Share

Capítulo 4

Author: Olmo
Do outro lado da linha, Dante ficou em silêncio por alguns segundos. Só então percebeu que havia alguma coisa errada.

— O que aconteceu?

Tirei uma foto do retrato e enviei para ele.

— Olha direito.

Dante se calou de novo. Depois, soltou um suspiro.

— Entregaram no endereço errado.

Soltei uma risada fria.

— Então o único erro foi o endereço? Tirar fotos de casamento com ela está tudo certo?

A voz dele carregou um pouco de impaciência.

— Vem até a empresa. Eu te explico.

A ligação terminou.

Peguei minha bolsa e saí.

Meu peito doía a cada passo.

Dante nunca me deixava ir à empresa. Dizia que minha presença ali não pegava bem.

Nunca imaginei que a única vez em que ele me permitiria entrar seria por causa de algo assim.

Assim que saí do elevador, um funcionário me barrou.

— Pessoas de fora não podem entrar na área dos escritórios. Por favor, aguarde na recepção.

Eu ia responder quando Luna apareceu.

Ela segurou meu braço e me levou para dentro.

— Tudo bem, eu conheço ela.

Luna circulava por aquele lugar com uma naturalidade impressionante, quase como se fosse a dona.

Depois que entramos, ela me serviu um copo d'água.

— O chefe está numa reunião. Espera um pouquinho, Helena.

Não peguei o copo.

Passei os olhos pelo escritório.

No sofá, havia dois pijamas combinando. Até o copo de Dante agora fazia par com outro.

Sobre a mesa, vários objetos artesanais feitos pelos dois estavam espalhados como pequenas lembranças de momentos que compartilharam.

Meus lábios se curvaram num sorriso amargo.

Depois que nos casamos, eu também vivia dizendo que queria fazer alguma coisa assim com ele.

Uma oficina de cerâmica. Algum artesanato. Qualquer coisa que pudéssemos criar juntos.

Dante nunca queria.

Dizia que não tinha tempo.

Dizia que ficava para outro dia.

E esse outro dia nunca chegava.

Naquele momento, finalmente entendi.

Ele não estava sem tempo.

Só não queria ir comigo.

Luna não pareceu se importar com meu silêncio. Começou a arrumar algumas coisas enquanto sorria.

— Helena, não entende errado. Entre mim e o chefe não existe nada.

Ela continuou, num tom doce demais.

— Eu sei que você ainda está chateada. E também sei que a frequência de vocês na cama é baixa demais pra te satisfazer. Depois eu converso com o chefe e tento convencer ele a te dar mais atenção.

Então seus lábios se curvaram num sorriso provocador.

— Mas ele dura bastante, e você sente dor com facilidade... então também não dá pra culpar ele por não querer fazer com tanta frequência.

Meu coração pareceu sangrar.

Soltei uma risada fria.

— Interessante.

Encarei Luna.

— Você sabe até como é a nossa vida sexual?

Luna sorriu, e suas bochechas de repente ficaram vermelhas.

— É que o chefe confia muito em mim, Helena. Eu até tenho um vídeo de vocês.

Ela pegou o celular e me mostrou enquanto continuava:

— Minhas amigas também viram. Todas acharam você travada demais na cama.

Então me lançou um olhar demorado.

— O que é estranho, né? Afinal, sua mãe foi amante de um homem casado. Achei que você seria mais... aberta.

A frase morreu de propósito, mas o olhar que percorreu meu corpo terminou o insulto por ela.

Um arrepio me atravessou. Comecei a tremer.

— Você sabe até disso...

Luna sorriu com doçura e pegou minha mão.

— Helena, eu não falei por mal.

Sua voz continuava suave.

— Mas, com uma mãe tão vergonhosa assim, também é normal o chefe não gostar de você.

Arranquei minha mão da dela. Minha respiração ficou cada vez mais curta.

— Não fala assim da minha mãe!

Naquela época, a história da minha mãe virou um escândalo.

Ela ficou doente e já não conseguia me sustentar. Então atravessou o país comigo para procurar meu pai.

Só quando chegou descobriu que ele já vivia com outra mulher e tinha filhos com ela.

A esposa dele nos expulsou.

