FAZER LOGINJá era tarde quando finalmente fechei a porta atrás de mim. O morro estava mais quieto, só o som distante de um funk abafado e o latido esporádico de algum cachorro. Tomei banho rápido, lavei o cheiro da noite da pele, mas a memória ainda estava colada em mim. O corpo ainda latejava de um jeito gostoso, como se cada músculo lembrasse das mãos dele, da boca, do peso do corpo por cima do meu.
Preparei um macarrão com carne moída pra jantar. Nada sofisticado, só o que tinha na geladeira. Enquanto mexia a panela, pensei nele. No jeito que me beijou. No jeito que me vendou e me fez sentir tudo sem ver nada. No grunhido baixo quando gozou dentro de mim. Eu ainda estava sorrindo sozinha quando ouvi o barulho vindo do quarto. Arthur estava em crise. Eu tinha saído e deixado ele com a vizinha, a Dona Cida. Mas quando voltei, ele já estava agitado. O motivo? O ventilador da sala quebrou no início da noite e a Dona Cida ligou o rádio alto pra tentar acalmar ele um pouco. O volume, o barulho constante, a mudança de rotina… foi demais pra ele. Ele tinha ficado horas com as mãos tampando as orelhas, balançando o corpo pra frente e pra trás, chorando sem lágrimas. Quando cheguei, ele ainda estava assim. Precisei de quase uma hora de abraço firme, luz baixa e o carrinho vermelho favorito na mão dele até conseguir acalmar meu menino. Agora ele dormia profundamente no colchão ao lado da minha cama, o rostinho relaxado, a mãozinha ainda segurando o brinquedo. Eu fiquei olhando por um tempo, sentindo o peito apertar. Às vezes me sinto tão culpada. Por sair. Por tentar ter uma vida. Por querer um homem que me faça sentir desejada. Mas no fundo eu sei que se eu não cuidar de mim também, não consigo cuidar dele direito. Estava sentada no sofá, ainda de cabelo molhado e camiseta larga, quando ouvi dois toques na porta. Abri e era a Jéssica, toda animada, com a trança solta e um sorriso largo. — E aí, como foi lá? — ela perguntou já entrando e se jogando no sofá sem cerimônia. Fechei a porta e me sentei do lado dela, puxando as pernas pra cima do sofá. — Foi perfeito. Ele é tão… quente e diferente. Ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo de lado. — Quente e diferente? — Sim. Primeiro ficamos de amassos na jacuzzi. Depois no quarto ele me vendou. Foi muito diferente. Eu não vi nadinha, só sentia tudooo. Não sei se foi o tempo que fiquei sem sexo… só sei que foi muito, muito bom mesmo. Jéssica abriu a boca, os olhos arregalados. — UAL. Deve ter sido bom mesmo. Você tá com cara de boba apaixonada. Eu ri, sentindo o rosto esquentar, e escondi o sorriso atrás da mão. — Acho que fiquei ainda mais afim dele depois de tudo o que rolou. Sério, Jess… ele foi intenso. Dominador de um jeito que eu não esperava. E ao mesmo tempo cuidadoso. Nunca tinha sentido tanto prazer assim. Fiquei mole depois. Ela cutucou meu braço, rindo baixo pra não acordar o Arthur. — Menina do céu. O Urso tá te comendo a alma, hein? E aí? Vai continuar vendo ele? — Quero. Muito. Mas tô com medo também. Medo de me entregar demais e ele só estar brincando. Medo de colocar o Arthur no meio disso. Medo de tudo. Depois do Ismael eu jurei que não ia mais me envolver com homem do morro… e olha eu aqui "namorando" o sub dono. Jéssica ficou séria por um segundo, depois puxou uma mecha do meu cabelo. — Você merece ser feliz, Cê. Só não entrega o coração de uma vez. Vai aos poucos. E se ele quiser algo sério mesmo, ele vai mostrar. Ficamos batendo papo até de madrugada. Falamos de tudo: das fofocas do morro, do trabalho no salão, de como a terapia do Arthur estava avançando, de como a vida era cansativa e ao mesmo tempo bonita quando a gente conseguia rir. Eu contei mais detalhes da noite (sem exagerar), e ela me contou que tinha visto o Urso mais cedo no dia, conversando com uns caras perto da birosca, e que ele parecia animado. — Talvez ele também esteja pensando em você — ela disse, piscando. Quando finalmente se levantou pra ir