LOGINAnnaA figura que se agachou ao meu lado não era um capanga, tampouco a miragem do meu desespero. Era Sônia. Ela se acomodou devagar sob o tronco daquela árvore, cuja raiz imensa parecia abraçar a nós duas na escuridão. O peito dela subia e descia em arfadas curtas, e uma das suas mãos pressionava com força o próprio ombro esquerdo, entre os dedos que se tingiam de um líquido quente e escuro.— Sônia... — sussurrei num sopro de voz, o coração dando um salto na garganta. — Meu Deus... você se feriu?Ela trincou os dentes, mantendo a pressão contínua sobre o ferimento antes de responder, a voz gélida e focada como sempre:— Não é nada, Anna... É só um rasgão. O segundo cara conseguiu disparar antes de cair, mas a trajetória foi de raspão.Antes que eu pudesse alcançar o ombro dela ouvimos o som de passos pesados que avançavam rapidamente em direção à entrada da mata.Encolhi-me contra a casca da árvore, o pavor voltando a gelar o meu sangue.— Sônia... — murmurei, colando o rosto ao del
AnnaAbaixada na terra batida, encolhi o meu corpo o máximo que pude, abraçando os joelhos com os braços doloridos e enterrando o rosto no vestido sujo. O cheiro de umidade, folhas podres e fumaça de pólvora impregnava o ar. As raízes grossas e sobressaltadas daquela árvore secular pareciam me abraçar, oferecendo o único abrigo precário que eu tinha na imensidão daquela mata escura.A cada inspiração, eu fazia um esforço descomunal para não emitir o menor som. A minha respiração queria sair desregulada, entrecortada por soluços que eu engolia à força, sentindo a garganta queimar.O silêncio que se seguiu à partida de Sônia durou apenas alguns segundos, mas parecia ter se expandido para uma eternidade agonizante.Então, o barulho começou.A poucos metros de mim, no breu denso, o som fino e seco de um galho de árvore sendo partido propositalmente cortou o ar. O ruído foi calculado para soar mais à esquerda, longe da árvore onde eu estava escondida.— Ali! Pela esquerda! — a voz áspera d
AnnaA noite virou uma tempestade de pânico e adrenalina pura. Corríamos com todas as forças que nos restavam em direção ao mato fechado que delimitava a propriedade vizinha. O silêncio da zona rural havia sido destruído de vez. Lá atrás, no casarão, luzes fortes de refletores e lanternas se acenderam de golpe, iluminando a fachada empoeirada. Três homens saíram em disparada pela porta principal, espalhando-se pelo terreno como cães de caça.O capim alto e úmido da roça cortava a minha pele a cada passada desajeitada. Eu havia abandonado os meus sapatos de salto alto logo nos primeiros minutos no quarto, e agora sentia a terra fria, as pedras e o orvalho gelado sob os meus pés descalços. A dor dos meus pulsos e tornozelos marcados pelas abraçadeiras já não existia mais; a única coisa que importava era continuar em frente.— Corre, Anna! Corre sem olhar para trás! — a voz de Sônia ecoava ao meu lado, num tom firme que tentava se sobrepor ao barulho do vento e da nossa respiração desreg
MatteoA sensação de impotência é um veneno que consome o peito devagar. Ficar ali parado, confinado àquele posto de apoio improvisado em uma pequena lanchonete de posto na beira da rodovia, parecia uma tortura calculada. O cheiro de café queimado e combustível se misturava ao ar gélido da noite rural. Cada segundo no relógio do painel do meu carro doía como uma navalhada.Caminhei de um lado para o outro no estoque da lanchonete, onde a polícia havia montado uma espécie de QG, o casaco pesado mal sendo suficiente para conter o frio que vinha de dentro. Olhei para o relógio mais uma vez. Três minutos se passaram desde a última vez que olhei.— Ricardo... nada ainda? — perguntei, virando-me bruscamente para o delegado, que permanecia encostado na parede com o olhar fixo no estoque de pães.— Bianchi, já é a quinta vez que você me pergunta isso nos últimos quinze minutos — respondeu Ricardo, mantendo o tom de voz sereno e comedido. — Quando a equipe em campo tiver qualquer avanço real n
Anna Ver a Sônia imobilizar aquele homem em uma fração de segundos fez um arrepio congelante correr por toda a minha espinha. Olhei para o corpo inerte no chão de madeira e a pergunta martelava na minha mente, sufocando o meu peito: ela tinha matado ele? A velocidade, o estalo seco, a forma como o capanga simplesmente desabou... Tudo parecia surreal, assustador. Sônia virou-se para mim, segurando a pistola preta com firmeza. Ela me encarou com olhos gélidos e focados, fazendo um gesto curto para que eu me mantivesse no meu posto. — Segue atrás de mim e não faz um único barulho — sussurrou ela, com a voz tão baixa que mal pareceu um sopro. Minhas pernas tremiam, mas assenti rapidamente. Saímos do quarto em silêncio absoluto. Sônia encostou a porta com extremo cuidado e girou a chave na fechadura pelo lado de fora, trancando-a para ganhar tempo caso algum outro capanga passasse por ali. Fomos na direção oposta de onde vinham os risos abafados e o som da televisão ligada no andar inf
SôniaAnos de treinamento militar e segurança tática privada me ensinaram uma regra fundamental: o pavor é o maior inimigo da sobrevivência. Por mais que eu estivesse vestindo blazers ajustados e sapatos de salto baixo — uma exigência que Anna fizera ao meu chefe na empresa de segurança para que eu não parecesse uma guarda-costas ostensiva e intimidadora ao lado dela —, o meu cérebro continuava funcionando como o de uma combatente.Quando fomos jogadas no carro e descarregadas naquele quarto infecto, mantive os sentidos apurados. Contei mentalmente cada som na chegada. O ruído característico de pneus triturando o cascalho da propriedade me deu a leitura inicial: havia três carros estacionados no pátio. Quando Mário fez a sua cena e foi embora logo em seguida, ouvi o ronco de dois motores arrancando em sequência. Naquele momento, restava apenas um veículo na propriedade.Olhei para Anna pelo canto dos olhos enquanto a penumbra dominava o quarto. Ela tremia, mas mantinha uma coragem adm







