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4 - Você que manda

Author: Aya Lins
last update publish date: 2026-06-11 23:45:58

No dia seguinte, o sol mal tinha atravessado as janelas da fazenda e eu já estava de pé.

Se bem me lembrava, a rotina na roça começava muito cedo.

E eu precisava começar antes ainda, porque uma certa visita inconveniente estava prestes a aparecer.

E eu tinha que garantir que não fosse antes de mim.

Atravessei o corredor quase correndo, do mesmo jeito que fazia quando era criança, desviando por instinto dos móveis que continuavam exatamente nos mesmos lugares.

Pra minha alegria, ao chegar à cozinha, não havia ninguém além de dona Rute e seu maravilhoso pão caseiro saindo do forno.

Ah, aquele cheiro...

Me sentei à mesa, e ela não perdeu tempo.

— Desculpa por ontem, menina. Não deu tempo nem de você me contar as novidades da cidade.

— Ah, eu nem tenho tanta novidade assim pra contar... Foram só oito anos fora — brinquei, pegando uma xícara e fazendo cara de paisagem.

— E os namoradinhos? — Dona Rute disparou, indo direto ao ponto.

Eu sabia que aquela pergunta viria mais cedo ou mais tarde.

— Não tive sorte, Dona Rute — escondi o sorriso atrás da xícara de café. — Tanto que voltei.

— Conta essa história direito — ela me olhou com aquela cara de quem viu uma criança aprontar. — Prometo não contar para ninguém.

Nos minutos seguintes, entre um pedaço de pão e outro, contei algumas histórias da faculdade, das festas, dos romances que mal chegaram a começar e das decepções que pareciam fazer parte obrigatória do pacote universitário.

Dona Rute ria tanto que precisou enxugar os olhos duas vezes.

Foi justamente no meio de uma dessas gargalhadas que meu pai apareceu na porta.

— A conversa está animada por aqui, hein?

Olhei para ele, incrédula.

O semblante estava infinitamente melhor do que no dia anterior.

As olheiras tinham suavizado, a pele parecia menos pálida e ele caminhava com uma firmeza surpreendente para quem quase precisou ser carregado no colo na noite passada.

— O senhor parece bem melhor que ontem... — falei, enquanto arrastava uma cadeira para que ele se sentasse ao meu lado.

— Sim, estou me sentindo ótimo. Acho que já até consigo encarar um café da manhã decente.

Ele sorriu.

Um sorriso cansado, mas sincero.

Dona Rute, no mesmo instante, trouxe um prato com mandioca cozida saindo fumaça e empurrou na direção dele.

— Pois faça o favor de comer tudo. Você está muito magro para um dono de fazenda, Maurício.

Fiquei observando meu pai comer, tranquilo, enquanto um pensamento sombrio e incômodo começava a tomar conta da minha cabeça.

Dizem que pessoas muito doentes costumam apresentar uma melhora repentina antes do pior acontecer... Desejei, do fundo da minha alma, que não fosse o caso.

Tentei afastar esse medo, mas outra pulga atrás da orelha começou a coçar.

Por que ele não melhorava antes? Será que era o lote do remédio?

Não faria sentido, a Verona cuidava disso há tempos, se fosse problema de lote seria algo recente.

Será que ele não estava tomando os comprimidos no horário certo?

Uma coisa era certa: nos próximos dias, eu mesma controlaria cada miligrama e cada ponteiro do relógio. Se ele continuasse melhorando, significava que tinha caroço nesse angu.

E eu ia descobrir o que era.

— Quando o Daniel chegar, lembra de ir com ele até a baia dos cavalos — a voz do meu pai cortou o fio dos meus pensamentos. — Quero que você veja como os animais estão.

— Pai, eu preciso mesmo desse cara do meu lado? — Bufei, cruzando os braços. — Eu não estudei esses anos todos à toa. Sei me virar.

— Isa... — Meu pai me olhou bem no fundo dos olhos, com uma seriedade mansa. — Ele conhece essas terras como a palma da mão. Vai ser de grande ajuda para você se situar.

— E isso não deveria te deixar preocupado? — O tom da minha voz subiu, carregado de indignação.

