Share

Capítulo 02

Author: Dzel
last update publish date: 2026-09-01 18:18:13

A dor que não é vista é sempre a que mais queima por dentro.

Existem dias em que a luz do sol nem sequer parece capaz de atravessar a sujeira e a poeira das janelas desta casa humilde. Aos dezenove anos, aprendi a medir o tempo não por horas ou dias, mas pelos intervalos de silêncio antes da próxima tempestade. Vivo em constante estado de alerta, como um animal encurralado que sabe que qualquer movimento errado pode ser fatal. Para mim, a liberdade nunca foi uma opção; sobrevivência é a única palavra que conheço.

A minha infância acabou de forma trágica e silenciosa nove anos atrás. Eu tinha apenas dez anos quando minha mãe fechou os olhos para sempre, sucumbindo a uma depressão profunda e devastadora que devorou cada resquício de vida que ela possuía. Mas a verdade que ninguém se atreve a dizer em voz alta é que a tristeza não foi a única coisa que a matou. O verdadeiro carrasco da minha mãe morava debaixo do mesmo teto.

Antes de o corpo dela desistir de vez, lembro-me das noites intermináveis em que eu me encolhia debaixo do cobertor, cobrindo os ouvidos com as mãos trêmulas para não escutar o som das agressões. Meu pai, Dário Machini, batia nela praticamente todos os dias. Eram gritos, xingamentos violentos e o som seco de violência que ecoava pelas paredes finas da casa. Minha mãe foi murchando aos poucos, perdendo o brilho nos olhos e a vontade de respirar, até que a escuridão finalmente a levou. Naquele dia, fiquei completamente sozinha no inferno.

Desde então, a sombra do meu pai caiu inteiramente sobre os meus ombros.

Para tentar não virar o próximo alvo da fúria irascível dele, transformei-me na serva perfeita. Eu me tornei uma escrava dentro da minha própria casa. Evito a todo custo deixar qualquer tarefa pendente ou qualquer objeto fora do lugar. Acordo antes do amanhecer, varro cada cômodo, esfrego o chão até que minhas mãos fiquem vermelhas e em carne viva, lavo pilhas de roupas e preparo as refeições no horário exato. Aprendi a ser invisível, a caminhar sem fazer barulho e a responder apenas quando sou solicitada.

Ainda assim, nada do que faço é suficiente. Mesmo me desdobrando para manter tudo impecável e ser a empregada que ele exige, suporto humilhações diárias que estraçalham o pouco que resta da minha autoestima. Para Marco Machini, não sou uma filha; sou um fardo, uma lembrança inútil de uma vida que ele detesta e uma válvula de escape para suas frustrações.

O relógio velharia pendurado na parede da cozinha marca exatamente meio-dia. O suor escorre pela minha testa enquanto termino de arrumar a mesa simples para o almoço. Ajusto os pratos com precisão milimétrica, garantindo que os talheres estejam alinhados e que a comida esteja fumegando. Meu coração martela contra as costelas a cada segundo que passa. O medo é um companheiro constante, uma náusea fria que nunca abandona meu estômago.

O som pesado da porta da frente sendo destrancada faz todo o meu corpo se enrijecer. Passos desajeitados e arrastados ecoam pelo corredor.

Ele chegou.

Tento respirar fundo, ajeitando o avental surrado sobre o meu vestido simples. Abaixo o olhar imediatamente, adotando a postura submissa que treinei por anos para me proteger.

Dário entra na sala com o rosto vermelho, os olhos injetados de sangue e o hálito insuportável impregnado de álcool barato e tabaco. Ele j**a o casaco sujo sobre o sofá e caminha a passos largos em direção à cozinha. Seu olhar corre por todo o ambiente, procurando desesperadamente por qualquer falha mínima que possa usar como pretexto para despejar sua raiva.

— O almoço está pronto, pai — murmuro com a voz baixa, tímida, sem ousar encará-lo diretamente.

Ele se aproxima da mesa e puxa a cadeira com força, fazendo um ruído estridente contra o chão de piso queimado. Marco senta-se e olha para o prato de comida diante de si. Para qualquer pessoa normal, seria uma refeição quente e feita com dedicação. Para ele, é apenas mais uma oportunidade de me diminuir.