embora, já eram quase três da manhã. Me abracei forte na porta. — Cuida desse coração, viu? — ela sussurrou. — Vou tentar. Fechei a porta, apaguei a luz da sala e fui pro quarto. Me deitei ao lado do Arthur, ouvindo a respiração tranquila dele. Fiquei olhando o teto por um tempo, ainda sentindo o corpo quente da memória daquela noite. Sorrindo sozinha. Iludida, talvez. Mas feliz. --- O despertador tocou às cinco e meia da manhã. Eu abri os olhos com preguiça, o corpo ainda pesado de sono e de prazer residual. A rotina começava mais uma vez naquele morro. O sol ainda nem tinha aparecido direito e o calor já tava ficando insuportável. O ar dentro de casa estava quente e abafado. Levantei devagar, pra não acordar o Arthur, e fui até a janela. Lá fora o céu ainda estava cinza-azulado, mas já se sentia o cheiro de asfalto quente e o barulho distante de alguma panela de pressão. — Hoje vai ser um dia daqueles… — sussurrei pra mim mesma. Arthur ainda dormia, tranquilo. Alheio aos meus problemas e preocupações. O rostinho dele estava relaxado, a boca levemente aberta, a mãozinha ainda segurando o carrinho vermelho. Eu fiquei olhando por alguns segundos, sentindo aquele aperto gostoso e dolorido no peito ao mesmo tempo. Esse menino era meu mundo inteiro. E eu estava apaixonada por um homem que nem sabia direito o que queria de mim. Respirei fundo, fui pra cozinha e comecei o dia. Coloquei água pra ferver, preparei o café e separei a roupa dele pra escolinha. Enquanto mexia a colher na caneca, a memória da noite anterior voltou forte: a venda nos olhos, a boca quente, o corpo pesado, o prazer que me fez tremer duas vezes. Eu sorri sozinha de novo, sentindo o rosto esquentar. Mas a realidade não esperava. Precisava trabalhar. Precisava levar o Arthur. Precisava fazer os bolos de pote. Precisava sobreviver mais um dia no morro. E, no fundo, eu já sabia: aquele homem tinha me marcado. De um jeito que eu não ia conseguir esquecer tão cedo.Quando passei em frente à casinha da Ceci e vi as luzes acesas, não pensei duas vezes. Parei a moto, desliguei o motor e tirei o capacete. Ela, pelo jeito, ouviu o barulho, porque abriu a porta imediatamente. Ela estava linda. Meu olhar desceu rápido pelo corpo perfeito dela — camiseta larga que escondia pouco, shortinho mega curto que mal dava pra diferenciar de uma calcinha, as pernas grossas e macias, os pés descalços no chão frio. O rostinho cansado, mas ainda assim ela era gostosa pra caralho. — Eu vi as luzes acesas… posso entrar? Ela deu passagem sem hesitar. Eu entrei, fechei a porta atrás de mim e me sentei no sofá como se já fosse de casa. A casa era de conceito aberto, então eu conseguia ver ela direitinho na cozinha. Tava trabalhando num bolo, as mãos sujas de creme, o cheiro doce dominando o ambiente. — Tá fazendo bolo essa hora? — perguntei baixo. Não queria que o moleque acordasse e estragasse tudo. — Encomenda de última hora. Uma vizinha. A netinha dela queria pr
Só tinha um jeito de esquecer aquela garota proibida. Sumir. Apesar da identidade de Fera ser um mistério até para os meus próprio vapo, eu fazia isso com frequência. Desaparecia por semanas, às vezes meses. Voltava só quando o morro precisava de uma mão mais pesada ou quando o Steve começava a cometer erros demais. Era uma forma de manter o controle e, ao mesmo tempo, de não deixar ninguém desconfiar que o homem que ocasionalmente aparecia na casa era muito mais do que o pai discreto do Urso. Naquela noite eu já tinha feito as malas. Pouca coisa. O essencial. Estava quase descendo as escadas com a mala na mão quando dei de cara com o Steve. Ele parou no meio do corredor, ainda de camiseta preta e short, o cabelo molhado do banho. — Ué, fez as malas? Pra onde vai? — Vou precisar dar um tempo fora novamente. Ele franziu a testa, claramente incomodado. — Mas você acabou de chegar. Não ficou nem uma semana. Não vai ficar pro baile? O baile. Sempre o baile. Steve amava aqueles ev