Todos chamaram minha mãe de amante, de sem-vergonha.

Para me proteger de toda aquela humilhação, ela acabou tirando a própria vida, batendo a cabeça contra uma parede.

Mas minha mãe nunca soube de nada.

Do começo ao fim, foi enganada.

Ela esperou por ele durante anos, acreditando ingenuamente que o marido só estava longe trabalhando para sustentar a família.

E Dante era a única pessoa a quem contei tudo.

Ele sabia da verdade.

E mesmo assim...

contou para Luna.

Meus olhos arderam. Levantei a mão para acertá-la.

Nesse instante, Dante entrou e me empurrou com força.

— Helena, eu te chamei aqui pra resolver um problema.

Seu rosto se fechou.

— Não pra você vir fazer barraco na empresa.

Afastei Dante de mim e, no instante seguinte, agarrei sua roupa.

— Por que você mostrou nosso vídeo pra ela?

Minha voz tremia.

— Por que contou a história da minha mãe pra elas? Você sabe que ela era inocente!

O tom de Dante suavizou um pouco, mas sua expressão continuou indiferente.

— Lu viu o vídeo por acaso. E ela só mostrou para algumas amigas.

Ele parecia não enxergar gravidade nenhuma naquilo.

— Ela me garantiu que ninguém vai espalhar.

Meu peito subia e descia depressa.

— E a sua mãe...

Dante prolongou as palavras antes de concluir:

— Uma história dessas nunca acontece por culpa de uma pessoa só.

Ri.

De tanta raiva, só consegui rir.

Então era isso.

"Ninguém vai espalhar."

"E a culpa nunca é de um lado só."

Meu olhar ficou vazio.

Juntei toda a força que ainda restava e lhe dei um tapa.

O impulso me desequilibrou.

Caí para trás e bati contra a estante.

Ela balançou violentamente.

Quando percebi que vinha abaixo, meu coração disparou.

Dante reagiu por instinto.

Mas não foi a mim que puxou.

Ele agarrou Luna e a tirou do caminho.

No segundo seguinte, a estante desabou sobre mim.

Fiquei presa sob todo aquele peso.

Minha consciência começou a se apagar.

Olhei para Dante através da visão embaçada.

No último instante antes de perder os sentidos, vi suas pupilas se contraírem.

Então ele correu na minha direção.

Quando acordei, não fazia ideia de quanto tempo se passou.

Três costelas estavam quebradas.

Dessa vez, foi Dante quem me mandou mensagem primeiro.

[Estou comprando umas roupas pra você. Do que você gosta?]

Olhei para a foto que acompanhava a mensagem.

Num canto da imagem, Luna experimentava roupas diante do espelho.

Talvez eu fosse, mais uma vez, apenas um acréscimo de última hora.

De repente, tive vontade de rir.

Dante quase nunca tomava a iniciativa comigo.

Mas, daquela vez, eu não quis responder.

Com calma, apaguei o contato dele.

Deixei os papéis do divórcio sobre a cama.

E segui para o aeroporto.

...

Muito tempo se passou, e Dante continuava sem receber nenhuma resposta de Helena.

Será que ela dormiu?

Ele escolheu algumas roupas de acordo com o gosto dela e voltou para o hospital.

Quando abriu a porta do quarto, encontrou apenas a cama vazia.

E, sobre ela...

os papéis do divórcio.

As pupilas de Dante se contraíram.

As sacolas escaparam de sua mão e caíram no chão.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 9

    Sem esperar pela resposta de Dante, saí e fui almoçar num restaurante ali perto.Peguei o celular e abri as câmeras de casa.Dante estava sentado na cozinha, diante da mesa cheia de comida, ainda me esperando.Meus olhos arderam.Um dia, fui eu quem esperou assim por ele.Agora que os papéis se inverteram, só conseguia sentir pena da mulher que eu fui.Depois do almoço, passei algum tempo andando pelo shopping.A noite caiu, e só voltei para casa horas depois.Dante já foi embora. A comida continuava sobre a mesa.Ele preparou muita coisa. Parecia até que se esforçou de verdade.Não provei nada.Chamei uma diarista e pedi que limpasse tudo.Nos dias seguintes, Dante não apareceu mais.Minha vida voltou a ficar leve.Até que, numa tarde, Luna apareceu na minha porta.Estava muito mais magra, quase abatida, com o rosto pálido e cansado.Ela cambaleou na minha direção e gritou, rouca:— Fica longe dele! Para de tentar seduzir Dante!Seus olhos estavam vermelhos.— Ele disse que era meu! C

