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05

Author: Autora NB
last update publish date: 2026-10-17 07:43:59

Margareth "Meg"

Acordei no dia seguinte com Sarah me sacudindo como se a casa estivesse pegando fogo.

- Meg! Acorda!

Resmunguei, puxando o cobertor por cima da cabeça.

- Sarah, pelo amor de Deus, me deixa dormir. Se o mundo acabar, você me avisa depois.

- Meg, eu estou falando sério!

Havia algo diferente na voz dela. Não era a animação habitual, muito menos aquela impaciência que demonstrava quando queria me arrastar para alguma de suas ideias malucas.

Abri os olhos lentamente.

A expressão no rosto da minha melhor amiga fez meu sono desaparecer quase imediatamente.

Ela estava pálida, com os olhos arregalados e o celular apertado entre os dedos.

- O que aconteceu?

Sarah engoliu em seco.

- Vem comigo. Vem ver. Seu pai está na TV.

Aquelas palavras foram como um balde de água fria.

Sentei-me tão depressa que quase bati a cabeça na dela.

- Como assim, meu pai está na TV?

- Meg, só vem!

Levantei da cama e saí correndo escada abaixo, sem nem me preocupar em ajeitar os cabelos ou trocar o pijama. Meu coração já estava acelerado antes mesmo de chegar à sala.

Quando entrei, encontrei a televisão ligada em um canal de notícias.

Felipe estava em pé diante do aparelho, com os braços cruzados e a mandíbula tão contraída que parecia prestes a quebrar os próprios dentes. Ao lado dele, Kaio, o Samurai, mexia no celular, falando baixinho com alguém.

Os dois tinham expressões sérias.

Sérias demais.

Meu olhar foi direto para a televisão.

E, naquele instante, senti meu mundo desmoronar pela segunda vez.

Na tela, aparecia uma fotografia do meu pai.

Sérgio Romano.

O homem que havia me ensinado a andar de bicicleta, que me levava para tomar sorvete quando eu era criança e que, apesar de todas as nossas discussões, eu sempre acreditei que faria qualquer coisa para proteger a família.

Abaixo de sua fotografia, uma faixa vermelha anunciava uma notícia que eu jamais imaginei ver.

EMPRESÁRIO SÉRGIO ROMANO É CONSIDERADO FORAGIDO.

Meu corpo inteiro gelou.

- Não... - murmurei.

A jornalista continuava falando, com aquela voz profissional e impessoal que parecia tornar tudo ainda mais cruel.

- O empresário Sérgio Romano está foragido após a expedição de um mandado de prisão. Segundo as autoridades, ele é investigado por um esquema de fraude financeira, corrupção e lavagem de dinheiro. A investigação também apura possíveis ligações com o tráfico de drogas e outras atividades criminosas. Até o momento, a defesa não foi localizada para comentar as acusações...

As palavras se misturaram.

Fraude.

Corrupção.

Tráfico de drogas.

Foragido.

Meu pai.

Não.

Não podia ser verdade.

Apertei os dedos contra a boca, sentindo as pernas perderem a força.

Eu sabia que ele havia perdido dinheiro. Sabia que nossa família estava enfrentando uma situação financeira complicada. Mas aquilo?

Meu pai estava sendo acusado de crimes?

Meu pai estava foragido?

Como ele havia conseguido esconder tudo isso de nós?

- Meu Deus... - sussurrei, balançando a cabeça. - Meu Deus, meu Deus, meu Deus...

As lágrimas começaram a escorrer antes que eu pudesse contê-las.

- O que eu vou fazer? E a minha mãe? Onde ela está?

Minha voz saiu desesperada.

Felipe se aproximou imediatamente, segurando meus braços antes que eu cambaleasse.

- Calma, Meg.

- Como você quer que eu tenha calma? É o meu pai que está na televisão! Estão chamando meu pai de criminoso!

- Eu sei.

- Não, você não sabe! - rebati, afastando-me um pouco. - Você não faz ideia do que está acontecendo comigo!

Ele não respondeu à provocação. Apenas respirou fundo e falou com firmeza:

- Já mandei o Samurai buscar sua mãe. Ela está segura.

Pisquei, confusa.

- Você mandou quem?

- O Kaio. Ele foi buscar sua mãe.

Olhei para o homem que estava perto da porta. Ele ergueu a cabeça, fez um pequeno gesto tranquilizador e voltou a prestar atenção ao celular.

