Masuk~ { POV Daniel } ~
Eu já tinha lidado com boi bravo, cavalo xucro e tempestade que isolava a fazenda por dias, mas nada disso me preparou para o furacão de menos que um metro e setenta que tinha acabado de passar pela porta da cozinha do Seu Maurício.
Ajeitei o chapéu na cabeça e apertei o passo para acompanhar aquele pingo de gente, que marchava pelo pátio de terra batida como se estivesse desfilando em uma passarela de asfalto na cidade grande.
Ela usava um par de botas que parecia novo demais, claramente comprado de última hora, e tentava manter a postura firme enquanto o salto afundava levemente na lama fresca da manhã.
Ela achava que estava disfarçando, mas eu conseguia ver o esforço.
E, confesso, era divertido demais assistir.
Caminhamos até a caminhonete, e depois dirigi até o galpão em completo silêncio.
Ela ficou o caminho todo olhando pela janela, e provavelmente devia estar pensando em setenta formas diferentes de se livrar de mim.E eu estava pensando em quantas vezes poderia chamar ela de Dorinha antes que ela tentasse me bater.
Pela cara dela, com toda certeza não seriam muitas.
Quando entramos no galpão principal, o cheiro de óleo e a poeira antiga nos recebeu.O sol entrava por pequenos buracos no telhado, que demonstravam que aquele era mais um dos muitos pontos da fazenda que não recebiam manutenção adequada há algum tempo.
Parei em frente ao velho trator da fazenda, um modelo antigo que já tinha visto dias melhores, e dei duas batidas leves na lataria desgastada.
Não dava pra confiar que ele aguentaria mais do que isso.
Aquela máquina era o coração da colheita de laranjas deles, mas acho que esse coração estava a ponto de infartar.
— Bom, doutora, o negócio é o seguinte — comecei, tirando o chapéu e ajeitando o cabelo antes de encarar aqueles olhos castanhos desafiadores. — A safra de laranja este ano veio muito maior do que a gente esperava.
Eu vi o semblante dela relaxar um pouco.
— A produção aumentou muito? — perguntou.
Uma frase inteira sem nenhuma acusação.
Acho que estamos avançando.
— Os pomares estão carregados. — continuei a conversa, enquanto ela observava o trator. — A logística vai ter que ser cirúrgica se a gente não quiser perder fruta no pé, e eu to achando que esse guerreiro aqui atrás de mim não vai dar conta de tudo. O que você sugere que a gente faça?Isadora cruzou os braços, medindo o trator com um olhar analítico.
Ela deu uma volta lenta ao redor da máquina, com aquela pose imponente de quem usa o cérebro, e depois parou bem na minha frente, sustentando o olhar com uma segurança que quase me fez sorrir.
— Se a produção está tão grande assim, acho que não compensa remendar essa lata velha — ela disparou, a voz firme. — Vai sair mais caro consertar e mesmo assim perder parte da produção do que investir em outro.
Eu pensei em interromper, mas ela parecia segura demais do que estava falando.
Fiquei curioso pra ouvir.
— Tem modelos novos muito mais eficientes para nosso tipo de terreno. Eu vi vários durante a faculdade. Nós só precisamos pedir um financiamento no banco para comprar a máquina e fazer a colheita. É simples. Como você não pensou nisso?
Encarei aquela expressão confiante por alguns segundos, sentindo um peso incômodo no estômago.
Ela realmente entendia do assunto.
Pena que ainda não entendia da situação.
Estava sendo delicioso provocar a patricinha, mas o que eu tinha para dizer agora não tinha graça nenhuma.
Ia doer.
Soltei o ar devagar e dei um meio passo à frente.
— Dorinha, acho que você vai ter que pensar em outra solução.
Ela fechou a cara imediatamente e levantou a sobrancelha em uma expressão de puro desafio.
— Por quê? Acha que eu não sou capaz de conseguir um financiamento?
— Não — respondi, seco.
— Você está me subestimando, Fontana.
— Não, não estou. É você que ficou muito tempo fora.
