosso veículo com um impacto brutal.O estalo do metal retorcido e o estilhaçar dos vidros ressoaram como
A notícia de que faríamos nossa primeira aparição oficial após a crise com a família Rossi chegou na manhã de quinta-feira. Matteo me explicou com clareza: o Conselho da Famiglia organizaria um jantar formal de negócios no salão nobre do Hotel Santini, reunindo todos os capos, aliados e figuras de poder do submundo. Era um movimento estratégico para demonstrar força, estabilidade e alinhar a hierarquia do império.A ideia de retornar àquele ambiente rodeado por homens perigosos e olhares julgadores costumava fazer meu estômago se contorcer em nós de pavor. No entanto, enquanto eu terminava de me arrumar diante do espelho da suíte, a sensação dentro do meu peito era diferente.Eu trajava um vestido longo de veludo verde, de corte reto e elegante, com um decote discreto que valorizava meu colo. Meus cabelos loiros estavam presos em um coque sofisticado, deixando minha postura ereta em evidência.A porta do closet se abriu e Matteo passou por ela, vestindo um smoking preto sob medida que
A bolha de paz e do nosso mundo na Costa Amalfitana dissipou-se no exato segundo em que o helicóptero pousou de volta no heliponto da mansão Santini. A brisa quente do mar e o som calmo das ondas deram lugar ao cheiro de chumbo, ao ronco dos motores dos carros blindados e à atmosfera densa e gélida que cercava a vida do meu marido.Assim que os motores da aeronave desligaram, Klaus já nos aguardava no pátio. O semblante do meu cunhado, quase sempre marcado por um deboche descontraído, estava rijo e tenso.— Que bom que chegaram — disse Klaus, indo direto ao ponto enquanto caminhávamos para dentro da propriedade. — A família Rossi aproveitou os dias da sua ausência para testar os limites do território sul. Invadiram dois galpões de carga na madrugada e tentaram coagir um dos nossos capos locais. O Conselho está reunido na sala de guerra esperando por você.O ar ao redor de Matteo mudou instantaneamente. A postura relaxada e o olhar caloroso que ele mantivera para mim durante toda a lua
A noite caiu sobre a Costa Amalfitana, trazendo uma brisa fresca que vinha do mar e balançava suavemente as cortinas de linho do terraço. A mesa para dois foi posta ao ar livre, iluminada apenas pelas chamas de pequenas velas e pelas luzes distantes dos barcos no horizonte.Lia estava sentada à minha frente, vestindo um vestido de seda verde-esmeralda que destacava a curva dos seus ombros e a doçura dos seus olhos. Não havia pressa. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, o peso do meu império parecia ter ficado do outro lado do oceano.Sirvo um pouco de vinho na taça dela e acomodo-me na cadeira, apreciando o jeito como ela segurava o talher com delicadeza, mastigando devagar sem fazer barulho algum.— Você quase não tocou na sobremesa — comentei, mantendo o tom calmo. — Se quiser qualquer outra coisa, mandarei os chefs prepararem agora mesmo. Você é a Senhora Santini, Lia. Basta pedir.Lia ergueu os olhos, um sorriso discreto e acanhado surgindo em seus lábios vermelhos.— Está
O som barulhento das hélices do helicóptero privado era o único ruído que cortava o céu azul-anil. Eu olhava pela janela, pasma com a imensidão da paisagem que se desdobrava lá embaixo. Deixáramos a cidade cinzenta para trás, substituída por tons dramáticas que despencavam sobre um mar de águas cristalinas na Costa Amalfitana.Sentado ao meu lado, Matteo mantinha sua mão grande sobre a minha coxa, o olhar atento em cada reação do meu rosto. Pela primeira vez desde que o conheci, ele não trajava um terno rígido. Usava uma camisa social branca leve, de mangas dobradas até os cotovelos, e um par de óculos escuros que escondiam a firmeza de seus olhos cinzentos.— Gostou da vista? — perguntou ele, a voz grave sobressaindo-se ao abafado do fone de comunicação.— É... lindo, Matteo — murmurei, incaz de tirar os olhos do horizonte. — Eu nunca vi o mar de perto...Matteo franziu levemente o cenho, surpreso pela minha confissão, mas logo seu olhar suavizou.— Pois agora ele é todo seu durante