- Como você sabe onde ela está?

Felipe passou a mão pelo rosto.

- Porque ela é cria da comunidade. A casa dela continua no mesmo lugar de sempre.

Franzi a testa.

Aquelas palavras não faziam sentido.

- Cria da comunidade? Casa? Como assim, Felipe?

Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo por onde começar.

- Sua mãe nasceu e cresceu aqui, Meg.

Senti meu coração tropeçar dentro do peito.

- O quê?

- Quando os pais dela morreram, ela ficou sozinha. Trabalhou como babá, trabalhou em lanchonete, estudou de madrugada, passou em uma universidade federal e conseguiu um intercâmbio. Foi durante esse período que conheceu seu pai. Depois, engravidou de você, os dois se casaram e construíram a vida que você conhece.

Fiquei olhando para ele sem conseguir dizer uma palavra.

Minha mãe?

A mulher que organizava jantares beneficentes, frequentava eventos elegantes e tinha um closet maior do que o quarto de muita gente?

A mesma mulher que sempre me ensinou a importância da educação, da independência e do trabalho?

Ela tinha crescido naquele lugar?

Tinha trabalhado em uma lanchonete?

Tinha passado noites estudando para conseguir entrar em uma universidade?

Eu sabia que minha mãe tinha estudado muito, mas nunca imaginei que sua história começasse daquela maneira.

- Como você sabe de tudo isso? - perguntei, com a voz trêmula. - Como você sabe tanto sobre a vida da minha mãe?

Felipe abriu a boca, mas não teve tempo de responder.

- Porque ele é meu irmão.

A voz veio da entrada.

Virei-me tão depressa que senti o pescoço doer.

Minha mãe estava parada junto à porta, com os olhos vermelhos e o rosto cansado. Ao lado dela, Samurai carregava algumas bolsas.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Eu olhei para minha mãe.

Depois para Felipe.

Depois novamente para minha mãe.

- Vocês... o quê?

Ela respirou fundo.

- Meg, querida...

- Não! Espera! - ergui as mãos, tentando organizar os pensamentos. - Minha mãe conhece o Felipe, o Felipe conhece a minha mãe, ele sabe toda a história da vida dela e agora está dizendo que é irmão dela?

Olhei para Felipe, completamente indignada.

- Eu quase transei com meu tio? Que porra é essa?!

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que até a televisão pareceu ficar mais alta.

Sarah arregalou os olhos.

Kaio abaixou a cabeça, claramente tentando esconder uma reação.

E Felipe...

Felipe fechou os olhos e apertou a ponte do nariz.

- Pelo amor de Deus, Meg.

- NÃO ME MANDA TER CALMA!

- Eu não mandei você ter calma.

- MAS PENSOU!

Sarah levou as duas mãos à boca.

- Meu Deus, eu não acredito que você falou isso!

- Sarah, eu estou vivendo uma crise existencial! Me deixa!

Minha mãe, apesar de toda a tensão, soltou um suspiro que quase pareceu uma risada nervosa.

- Meg, o Felipe não é meu irmão de sangue. Nós crescemos juntos no mesmo orfanato. Nossas mães eram amigas e morreram no mesmo tiroteio. Foi assim que nossas histórias se cruzaram.

Parei.

A raiva deu lugar à confusão.

Olhei para Felipe novamente.

Ele já não parecia irritado. Na verdade, havia algo em seu rosto que eu não tinha visto antes: uma tristeza antiga, guardada tão profundamente que parecia fazer parte dele.

- Eu tinha quinze anos. - ela explicou, a voz mais baixa. - Felipe tinha quatro anos. Éramos duas crianças.

Minha mãe se aproximou e tocou o braço dele com carinho.

- Perdemos nossas mães no mesmo dia. Ele era só um menino, Meg. E eu também era muito jovem para entender tudo o que estava acontecendo.

Engoli em seco.

Quinze anos.

Quatro anos.

Meu Deus.

Felipe havia perdido a mãe quando ainda era praticamente uma criança. E, de alguma maneira, aquela tragédia o tinha ligado à minha família muito antes de eu nascer.

Eu estava tão ocupada tentando entender o que aquilo significava para mim que quase não percebi Sarah se aproximar do irmão.

Ela segurou a mão dele.

- Fe... - sussurrou. - E eu? Como entro nessa história?

A pergunta pareceu atingir Felipe de uma maneira diferente.