Já tinha colocado o Arthur na cama quando alguém bateu na porta. O menino dormia de lado, o carrinho vermelho ainda apertado contra o peito, a respiração tranquila depois de mais um dia cansativo. Eu estava no sofá, de cabelo preso de qualquer jeito e camiseta larga, prestes a ligar o filme que tinha colocado na lista há dias e nunca conseguia assistir. Aquele era o meu momentinho. O único pedaço da noite que eu reservava só pra mim. Suspirei, levantei e fui até a porta, já com a expressão de quem não queria ser incomodada. Quando abri, dei de cara com a Dona Maria, a vizinha que mora bem no início do beco. Mulher de uns sessenta anos, cabelo grisalho preso num coque baixo, sempre com um avental. — Boa noite, minha filha. Desculpa a hora — ela começou, já com aquele jeito educado de quem sabe que está atrapalhando. — Deixa eu te perguntar… você faria um bolo pra amanhã de manhã? Forcei um sorriso educado. — Boa noite, Dona Maria. Imagina. Eu só faço bolos de pote… Ela me interro
O celular vibrou em cima da mesa. Abri a mensagem de Donato. 📲 Donato: Aqui estão os vídeos de movimentação. Mais de cinquenta arquivos. Eu soltei o ar pelo nariz e sentei na poltrona do escritório, a tela do notebook aberta na minha frente. Comecei a assistir um por um, com a paciência de quem já aprendeu que pressa é inimiga do controle. Os primeiros vídeos não tinham nada demais. Vapo entrando, vapo saindo. A empregada carregando sacolas. A cozinheira fumando no fundo do quintal. Movimento normal de uma casa que precisa parecer comum. Eu avançava rápido, pulando os trechos sem interesse. Até que os vídeos do fim da tarde começaram. Foi quando ela surgiu. No portão. Sozinha. Eu travei o dedo no mouse. A imagem congelou por um segundo e depois eu apertei play de novo. Ela estava ali. Cabelos cacheados lindos, vestido vermelho simples, o corpo delicado contrastando com a segurança armada que abria o portão pra ela. Os vapo a liberaram sem questionar. Ela entrou como se soubess
O clima entre a gente estava quente demais. Os corpos já nus, colados um no outro em cima da cama estreita do meu quarto. Os beijos eram molhados, urgentes. As mãos dele apertavam minha bunda, subiam pelas costas, desciam de novo. Eu retribuía com a mesma fome, as unhas fazendo leves arranhões nas costas largas dele. — Tu é muito, muito gostosa… — ele murmurou contra minha boca, beijando mais uma vez. Desceu os beijos pelo meu pescoço, mordendo de leve, e chegou nos seios. Chupou um mamilo com vontade, a língua quente girando, enquanto a mão apertava o outro. Eu arqueei as costas, soltando um gemido baixo. Dessa vez eu podia olhar. Dessa vez eu via o rosto dele, a barba cerrada, os olhos escuros cheios de tesão. Era bom. Era diferente de ontem… e ao mesmo tempo me fazia lembrar. Ele se sentou de repente, pegou a roupa do chão e tirou uma camisinha do bolso. Eu estranhei. Na noite anterior a gente não tinha lembrado disso. Nem pensado. Tinha sido tão intenso, tão sem freio… e agora
Dois toques na porta e eu me levantei da cama. Meu pau ficou duro na mesma hora. Só de imaginar aquela garota eu já ficava louco. A pele, os cachos, os gemidos inocentes, o jeito que o corpo dela se entregava… eu nunca tinha repetido uma mulher. Nunca. Mas aquela eu queria de novo. Queria ver os olhos dela enquanto metia. Queria gravar o rosto na memória. Ainda assim, preferi manter o protocolo. Segurança em primeiro lugar. Peguei a venda preta de seda, abri a porta devagar e, antes que ela pudesse me ver, já estava atrás dela. O corredor estava escuro. Enrolei a venda nos olhos dela com firmeza, amarrando atrás da cabeça. Meus dedos tocaram os cabelos enquanto eu finalizava o nó… e parei. Não era a mesma. Os fios eram diferentes. Mais lisos. Mais finos. O cheiro também. Eu soltei um suspiro de decepção nítida. — Não foi você que veio aqui ontem. Ela fez menção de tirar a venda. A mão subiu rápido. — Não tira — ordenei, a voz baixa e fria. Ela congelou. Ficou parada no meio do