Com um gesto brusco, ele empurra o prato para longe, fazendo o molho espirrar sobre a toalha limpa que passei a manhã inteira lavando.

— O que é essa porcaria? — cuspiu ele, a voz carregada de nojo e desprezo. — Você é completamente inútil, garota! Nem para fazer a porra de uma comida decente você serve!

— Me... desculpe, pai... Se você quiser, eu posso fazer outra coisa rápido... — gaguejo, sentindo as lágrimas quentes queimarem a parte de trás dos meus olhos castanhos, mas lutando com todas as forças para não deixá-las cair. Chorar na frente dele só piora as coisas.

— Calada! — esbraveja ele, dando um soco forte na mesa que faz os copos de vidro tremerem. — Olha para você! Uma imprestável, feia e sem valor nenhum. Sua mãe era outra inútil que só me dava desgosto, e você é a cópia exata dela. Um estorvo que eu sou obrigado a sustentar!

Cada palavra dele é como um golpe físico, cortando a minha pele e esmagando minha alma. Fico parada no canto da cozinha, encolhendo os ombros, abraçando o próprio corpo numa tentativa desesperada de me proteger verbalmente daquele veneno.

— Você devia me agradecer todos os dias por ter um teto sobre a sua cabeça, sua parasita — continua ele, levantando-se da cadeira e apontando o dedo na minha direção. — Você não vale nada, Lia. Nada!

Fico ali, imóvel, ouvindo em silêncio enquanto ele continua a me xingar e a praguejar contra o mundo, sem imaginar que, no fundo dos negócios obscuros do meu pai, o meu destino já está sendo traçado e que a minha vida miserável está prestes a mudar drasticamente para sempre.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 24

    A visão da lateral do carro contra o poste e do sangue escorrendo pelos cabelos loiros de Lia era uma imagem que queimava na minha cabeça toda vez que eu piscava. Naquela noite, quando o carro nos atingiu, o mundo parou por alguns segundos. A sensação devastadora de impotência — de ver o corpo frágil da minha mulher desacordado nos meus braços — fez um abismo de escuridão se abrir no meu peito. Eu teria queimado a cidade inteira se ela não tivesse aberto aqueles olhos verdes.Ver o curativo delicado e os três pontos na têmpora dela todos os dias era um lembrete constante de que a fúria cega não resolveria essa guerra. Eu não podia agir por impulso. Os Rossi e aquele verme do Dário queriam exatamente isso: que o Dom da família Santini perdesse o controle e atacasse sem estratégia.Entrei no meu escritório no térreo da mansão, fechando a porta de madeira pesada. Klaus já me esperava, em pé diante da grande mesa de mogno, com mapas de rotas e relatórios financeiros espalhados sobre o tam

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 23

    A chuva fina que começou a cair na saída do jantar cobria o vidro fumê do SUV blindado com vários pingos de água. O ambiente dentro do veículo era quente e silencioso. Matteo mantinha uma das mãos firmemente entrelaçada à minha sobre o banco de couro, enquanto a outra repousava no seu joelho.— Você esteve perfeita hoje — murmurou ele, a voz grave cortando o som suave do motor. — Não sobrou um único conselheiro naquele salão sem saber quem é a Senhora Santini.Sorri, inclinando a cabeça para encostá-la em seu ombro.— Eu só fiz o que você me pediu... mantive a cabeça erguida.O momento de paz foi destruído em uma fração de segundo.O som agudo de pneus cantando no asfalto molhado ecoou pela avenida deserta. Antes que nosso motorista pudesse reagir ou que os seguranças do carro de apoio gritassem pelo rádio, um carro desgovernado surgiu do cruzamento e atingiu a lateral traseira do nosso veículo com um impacto brutal.O estalo do metal retorcido e o estilhaçar dos vidros ressoaram como

