FAZER LOGINO vento de Chicago trazia o cheiro característico do Lago Michigan, mas, dentro do novo e espaçoso apartamento do casal, o clima era de puro aconchego. Um ano se passou desde que deixaram Boston para trás, e a adaptação à nova cidade não poderia ter sido melhor. A rotina era leve, o ar era limpo de fofocas e o futuro finalmente parecia amplo. Sebastian encontrava-se em sua melhor fase. Livre da sombra do sobrenome da família e da política universitária de Boston, ele assumiu a chefia do departamento de Pesquisa Política em uma das instituições mais prestigiadas do país. Era respeitado pelo seu intelecto, amado pelos alunos de pós-graduação e, acima de tudo, trabalhava com leveza. Naquela manhã de sábado, Melissa terminava uma videochamada na cozinha. Sua mãe saíra da clínica de reabilitação há quatro meses. Sóbria, saudável e morando em uma cidadezinha pacata do interior, ela e Mel conversavam com frequência. A relação ainda estava sendo reconstruída passo a passo, mas o perdão
O silêncio do apartamento de Sebastian naquela noite trazia uma paz abençoada. A tempestade das provas revalidadas, as bancas examinadoras e a fofoca maldosa do campus tinham finalmente ficado para trás. A vitória de Melissa fora absoluta, mas o cansaço acumulado de semanas de tensão ainda pesava suavemente sobre seus ombros. A luz baixa dos abajures lançava tons dourados e acolhedores pela sala. Melissa estava sentada no sofá, vestindo uma calça de moletom confortável e uma blusa macia de Sebastian, com as pernas encolhidas e uma caneca de chá quente entre as mãos. Sebastian aproximou-se devagar, sentando-se ao lado dela. Ele tirou a caneca das mãos dela, colocando-a na mesa de centro, e puxou-a para o seu colo, envolvendo-a em um abraço protetor. — Como está a minha namorada brilhante? — perguntou ele, a voz baixa e carinhosa contra o ouvido dela. Mel sorriu, descansando a cabeça no peito dele, ouvindo a batida calma do coração do namorado. — Em paz. Pela primeira vez em
Apesar de a notificação de Clara ter forçado o fórum anônimo a apagar a publicação caluniosa em minutos e colocado Júlia contra a parede, o conselho acadêmico da universidade — pressionado pelo medo de repercussões públicas e tentando se blindar de qualquer acusação de favoritismo — tomou uma decisão burocrática e covarde. Dois dias depois do incidente, Melissa foi convocada à coordenação do curso. A exigência do conselho era clara: para "garantir a lisura do histórico escolar" e encerrar definitivamente qualquer questionamento sobre a conduta do Departamento de Ciências Sociais, Melissa deveria refazer todas as provas e submeter-se a bancas examinadoras especiais de todas as disciplinas que cursara com Sebastian no ano anterior. As provas seriam elaboradas e corrigidas por professores neutros, convidados de outros departamentos. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Sebastian, a fúria dele quase derrubou a porta da reitoria. Clara já estava com a petição inicial pronta para
Duas semanas se passaram. O sol de fevereiro trazia os primeiros sinais tímidos do fim do inverno rigoroso. O campus da universidade estava movimentado com o retorno dos alunos para o início do novo semestre acadêmico. O ar fresco da manhã trazia o cheiro de café expresso das lanchonetes ao redor e o burburinho de jovens caminhando com mochilas nas costas. Como Sebastian havia aberto mão de lecionar na turma de Melissa no semestre anterior — justamente para proteger a reputação acadêmica dela e evitar qualquer conflito de interesses quando assumiram o relacionamento —, Mel agora assistia às aulas de Ciências Sociais com outro corpo docente. Sebastian continuava na universidade, mas lecionando apenas para turmas do mestrado e de períodos avançados em que ela não estava matriculada. Melissa caminhava pelo corredor principal do prédio central. Ela vestia um jeans ajustado, uma blusa creme de gola alta e um casaco bege elegante — sem capuzes gigantescos, sem a necessidade de pas
O ar frio e cortante da noite de Boston nunca pareceu tão puro quanto no momento em que as portas duplas de carvalho da mansão Hale se fecharam atrás do trio. A caminhada pela escadaria de mármore até a alameda de cascalho foi feita com passos firmes. Quando finalmente atingiram a calçada, Clara parou perto do carro de Sebastian, tirou os óculos e soltou um suspiro longo e ruidoso, olhando para o céu estrelado. — Eu passei anos da minha vida achando que aquele teto era o único lugar onde eu podia existir — disse Clara, a voz ligeiramente embargada, mas transbordando uma leveza inédita. Ela olhou para o irmão com os olhos marejados. — Você não tem ideia do alívio que é ver o império do papai ruir diante da verdade. Você foi impecável lá dentro, Sebastian. Sebastian puxou a irmã para um abraço rápido com o braço esquerdo, beijando o topo da cabeça dela. — Você também foi, Clarinha. Obrigado por não soltar a minha mão. Clara enxugou o canto dos olhos com a ponta dos dedos
O peso do silêncio que se seguiu à declaração de Melissa ainda pairava sobre a mesa de mogno quando ela limpou os lábios com o guardanapo de pano com extrema delicadeza. Ela sentia o pulso acelerado, mas a serenidade em seu rosto não vacilou um milímetro. — Com sua licença, Sra. Hale — disse Melissa com voz suave e polida, olhando para Eleanor. — Gostaria de ir ao banheiro. — Claro, querida. É no final do corredor à esquerda — respondeu Eleanor, com uma aprovação sincera no olhar. — Eu mostro o caminho para você — prontificou-se Clara no mesmo instante, empurrando a cadeira de mogno e levantando-se da mesa. As duas caminharam em silêncio pelo corredor suntuoso revestido de painéis de madeira nobre. Assim que dobraram a esquina longe do alcance da sala de jantar, Clara segurou o braço de Melissa delicadamente e deu um sorriso largo, os olhos brilhando de orgulho. — Você foi brilhante, Mel — sussurrou a advogada, com uma empolgação genuína que raramente demonstrava. — Voc