Ele olhou para a irmã, e sua expressão se suavizou imediatamente.

- Nosso pai é o mesmo, Sarah. Sua mãe foi minha madrasta. Depois que Laura foi embora, nossos pais se reencontraram e me levaram para morar com eles. Algum tempo depois, você nasceu.

Sarah ficou imóvel.

- Meu pai...

- Sim. Nosso pai.

Ele respirou fundo antes de continuar.

- Depois que nossos pais morreram, sua mãe me fez prometer que eu cuidaria de você. Eu era apenas um garoto, não sabia como faria isso, mas prometi. E cumpri.

Os olhos de Sarah se encheram de lágrimas.

Felipe apertou a mão dela.

- Mas, mesmo que eu não tivesse prometido nada, você é a minha vida, entendeu? Eu faria qualquer coisa por você.

Sarah o abraçou com força.

Ele fechou os braços ao redor dela e beijou o topo de sua cabeça.

Eu fiquei observando aquela cena, sentindo alguma coisa apertar meu peito.

De repente, muitas coisas começaram a fazer sentido.

A maneira como Felipe cuidava da irmã.

A preocupação constante.

A forma como assumia responsabilidades que pareciam grandes demais para alguém tão jovem.

Ele não era apenas um homem que havia construído uma posição naquele lugar.

Era alguém que havia aprendido cedo demais que, se não protegesse as pessoas que amava, talvez ninguém mais o fizesse.

E, ainda assim, havia tantas coisas que eu não sabia sobre ele.

Tantas coisas que talvez nunca tivesse a oportunidade de conhecer.

Minha mãe interrompeu meus pensamentos.

- Meg, querida, eu sei que tudo isso é muita coisa para você. Mas preciso que entenda uma coisa: sua vida não acabou.

Virei-me para ela.

- Mãe, por favor, não começa com isso de novo.

Ela se aproximou.

- Seu fundo de estudos está intacto. O apartamento em Londres continua no seu nome. Seu pai não pode simplesmente tirar isso de você. Seu futuro está garantido.

Senti uma onda de irritação subir pelo meu peito.

- Porra, mãe! Chega!

Ela parou diante de mim, surpresa.

- Meg...

- Eu não quero saber do meu futuro! Não quero saber do apartamento, do intercâmbio ou do dinheiro que ainda sobrou! Eu quero saber da senhora!

Minha voz falhou.

As lágrimas voltaram com força.

- O que vai ser da senhora, mãe? O que vai acontecer quando levarem a nossa casa? Onde a senhora vai morar? Como vai se sustentar? A senhora passou anos construindo aquela vida, e agora está aqui, tentando me convencer de que está tudo bem!

Minha mãe segurou meu rosto entre as mãos.

- Olhe para mim.

Tentei desviar os olhos, mas ela não permitiu.

- Eu me virei quando não tinha nada, filha. Trabalhei, estudei, passei fome algumas vezes e chorei muitas noites sem que ninguém soubesse. Eu sobrevivi antes de conhecer seu pai e vou sobreviver agora.

- Mas a senhora não deveria ter que fazer isso de novo!

- Talvez não. Mas a vida nem sempre pergunta o que nós queremos.

Aquelas palavras me quebraram.

Abracei minha mãe com força, escondendo o rosto em seu ombro.

- Eu não quero perder a senhora também. - confessei baixinho.

Ela me apertou contra si.

- Você não vai me perder, meu amor. Estou aqui.

Chorei em silêncio, agarrada a ela como fazia quando era criança.

Por mais que tentasse ser forte, por mais que quisesse acreditar que conseguiria enfrentar tudo aquilo, eu ainda era a filha que tinha medo de ver a família desmoronar.

E minha mãe, apesar de todas as dificuldades, continuava tentando me proteger.

Até quando era ela quem precisava de proteção.

Depois de alguns minutos, ela se afastou delicadamente.

- Agora preciso ir até a nossa casa. Há algumas coisas que tenho de resolver.

- Eu vou com a senhora.

- Não, Meg. Fique aqui com a Sarah.

- Mãe...

- Por favor, querida. Preciso organizar meus pensamentos e entender o que ainda posso fazer.

Olhei para Felipe, esperando que ele dissesse alguma coisa.

Ele assentiu para minha mãe.

- O Samurai vai ajudar com o que precisar. Qualquer coisa que faltar, é só avisar.

Minha mãe olhou para ele com uma expressão carregada de gratidão.