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 22

    A notícia de que faríamos nossa primeira aparição oficial após a crise com a família Rossi chegou na manhã de quinta-feira. Matteo me explicou com clareza: o Conselho da Famiglia organizaria um jantar formal de negócios no salão nobre do Hotel Santini, reunindo todos os capos, aliados e figuras de poder do submundo. Era um movimento estratégico para demonstrar força, estabilidade e alinhar a hierarquia do império.A ideia de retornar àquele ambiente rodeado por homens perigosos e olhares julgadores costumava fazer meu estômago se contorcer em nós de pavor. No entanto, enquanto eu terminava de me arrumar diante do espelho da suíte, a sensação dentro do meu peito era diferente.Eu trajava um vestido longo de veludo verde, de corte reto e elegante, com um decote discreto que valorizava meu colo. Meus cabelos loiros estavam presos em um coque sofisticado, deixando minha postura ereta em evidência.A porta do closet se abriu e Matteo passou por ela, vestindo um smoking preto sob medida que

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 21

    A bolha de paz e do nosso mundo na Costa Amalfitana dissipou-se no exato segundo em que o helicóptero pousou de volta no heliponto da mansão Santini. A brisa quente do mar e o som calmo das ondas deram lugar ao cheiro de chumbo, ao ronco dos motores dos carros blindados e à atmosfera densa e gélida que cercava a vida do meu marido.Assim que os motores da aeronave desligaram, Klaus já nos aguardava no pátio. O semblante do meu cunhado, quase sempre marcado por um deboche descontraído, estava rijo e tenso.— Que bom que chegaram — disse Klaus, indo direto ao ponto enquanto caminhávamos para dentro da propriedade. — A família Rossi aproveitou os dias da sua ausência para testar os limites do território sul. Invadiram dois galpões de carga na madrugada e tentaram coagir um dos nossos capos locais. O Conselho está reunido na sala de guerra esperando por você.O ar ao redor de Matteo mudou instantaneamente. A postura relaxada e o olhar caloroso que ele mantivera para mim durante toda a lua

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 20

    A noite caiu sobre a Costa Amalfitana, trazendo uma brisa fresca que vinha do mar e balançava suavemente as cortinas de linho do terraço. A mesa para dois foi posta ao ar livre, iluminada apenas pelas chamas de pequenas velas e pelas luzes distantes dos barcos no horizonte.Lia estava sentada à minha frente, vestindo um vestido de seda verde-esmeralda que destacava a curva dos seus ombros e a doçura dos seus olhos. Não havia pressa. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, o peso do meu império parecia ter ficado do outro lado do oceano.Sirvo um pouco de vinho na taça dela e acomodo-me na cadeira, apreciando o jeito como ela segurava o talher com delicadeza, mastigando devagar sem fazer barulho algum.— Você quase não tocou na sobremesa — comentei, mantendo o tom calmo. — Se quiser qualquer outra coisa, mandarei os chefs prepararem agora mesmo. Você é a Senhora Santini, Lia. Basta pedir.Lia ergueu os olhos, um sorriso discreto e acanhado surgindo em seus lábios vermelhos.— Está

  • Meu mafioso obsessivo    Capítulo 19

    O som barulhento das hélices do helicóptero privado era o único ruído que cortava o céu azul-anil. Eu olhava pela janela, pasma com a imensidão da paisagem que se desdobrava lá embaixo. Deixáramos a cidade cinzenta para trás, substituída por tons dramáticas que despencavam sobre um mar de águas cristalinas na Costa Amalfitana.Sentado ao meu lado, Matteo mantinha sua mão grande sobre a minha coxa, o olhar atento em cada reação do meu rosto. Pela primeira vez desde que o conheci, ele não trajava um terno rígido. Usava uma camisa social branca leve, de mangas dobradas até os cotovelos, e um par de óculos escuros que escondiam a firmeza de seus olhos cinzentos.— Gostou da vista? — perguntou ele, a voz grave sobressaindo-se ao abafado do fone de comunicação.— É... lindo, Matteo — murmurei, incaz de tirar os olhos do horizonte. — Eu nunca vi o mar de perto...Matteo franziu levemente o cenho, surpreso pela minha confissão, mas logo seu olhar suavizou.— Pois agora ele é todo seu durante

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status