Home / Romance / Minha Cura / Capítulo 10

Share

Capítulo 10

last update publish date: 2026-01-12 07:42:32

Capítulo 10: O Gosto da Poeira (Miguel)

O som do blindado subindo a ladeira era um trovão rítmico que reverberava no asfalto e nos meus dentes. O cheiro de sabonete de flores da Ágata ainda estava impregnado nas minhas narinas, um fantasma de doçura que parecia ofensivo diante da realidade que me esperava lá fora. Cruzei o pátio da casa de apoio com passos largos, sentindo o peso das botas contra o solo batido. O sol, que minutos antes parecia desenhar luz no chão para ela, agora era apenas um clarão cegante que dificultava a visão do horizonte de zinco e tijolo aparente.

— Posição, MT! — gritei no rádio, enquanto saltava para dentro da picape preta que me esperava na saída da vila. O motor roncou, um animal impaciente.

— Estão forçando a entrada pelo acesso da Pedreira, Pai. O Caveirão tá derrubando tudo, não estão nem desviando das barracas. Os caras estão com sangue nos olhos hoje, vieram para buscar alguém — a voz do MT estalava entre o chiado da interferência e o som de disparos ao fundo.

Eu não respondi. Apenas verifiquei o carregador do fuzil, sentindo o metal frio e oleoso sob meus dedos. Destravei a arma com um clique seco que ecoou na cabine do carro. O ódio que eu sentia agora era uma massa disforme no meu peito. Não era apenas pelos canas, nem pela invasão oportuna. Era de mim mesmo. Por ter baixado a guarda. Por ter deixado uma civil — uma mulher que eu deveria apenas manter viva por uma questão de princípio — chegar perto o suficiente para sentir o ritmo errático do meu pulso. Cada centímetro de pele que havia tocado a dela parecia queimar, uma marca de vulnerabilidade que eu precisava lavar com adrenalina.

Chegamos ao Setor 3 sob uma chuva de balas que transformava o asfalto em estilhaços voadores. O cenário era o inferno em tons de cinza e ocre. O caos era familiar, quase reconfortante em sua brutalidade honesta. Aqui, as regras não tinham nuances ou sussurros: ou você atira, ou morre. Não havia olhares azul-acinzentados que pediam por algo que eu não sabia dar.

— Recua o bonde para o beco da 12! — ordenei, saltando do carro antes mesmo dele parar totalmente. Meus pés atingiram o chão e eu já estava em movimento. — Deixa eles entrarem mais cem metros. Vamos fechar o cerco por trás. Se eles querem guerra, vão ter o cerco.

Eu me joguei atrás de uma mureta de concreto, o impacto enviando uma vibração dolorida pelo meu ombro. Enquanto eu mirava pelo trilho da arma, a imagem da Ágata cambaleando no quarto voltou como um flash indesejado. A imagem dela quase caindo, a fragilidade das suas costelas, o modo como ela se agarrou a mim como se eu fosse o seu único chão. Aquela dependência me apavorava mais do que o blindado que agora dobrava a esquina, cuspindo fogo.

"Foca, porra", xinguei mentalmente, batendo com o punho no próprio peito para expulsar a imagem. "Ela é só um problema. Um problema que você buscou."

Um estalo de fuzil inimigo passou raspando minha orelha, arrancando um pedaço de reboco da parede logo atrás da minha cabeça. O calor da bala serviu como o batismo necessário. O Miguel que sentia o toque macio do cabelo de uma mulher morreu ali mesmo, naquela calçada suja de óleo e sangue seco. Sobrou apenas o Pai, o dono do morro, a máquina de guerra que o sistema havia moldado ao longo de doze anos de sobrevivência.

— Agora! — gritei.

A primeira granada estourou na entrada do beco. O mundo ficou branco por um segundo, coberto de poeira, gritos e o som metálico de estilhaços atingindo as latarias dos carros estacionados. No meio da cortina de fumaça, eu comecei a atirar. O recuo do fuzil no meu ombro era um soco constante, uma dor real que ajudava a apagar a memória do calor do corpo dela. Cada disparo era uma tentativa de silenciar a voz da Ágata na minha cabeça, de apagar o brilho daquele olhar que tinha atravessado a minha armadura.