- Obrigada, meu filho.

Meu filho.

Aquelas duas palavras fizeram Felipe baixar os olhos por um instante.

Foi tão rápido que talvez outra pessoa não percebesse.

Mas eu percebi.

E, pela primeira vez, entendi que aquele vínculo entre eles não era apenas uma história antiga. Era uma família construída sobre perdas, promessas e pessoas que escolheram continuar cuidando umas das outras.

Minha mãe pegou a bolsa que Samurai havia trazido e caminhou até a porta com ele.

Antes de sair, virou-se para mim.

- Eu te amo, Meg. Não se esqueça disso, mesmo quando tudo parecer difícil.

- Eu também te amo, mãe.

A porta se fechou.

E, de repente, o silêncio tomou conta da sala.

Fiquei parada por alguns segundos, olhando para o lugar por onde ela havia saído.

Então, minhas pernas fraquejaram.

Sentei-me no sofá e cobri o rosto com as mãos.

- Mas que merda...

Sarah se acomodou ao meu lado e passou um braço pelos meus ombros.

- Amiga...

- Não, Sarah. Sério. O que está acontecendo com a minha vida?

Ela não respondeu imediatamente.

Felipe permaneceu em pé diante de nós, com os braços cruzados e uma expressão indecifrável.

Olhei para ele.

- Você sabia de tudo isso e nunca me contou.

Ele descruzou os braços.

- Sua mãe tinha o direito de contar a própria história quando estivesse pronta.

A resposta me desarmou.

Eu queria continuar irritada. Queria encontrar alguém em quem despejar toda aquela confusão, porque era mais fácil sentir raiva do que admitir que estava com medo.

Mas ele tinha razão.

A história era da minha mãe.

- E meu pai? - perguntei, sentindo a garganta apertar novamente. - Você sabia que ele estava envolvido com tudo isso?

O rosto de Felipe ficou sério.

- Não sei até onde vão as acusações contra ele. O que está passando na televisão são informações da investigação, e ainda precisamos entender o que realmente aconteceu.

- Mas ele está foragido!

- Eu sei.

- E se ele for preso? E se for condenado? E se...

Minha voz desapareceu.

Felipe se aproximou e se agachou diante de mim, ficando na altura dos meus olhos.

- Meg, olha para mim.

Obedeci lentamente.

- Você não precisa resolver todos esses problemas hoje. Nem precisa fingir que está bem. Sua mãe está viva, está segura e tem pessoas dispostas a ajudá-la. A Sarah está aqui. E você também tem gente ao seu lado.

Olhei para ele, sentindo as lágrimas ameaçarem cair novamente.

- Por quê? - perguntei baixinho.

Ele franziu a testa.

- Por que o quê?

- Por que você está fazendo tudo isso por mim?

Felipe ficou em silêncio por alguns segundos.

Seus olhos percorreram meu rosto, demorando-se nas lágrimas que eu tentava esconder.

Então, ele respondeu:

- Porque você é importante para a Sarah. E porque ninguém merece enfrentar uma situação dessas sozinha.

Era uma resposta simples.

Razoável.

Exatamente o tipo de resposta que eu deveria aceitar sem questionar.

Mas, quando ele se levantou e se afastou, fiquei com a estranha sensação de que havia alguma coisa que ele não estava dizendo.

Talvez fosse impressão minha.

Talvez fosse apenas o modo como ele olhava para mim.

Ou talvez eu estivesse começando a perceber que Felipe tinha muito mais camadas do que eu imaginava.

A televisão continuava ligada ao fundo, repetindo as acusações contra meu pai.

Eu ainda não sabia o que aconteceria com a minha família.

Não sabia se meu pai voltaria para casa, se minha mãe conseguiria recomeçar ou se o futuro que eu havia planejado precisaria ser completamente diferente.

Mas uma coisa estava começando a ficar clara.

Minha vida antiga tinha ficado para trás.

E, enquanto eu tentava descobrir como sobreviver à queda de tudo aquilo que conhecia, o homem que eu menos esperava estava se tornando uma das poucas pessoas em quem eu conseguia confiar.

O problema era que Felipe não era apenas o irmão da minha melhor amiga.

Ele era um homem com seus próprios segredos, suas próprias feridas e um passado que eu mal começara a conhecer.

E eu tinha a sensação de que, quanto mais descobrisse sobre ele, mais difícil seria manter meu coração fora daquela história.

{...}

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