— O que você quer dizer com isso? — Os olhos castanhos dela semicerraram, a defensiva ativada na velocidade da luz.
Olhei bem no fundo dos olhos dela, deixando todo o deboche de lado.
— As terras do seu pai estão prestes a ir a leilão.
O silêncio que caiu no galpão foi violento.
Daria para ouvir até uma abelha se ela passasse voando a três quilômetros de distância daqui.
Isadora piscou, a cor sumindo do rosto dela num piscar de olhos, mas o orgulho não ia deixar ela cair nem se ela quisesse.
— O quê? Não... Isso não é possível — ela soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça. — Meu pai sempre foi um excelente administrador dessas terras. Ele não ia deixar isso acontecer.
Em vez de responder, apenas dei as costas para ela e caminhei até a minha caminhonete parada na entrada do galpão.
Não era exatamente assim que eu queria que ela descobrisse mas, já que chegamos nesse assunto, melhor esclarecer as coisas.
Abri a porta do carona e puxei do porta-luvas o envelope pardo que tinha chegado na semana passada.
Voltei para dentro do galpão, parei bem na frente dela e entreguei o documento na sua mão.
— Você pode conferir com seus próprios olhos, eu não tenho porque mentir.
Ela pegou o papel com as mãos trêmulas.
Vi os olhos dela correrem pelas linhas da notificação judicial, fixando-se nos carimbos do banco, nos valores de sete dígitos com juros acumulados e, finalmente, no prazo de execução que estava correndo contra o relógio.
Isadora abaixou o papel devagar.
A vulnerabilidade que vi no rosto dela por um milésimo de segundo sumiu, sendo substituída por uma fúria cega.
E lá vamos nós de novo...
Ela deu um passo na minha direção, me encarando de baixo para cima com os olhos faiscando de puro ódio, e disparou com o dedo na minha cara.
— Isso é culpa sua, não é?
Olhei pra aquele toquinho de amarrar jegue tentando me enfrentar e respirei fundo.
Fudeu.~ { POV Daniel } ~A primeira colheita da Fazenda Ferrari terminou sem grandes problemas, o que, considerando as condições em que aquela propriedade se encontrava, já era motivo suficiente para comemorar.Os trabalhadores conseguiram manter o ritmo, os cavalos responderam bem ao esforço e Túlio passou boa parte do dia conferindo as cargas, anotando números e garantindo que nenhuma laranja desaparecesse misteriosamente entre o talhão e o galpão.Celina, por sua vez, cumpriu a missão de vigiar os animais com a seriedade de quem estava disposta a arrancar as orelhas de qualquer peão que tentasse exigir mais deles do que deveriam dar.E Isadora...Bom, Isadora passou o dia inteiro ao meu lado.Não que isso tivesse alguma importância especial.Eu só estava observando a proprietária da fazenda trabalhar, garantindo que ela não se metesse em alguma encrenca e, de quebra, aproveitando a oportunidade para mostrar que eu era muito mais do que o sujeito convencido que ela insistia em enxergar.U
Pisquei duas vezes, tentando processar a pergunta da Celina.Por um segundo, minha mente deu um nó, até que uma ideia alternativa estalou na minha cabeça e eu soltei um riso soprado.— Espera aí... — ergui as sobrancelhas, encarando minha amiga de cima a baixo. — Você tá me perguntando se eu confio no Túlio ou tá querendo saber se eu o aprovo porque ficou interessada nele?Celina não desvios o olhar.Um sorriso de canto devagar nasceu nos lábios dela, sem a menor sombra de vergonha.— Bom... que ele é bem pegável, isso é inegável — ela deu de ombros, pegando um pedaço de broa da cesta. — É bonito, educado, tem aquele ar de homem sério e compenetrado que dá até um charme a mais.Soltei uma risada involuntária e balancei a cabeça.— Você não presta.— Eu sei.Ela pegou uma fatia de bolo e deu uma mordida antes de voltar a falar.— Mas não foi só por isso que eu perguntei.Ajustei a postura, o tom divertido evaporando quando percebi a gravidade no olhar dela.— Ele conversou comigo sobre
