MasukA expressão de Lucas se alterou.— Iara...isso não pode ser... Isso é...— Como me recusei a abortar, ela contou aos meus pais sobre a gravidez me acusando de coisas horríveis e disse que se nós não fossemos embora, ela nos faria se arrepender, e nos deu um prazo curtíssimo para sair da propriedade.A voz dela começou a tremer e sua garganta trancou. Lucas permaneceu em silêncio, os olhos dele se estreitaram lentamente.— Ela não pode ter feito isso. Não... Isso não pode ser real!Iara riu amargamente.— Ah, Lucas... como eu queria que fosse mais uma mentira.A observação fez o silêncio retornar entre os dois.Por um instante, Iara percebeu que ele estava tentando organizar mentalmente aquelas informações, procurando conciliá-las com a imagem da mãe que conheceu e com as lembranças de uma época que ambos haviam interpretado de maneiras completamente diferentes.Por alguns segundos, apenas observou o rosto dele, tentando compreender como era possível que aquele homem desconhecesse comp
Iara sentiu a garganta apertar.A pergunta despertou uma lembrança tão nítida que, por um instante, o cheiro de terra molhada da rua pareceu desaparecer, substituído pelo perfume delicado das flores que decoravam a sala onde Cora Bitencourt a recebeu naquele dia.A maneira como os funcionários circulavam discretamente pelos corredores, evitando demonstrar qualquer curiosidade diante da presença daquela jovem que jamais seria considerada suficientemente importante para pertencer à família.E, sobretudo, recordava a expressão de Cora, a elegância absoluta, os cabelos cuidadosamente arrumados, o sorriso simulado que não alcançava os olhos.Iara apertou os lábios, sentindo o corpo estremecer.— Não finja que você não sabia que seus pais nos pressionaram para deixar a cidade antes que a sua verdadeira namorada descobrisse o seu casinho comigo.O silêncio entre os dois pareceu se aprofundar, até que ela o viu franzir ainda mais a testa.— Isso não faz sentido algum. Por que eu saberia de al
A chuva continuava desabando sobre San Pedro de Atacama com uma violência quase ensurdecedora, entretanto, nada parecia tão perturbador quanto a expressão do homem diante dela.Lucas Bitencourt permanecia imóvel, com os ombros largos rigidamente alinhados apesar de segurá-la firmemente, a mandíbula contraída, observando-a com uma intensidade que ela conhecia desde a juventude, embora houvesse algo muito mais profundo naquele olhar agora.A arrogância habitual não desaparecera, tampouco a determinação implacável que parecia fazê-lo acreditar que qualquer problema poderia ser resolvido mediante influência, mas havia também uma mágoa tão profunda por trás daqueles olhos azuis que, durante alguns segundos, ela sentiu uma vontade desesperada de simplesmente abraçá-lo.A vontade desapareceu quando ele voltou a falar.— Você continua fazendo exatamente a mesma coisa. — A voz grave atravessou o ruído da tempestade, carregada de um desprezo que a fez estremecer. — Mente, esconde o que lhe conv
Iara sentiu os dedos dele roçarem sua mandíbula, afastando uma mecha de cabelo molhado, grudado sobre seus olhos. O toque provocou uma lembrança tão intensa que precisou prender a respiração.— Olhe para mim.Ela tentou desviar.— Não...não faz isso...— Olhe para mim, Iara.Quando finalmente ergueu os olhos, encontrou uma expressão carregada de desejo e sofrimento, como se ele estivesse lutando contra sentimentos que se recusava a reconhecer.Por um segundo, Iara acreditou que ele simplesmente voltaria a acusá-la, mas Lucas inclinou o rosto e tomou sua boca num beijo abrupto, quase furioso, carregado por toda a frustração que parecia consumi-lo desde o reencontro.A surpresa fez Iara enrijecer imediatamente, não correspondendo ao toque alucinante. Permaneceu imóvel, sentindo a pressão dos lábios dele e a violência emocional daquele contato despertar lembranças que surgiam sem qualquer ordem, misturando o presente doloroso, a primeira vez que transaram feito loucos sobre a mesa dela n
O pedido saiu carregado de uma emoção quase descontrolado, que a surpreendeu.Havia raiva naquela voz.Muita.Mas também existia alguma coisa mais profunda, quase dolorosa, que Iara reconheceu antes que pudesse impedir.Mágoa.Uma mágoa imensa, alimentada durante anos por acontecimentos que nenhum dos dois conseguiu compreender e superar verdadeiramente.Ela sustentou o olhar dele durante alguns segundos.Por um instante, teve vontade de falar... contar sobre a noite em que tudo começou a desmoronar, sobre a humilhação que enfrentou e sobre as palavras que ouviu quando ainda acreditava que o amor entre os dois seria suficiente para enfrentar qualquer oposição.Quis perguntar se Lucas fazia ideia de como foi descobrir que estava grávida justamente quando começava a perder tudo aquilo que considerava importante. Mas as lembranças vieram acompanhadas por um sofrimento tão intenso que seu corpo pareceu rejeitou qualquer tentativa de transformá-las em palavras.Iara sentiu os ombros cedere
A pergunta veio acompanhada de uma frieza tão perturbadora que Iara sentiu os músculos do estômago se contraírem, embora o coração já estivesse a ponto de desfalecer, tamanha velocidade.Ela deveria ter imaginado que isso aconteceria...Desde que observou Noah conversando alegremente com o pai durante o jantar, mencionando Ariel com aquela inocência característica das crianças que ainda não compreendem a complexidade das mentiras inventadas pelos adultos, Iara teve a sensação desagradável de que alguma informação acabaria escapando.O céu de San Pedro de Atacama ficou extraordinariamente de repente, encoberto por nuvens pesadas que haviam surgido do nada, e rapidamente apagou o brilho das estrelas.O vento frio descia pelas ruas estreitas da cidade, levantando pequenas partículas de poeira e movimentando as folhas das plantas que cresciam junto aos muros da residência, enquanto um trovão uma eminente tormenta.Iara mal percebeu, porque estava tomada pela devastação que a tempestade no







