MasukMary Anne Clarke chegou em casa perto das sete. Eu estava no sofá, com o caderno aberto no colo, quando a porta bateu com mais força que o normal. Ele parou no meio da sala, ainda de casaco, o olhar escuro e a mandíbula travada. Eu senti o clima mudar no mesmo segundo. — Onde você esteve o dia inteiro? A pergunta saiu baixa, controlada demais. — Resolvendo umas coisas — respondi, fechando o caderno. — Por quê? Ele tirou o casaco e jogou sobre a poltrona. Veio até mim com passos lentos. Quando parou na minha frente, o cheiro de colônia misturado de tensão me atingiu junto. — Você sumiu. Não mandou mensagem. Não avisou. Eu fiquei o dia inteiro sem saber onde você estava. — Eu fui... Eu abri a boca para responder, mas ele já se inclinava. A mão grande segurou meu queixo com firmeza, forçando-me a olhar para cima. — Com quem você estava, Mary Anne? O ciúme estava tão claro nos olhos dele que meu estômago revirou. Parte de mim quis explicar na hora. Outra parte, a parte
Mary Anne Eu acordei cedo no automático. tinha um compromisso inadiável. Clarke ainda dormia ao meu lado, o braço pesado sobre a minha cintura, a respiração funda. Eu fiquei alguns minutos só olhando o rosto dele antes de me desvencilhar com cuidado para não acordar ele. Não deixei bilhete. Não mandei mensagem. Para mim, não havia necessidade. Eu tinha feito uma promessa a David e pretendia cumpri-la. Peguei o carro de Lívia, pois eu não havia comprado outro ainda e dirigi até a casa dele. David já estava na calçada quando cheguei, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, o rosto cansado mas menos destruído do que eu lembrava de semanas atrás. Ele subiu no banco do passageiro e soltou o ar como quem carrega peso do mundo. — Obrigada por vir — murmurou. — Eu prometi que viria. É um prazer poder ajudar. O cemitério ficava a quase 3 horas dali. O caminho foi silencioso na maior parte do tempo. David olhava pela janela, os dedos batendo um ritmo inquieto no joelho. Eu não forçava c
Lívia A porta ainda estava aberta atrás de nós quando eu finalmente consegui me afastar um pouco do peito dele. Não muito. Só o suficiente para olhar o rosto de Luigi de verdade. Os olhos castanhos escuros estavam vermelhos nas bordas, a barba por fazer raspava minha bochecha, e a rosa vermelha que ele ainda segurava entre nós estava um pouco amassada. Eu peguei a flor com as duas mãos, como se fosse algo sagrado, e só então percebi que estava tremendo. — Você é idiota — repeti, a voz saindo embargada e ao mesmo tempo cheia de um riso que eu não conseguia controlar. — Por que não avisou, Luigi? Eu estou de calça de moletom. Meu cabelo está um lixo. O apartamento está uma bagunça… Ele deu de ombros, aquele gesto simples e desajeitado que eu já tinha memorizado desde a Toscana. — Eu não sei fazer surpresa bonita, bella. Eu só sei aparecer. A forma como ele falou “bella” fez meu estômago revirar de um jeito bom. Eu fechei a porta com o pé e o puxei para dentro pela camisa. A m
Luigi O avião tocou o solo americano e eu ainda não acreditava que estava ali. A mala pequena na mão parecia mais pesada do que realmente era. Dentro dela tinham só o essencial: algumas roupas, o chapéu que eu quase não tive coragem de trazer e a única coisa que eu conseguira pensar em comprar no aeroporto de Florença antes do embarque, uma rosa vermelha. Só uma. Nada de buquê grande. Nada de caixa de chocolate. Nada de cartão escrito. Eu não sabia fazer essas coisas. Nunca soube. Clarke tinha me dito, no dia em que comprei a passagem: — Não precisa de flor demais, Luigi. Não precisa de discurso. Só aparece. Às vezes a presença é a maior surpresa. Mary Anne, no fundo da chamada de vídeo, tinha completado: — Ela vai abrir a porta e vai travar. Confia. Eu confiei. Porque não tinha outra opção. O táxi me deixou em frente ao prédio dela no final da tarde. O céu de Connecticut estava começando a ficar alaranjado. Eu fiquei alguns minutos parado na calçada, olhando o número d
Clarke Eu ainda segurava o telefone na mão quando Mary Anne entrou na cozinha. O café que eu quase engasgara minutos antes continuava pela metade sobre a mesa. Ela veio até mim descalça, o cabelo curto bagunçado do sono, e parou entre as minhas pernas quando eu me virei no banco. — Quem era? — perguntou, roubando a xícara da minha mão. — Sua tia Magda. Ela ergueu uma sobrancelha, já desconfiada. — O que ela queria tão cedo? Eu passei as mãos pela cintura dela e a puxei para mais perto. O cheiro do shampoo dela misturado com o meu ainda estava na pele. — Ela quer organizar um casamento cigano. Espalhafatoso. Com fogueira, música, dança, cores… o pacote completo. Mary parou de beber o café. Os olhos verdes se arregalaram. — Você está brincando. — Eu quase me engasguei de verdade. Ela soltou uma risada curta e incrédula, depois deixou a xícara de lado e passou os braços ao redor do meu pescoço. Eu apoiei a testa na dela. — E o que você respondeu? — Que qualque
Magda Carmichael Eu acordei com um sorriso no rosto. O corpo ainda carregava o cansaço gostoso da noite anterior, mas a cabeça já estava a mil. Anthony dormia profundamente ao meu lado, um braço jogado sobre a barriga, a respiração pesada. Eu fiquei olhando o teto por alguns segundos, revivendo a conversa. Casamento cigano com muitas cores, música, fogueira, dança e tradição. Perfeito. Levantei com cuidado para não acordá-lo, peguei o robe de seda e fui direto para a cozinha. O café nem tinha terminado de passar e eu já estava com o telefone na mão. Primeiro número: Damiana. — Acorda, irmã. A gente tem um casamento para organizar. Do outro lado da linha veio um gemido preguiçoso. — Magda, são sete da manhã… — Sete e meia. E a sua filha vai casar com o Clarke. Estilo cigano. Do jeito da nossa família. Eu já decidi. Houve um silêncio. Depois o som de Damiana se sentando na cama. — Você está falando sério? — Completamente. Cores vibrantes, música ao vivo, dança até