O combate se estendeu por horas que pareceram séculos. O sol subiu ao seu ápice, cozinhando o morro sob um calor úmido. O suor escorria pelo meu rosto, salgando meus olhos, mas eu não parava. Vi homens meus caírem e vi o inimigo recuar para se reorganizar. O blindado estava travado entre uma barricada de pneus em chamas e o fogo cruzado que vinha das lajes superiores.

Em um momento de trégua relativa, enquanto eu recarregava o pente atrás de um contêiner de lixo, o silêncio momentâneo trouxe o perigo de volta. No vácuo do barulho, o cheiro dela voltou a me assombrar. Era uma tortura psicológica. Eu olhava para minhas mãos, sujas de pólvora e fuligem, e só conseguia pensar em como elas tinham tocado a pele dela com uma delicadeza que eu nem sabia que possuía.

O que aquela mulher estava fazendo comigo? Ela era o caos em forma de calma. Era a ruína fantasiada de cura.

— Pai, eles estão debandando! Recuaram para a base do morro! — MT surgiu ao meu lado, o rosto coberto de fuligem, um sorriso maníaco de quem tinha sobrevivido a mais um dia de expurgo.

— Mantém a guarda alta. Eles voltam. Sempre voltam — respondi, minha voz saindo como um rosnado seco.

Eu me levantei, limpando o sangue de um corte superficial no braço. A vitória no Setor 3 parecia vazia. Eu tinha vencido a batalha externa, mas a guerra dentro do meu peito estava apenas começando. Enquanto eu caminhava de volta para a picape, olhando para o rastro de destruição deixado pela manhã, eu percebi que não importava quantos inimigos eu derrubasse com o fuzil. O verdadeiro perigo estava me esperando em silêncio, deitada em uma cama na casa de apoio, com olhos que viam através de todas as minhas mentiras.

Eu precisava de distância. Precisava de gelo. Mas, ao mesmo tempo, meus pés já me levavam de volta para a direção dela. Se corações são alvos fáceis, o meu estava no centro de uma mira que eu não conseguia desviar.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Minha Cura   Capítulo 20 Livro II FIM

    Capítulo 20: O Trono de Cinzas e Sangue (Final)O cronômetro piscava em um vermelho diabólico: 00:45 segundos.— AGORA! — meu grito cortou o salão.Arthur não hesitou. Ele saltou sobre o receptor, usando sua faca tática para cortar o fio de frequência enquanto Lívia distraía os guardas na galeria com disparos precisos. O bipe agudo do detonador principal parou por um segundo, mas os blocos de C4 ao redor das colunas continuaram a contagem regressiva. O sistema era redundante.— O gatilho principal está morto, mas a explosão das colunas é inevitável! — Arthur rugiu, correndo para desamarrar o Miguel.Lucas não esperou. Ele voou em direção à galeria superior. Matteo tentou sacar uma segunda arma, mas Lucas o atingiu com um tacle que os lançou através do parapeito de madeira. Os dois caíram no andar de baixo, colidindo contra a mesa de pedra ancestral.Eu, Giulia, protegi meu ventre com uma mão e empunhei a pistola com a outra, eliminando o último segurança de Matteo que tentava intervir

  • Minha Cura   Capítulo 19 Livro II

    Capítulo 19: O Labirinto de Pólvora (Lucas / Giulia)O ar dentro do Castello di Ferro era frio e cheirava a mofo e pólvora. Avançamos como sombras, seguindo o mapa que Arthur recuperou. Lucas ia à frente, cada movimento seu era uma promessa de morte. Eu, Giulia, lutava contra uma nova onda de náusea que ameaçava me derrubar. Minhas mãos tremiam levemente, não de medo, mas pelo esforço de manter meu corpo alerta enquanto cada célula minha parecia focada na vida que agora eu sabia que protegia.— Quase lá — Lucas sussurrou, parando diante de uma pesada porta de carvalho reforçada com tiras de ferro. — O sinal do rastreador que Arthur plantou no rádio satelital indica que o Samurai está atrás desta porta.Arthur e Lívia ficaram na retaguarda, cobrindo o corredor. Arthur assentiu para Lucas. Com um movimento coordenado, Lucas chutou a porta, e entramos com as armas em punho.O que vimos congelou o meu sangue.No centro de um salão circular, o Miguel estava amarrado a uma cadeira de ferro.