Como ele podia confiar a propriedade a um completo estranho daquele jeito?

— Minha filha, você fala isso porque acabou de conhecê-lo. Eu confio no Daniel de olhos fechados.

— Você é a última pessoa no mundo que eu esperava ver defendendo um peão, pai — resmunguei, enfiando um pedaço generoso de pão na boca só para mantê-la ocupada e não falar mais do que devia.

Meu pai trocou um olhar silencioso com dona Rute.

Parecia que os dois estavam trocando pensamentos por Wi-Fi, porque se viraram para mim e falaram exatamente ao mesmo tempo:

— Isso é por causa da sua mãe, não é?

O pão entalou na minha garganta na mesma hora.

Precisei dar dois t***s no peito e fazer um esforço enorme para conseguir respirar de novo.

Quando o ar finalmente voltou, a barreira do meu autocontrole desmoronou.

— Eles são todos iguais! — disparei, com a voz cortante. — Só ficam esperando o momento certo de passar a perna em quem os ajudou. Não acredito que vocês ainda têm coragem de defender essa raça.

Antes que meu pai pudesse responder, a porta da cozinha se abriu com o exato mesmo estrondo do dia anterior.

Acho que vou precisar providenciar um amortecedor para aquela porta.

Daniel Fontana cruzou o batente com aquela maldita postura de quem era o dono do mundo.

— Bom dia! — ele falou, esbanjando uma animação que quebrou o silêncio sepulcral que tinha se instalado no ambiente.

— Bom dia, menino — Dona Rute respondeu na hora, limpando as mãos no avental e se virando com o sorriso de quem já estava acostumada àquela rotina.

Ele foi até ela e se curvou todo para conseguir abraçar a senhorinha de pouco mais de um metro e meio. Deu um beijo estalado nos cabelos brancos dela e a apertou pela cintura com um carinho genuíno.

Apertei os olhos, sentindo o sarcasmo cutucar minha língua.

— O que o Tonho pensa dessa intimidade toda, Dona Rute? — perguntei, com um sorriso de puro sarcasmo, vai que o peão acha que eu estou com inveja.

— O Tonho sabe que esse menino não dá conta de mim — ela rebateu, rindo.

— E é a mais pura verdade — Daniel a soltou, medindo a idosa de cima a baixo com diversão. — Essa mulher aqui é muita areia para o meu caminhão.

Ele deu passos lentos até a mesa, cumprimentou meu pai com um aperto de mão firme e, quando chegou a minha vez, apenas me dedicou um aceno de cabeça econômico.

— Por falar em veículos... — ele começou, esticando aquele braço musculoso e tatuado para roubar um pedaço de mandioca direto do prato do meu pai. — Acho que você precisa dar uma olhada no trator da fazenda.

— Eu não sou mecânica — disparei, voltando a focar no meu prato.

— Não precisa ser. Só preciso que você avalie se ele ainda dá conta do tranco do trabalho ou o que vamos precisar fazer se ele não der — ele me encarou, e o canto daquela boca desenhada se curvou no sorrisinho mais sarcástico que eu já tinha visto.

Eu sabia que vinha provocação.

— Afinal de contas, você é quem trabalha mais com o cérebro do que com as mãos, não é?

Abusado. Cafajeste.

Usando minhas próprias armas contra mim?

Engoli seco, percebendo que colocar aquele peão no devido lugar ia me dar muito mais trabalho do que eu tinha planejado.

— Claro — empurrei a cadeira e fiquei de pé, encarando ele de cima. — Podemos fazer isso agora?

— Eu ainda não terminei o meu café — ele respondeu, mastigando com uma calma que me dava nos nervos.

— Então chegue mais cedo amanhã. Bora, antes que eu decida ir sozinha e te deixe para trás.

Daniel desviou os olhos para o meu pai, que apenas assistia à cena segurando o riso diante da minha postura defensiva.

O peão se levantou sem pressa nenhuma, ajeitou o chapéu de caubói na cabeça e me encarou por baixo da aba, os olhos castanhos brilhando com um desafio puro.

— Você que manda, chefe.

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