Com o carregamento da carroça completamente cheio de sacos pesados de juta, iniciamos o trajeto de volta em direção ao galpão principal.A carroça estava pesada o suficiente para que os cavalos sentissem a diferença no primeiro trecho da subida, mas Daniel parecia completamente à vontade.Ele vinha ao meu lado com uma postura irritantemente relaxada, uma das mãos firme nas rédeas enquanto a outra descansava sobre a perna.O suor ainda brilhava na testa e nos braços, a camisa escura grudando um pouco nas costas por causa do esforço de minutos antes.E ele ainda tinha a coragem de parecer satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio por me pegar no flagrante encarando cada centímetro do seu corpo.— Está se divertindo? — perguntei, sem conseguir esconder a irritação.Ele virou o rosto na minha direção.— Bastante.— Eu percebi.Um sorriso preguiçoso apareceu no canto da boca dele.— Algum problema, patroa?— Por que você piscou pra mim enquanto trabalhava?— Pisquei? Não me l
~ { POV Isadora } ~Daniel estava me irritando.Muito.Mais do que deveria.E o pior de tudo era que eu sabia exatamente o motivo.Desde que ele tinha segurado a minha mão naquela caminhonete e dito, com aquela voz baixa e séria, que eu podia contar com ele, alguma coisa dentro de mim parecia ter saído do eixo.Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos dele sobre os meus, lembrar do jeito como ele tinha me olhado e, principalmente, da ausência daquela provocação habitual.Ele não estava tentando me conquistar naquele momento.Ele só estava ali.E aquilo era muito mais perigoso.— Para, Isadora — murmurei para mim mesma, enquanto observava o movimento dos trabalhadores começando a se espalhar pelo laranjal.Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar.Não com a fazenda do meu pai à beira da ruína, quem eu achava ser minha mãe rondando a estrada e meu pai só com a Verona no hospital.Eu precisava retomar o controle.Da fazenda, da colheita, da minha cabeça.Principalmente da minha cabe
Acordei antes mesmo do despertador tocar.Fiquei alguns segundos encarando o teto do quarto, ouvindo o silêncio da madrugada se dissolver aos poucos do lado de fora, com os primeiros sons dos animais começando a se espalhar pela propriedade e uma faixa de claridade azulada entrando pela fresta da cortina.Eu deveria estar cansado.Depois de tudo que tinha acontecido no dia anterior, dormir deveria ter sido fácil.Mas minha cabeça não tinha colaborado.A imagem de Isadora parada naquela estrada, chorando dentro do carro, ainda voltava para mim toda vez que eu fechava os olhos.A forma como ela tinha saído correndo e se jogado nos meus braços, sem pensar duas vezes, continuava presa na minha memória de um jeito que eu não sabia muito bem como explicar.Talvez porque, pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela tivesse baixado completamente a guarda comigo.Não existia patroa. Não existia marra. Não existia o orgulho Ferrari.Só existia uma Isadora assustada, precisando de alguém, e e
Quando entrei na sala, Túlio já foi sentando em uma das poltronas, com uma pasta enorme apoiada sobre as pernas e várias folhas espalhadas ao redor, como se tivesse passado as últimas horas montando um quebra-cabeça.Fechei a porta atrás de mim e me joguei na poltrona em frente à dele.— Então? O que você descobriu?Túlio levantou os olhos dos papéis e soltou um suspiro satisfeito.— Cara, o que a veterinária me mostrou hoje é realmente interessante — começou ele, ajeitando as folhas em pilhas organizadas com uma precisão quase cirúrgica.Ergui uma sobrancelha, encostando as costas na poltrona e cruzando os braços, sem perder a chance de cutucar.— Que intimidade toda é essa com a Celina que ela já está te mostrando coisas interessantes?Túlio travou a mão no meio do ar, ajustando a armação dos óculos enquanto a orelha dele ficava visivelmente vermelha.— Não seja idiota, Daniel. Não é nada do que você está pensando.— Ah, mas eu posso estar pensando muitas coisas — provoquei, dando u