  • Minha Cura   Capítulo 18 Livro II

    Capítulo 18: O Herdeiro do Caos (Giulia / Lívia)O balanço do barco pesqueiro que nos levava clandestinamente de Nápoles para a costa da Sicília era implacável. O cheiro de óleo diesel e maresia inundava a cabine apertada onde estávamos escondidas. Eu, Giulia, tentei me levantar para verificar os mapas, mas o mundo girou violentamente. Uma náusea súbita e avassaladora me atingiu, e eu mal tive tempo de alcançar o balde antes que meu estômago se revirasse.Senti mãos pequenas e frias afastarem meu cabelo e uma mão suave pousar nas minhas costas.— Respira, Giulia... calma — a voz de Lívia era doce, mas carregada de preocupação. Ela me entregou um pano úmido e um pouco de água. — É o balanço do mar? Você nunca passou mal em barcos antes.Limpei o rosto, sentindo meu coração martelar. Eu estava pálida, e o suor frio cobria minha testa. Olhei para Lívia. A menina que eu resgatei da Rússia parecia ter amadurecido anos em apenas poucos dias.— Não é só o mar, Lívia — sussurrei, sentindo uma

  • Minha Cura   Capítulo 17 Livro II

    Capítulo 17: O Renascido das Cinzas (Arthur / Lucas)O calor era insuportável. As cortinas de veludo da capela, que por séculos ouviram as preces silenciosas da família, agora rugiam em chamas. Eu, Arthur, sentia o gosto de sangue e fumaça na boca. Volkov era um monstro de força bruta. Suas mãos estavam em volta do meu pescoço, pressionando minha traqueia contra o chão de mármore quente, enquanto o teto acima de nós começava a estalar.— Você morre aqui, cachorrinho dos Vincenzo — Volkov rosnou, o rosto desfigurado pelo esforço.Meus pulmões imploravam por ar, mas minha mente só via uma imagem: o rosto de Lívia no ginásio, a forma como ela confiou em mim para protegê-la. Uma fúria cega, algo que eu nunca sentiu antes, explodiu nas minhas veias. Não era apenas instinto de sobrevivência; era o ódio de quem se recusava a deixar Matteo vencer.Encontrei o cabo da minha faca tática presa na bota. Com um movimento curto e desesperado, desferi um golpe lateral. A lâmina rasgou a lateral do p

  • Minha Cura   Capítulo 16 Livro II

    Capítulo 16: O Crepúsculo dos Vincenzo (Lucas / Arthur)O ataque não veio com um aviso ou uma declaração formal. Veio com o som do vidro estilhaçando e o cheiro de gás lacrimogêneo invadindo a sala de jantar da Villa Vincenzo.Eram dez da noite. Estávamos todos reunidos — um raro momento de "família" que Ágata insisti em criar para acalmar os nervos de Lívia após o treino. O jantar ainda estava sobre a mesa, o vinho tinto brilhando sob o lustre de cristal, quando a primeira granada de efeito moral explodiu no pátio externo, transformando o refúgio em um inferno de fumaça e gritos.Eu, Lucas, reagi por puro instinto. Antes que a luz se apagasse totalmente, chutei a mesa de carvalho para o lado, criando uma barricada improvisada.— TODOS NO CHÃO! — rugi, sacando minha arma enquanto a eletricidade da casa era cortada, mergulhando-nos em uma escuridão absoluta, quebrada apenas pelos flashes rítmicos dos disparos que vinham do jardim.Matteo mentiu. Ele não nos deu quarenta e oito horas. E

  • Minha Cura   Capítulo 15 Livro II

    Capítulo 15: O Peso do Aço e o Calor da Pele (Arthur / Lívia) Livro IIO ginásio da Villa Vincenzo, localizado no subsolo fortificado, era um santuário de suor, disciplina e dor. As paredes de concreto aparente eram decoradas com sacos de pancada pesados e tatames que já haviam testemunhado o treinamento exaustivo de gerações de soldados. Para mim, Arthur, aquele lugar era o meu habitat natural. Mas hoje, o ar parecia diferente. Menos carregado de agressividade e mais denso com uma tensão que eu não sabia nomear.Lívia estava de pé no centro do tatame. Ela vestia roupas esportivas pretas que pareciam grandes demais para seu corpo franzino, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo alto que deixava exposta a nuca pálida. Ela parecia uma boneca de porcelana perdida em um campo de minas.— Se você quer sobreviver ao que está por vir, Lívia, precisa parar de olhar para as mãos das pessoas e começar a olhar para os ombros — falei, caminhando ao redor dela como um predador avaliando sua

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status