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 8

    Dante ficou em silêncio por muito tempo.Quando achei que continuaríamos presos naquele impasse, ouvi o clique da trava.Abri a porta.— Obrigada por hoje.Peguei a mala.— Qualquer dia eu te pago um jantar.Subi sem olhar para trás.Tomei um banho rápido, sequei o cabelo e, quando fui até a varanda, Dante ainda estava lá embaixo.O vidro do carro estava aberto. Uma das mãos descansava para fora, com um cigarro entre os dedos.Ele ficou ali por muito tempo.Me virei e fechei as cortinas.No dia seguinte, dormi até o meio-dia.À tarde, saí para jogar o lixo fora e encontrei Dante parado ali.Parecia cansado. Nas mãos, carregava sacolas de supermercado.Pelo jeito, chegou cedo.Ao notar minha surpresa, falou primeiro:— Comprei algumas coisas. Posso cozinhar pra você...Ele hesitou.— E tudo o que você dizia que queria fazer, eu posso fazer com você agora.Não me mexi.— Você não precisa trabalhar?Dante baixou os olhos, sem graça.— O trabalho... pode esperar.Fez uma pausa.— Eu também

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 7

    Depois que deixei Dante, fui para uma cidade no sul do país.Passei mais algum tempo internada num hospital de lá e, depois da alta, comecei a viajar pelas cidades da região.Até que, um dia, ao sair da estação, minha mala quebrou do nada.Meus ferimentos acabaram de cicatrizar e eu ainda não podia carregar peso. Enquanto pensava se devia pedir ajuda a alguém, o peso sumiu da minha mão.Soltei um suspiro de alívio e virei o rosto.— Obrigada.Mas congelei assim que vi quem estava ao meu lado.Dante.Depois de meses sem vê-lo, ele estava ali, segurando minha mala com uma só mão.Sua voz tremeu levemente.— De nada.Levei apenas alguns segundos para recuperar a calma.Peguei o celular e comecei a chamar um carro.Dante segurou meu braço de repente. Sua voz carregava uma hesitação rara.— Você me viu e... não tem nada pra dizer?Balancei a cabeça e continuei mexendo no celular.Ele se adiantou num passo apressado, cobriu a tela com a mão e pegou minha mala com a outra.— Pra onde você vai

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 6

    Dante ficou ali, imóvel, por muito tempo.Seu corpo parecia completamente rígido.Até que seus ouvidos captaram o som de passos se aproximando.Sua respiração ficou mais leve, mas o coração disparou.Ele se virou depressa.— Você voltou. Eu estava te procurando...As palavras morreram em sua garganta assim que viu quem era.A decepção tomou seus olhos.— Por que é você?Sua expressão esfriou.— O que está fazendo aqui?Luna sorriu e se aproximou rapidamente, abraçando o braço dele.— Vim porque estava com saudade, chefe~Ela inclinou a cabeça, manhosa.— Você não disse que eu podia vir quando quisesse?O corpo de Dante se enrijeceu. Sem demonstrar muito, ele soltou o braço e se afastou.Nem olhou para ela.— Você deveria estar trabalhando agora.Luna fez um bico e voltou a se aproximar, quase se encostando nele.— Mas não foi você que disse que eu podia descansar quando quisesse?Seu tom carregou um pouco de insatisfação.— Eu não quero trabalhar de dia e de noite.Enquanto falava, ela

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 5

    Dante atravessou o quarto a passos largos e varreu o espaço com os olhos.Um mau pressentimento apertou seu peito.Ele se virou bruscamente, correu até o posto de enfermagem e segurou uma enfermeira pelo braço.Sua voz tremia.— Para onde foi a paciente desse quarto?A enfermeira franziu a testa e recuou.— Senhor, se acalme.Ela olhou na direção do quarto.— A paciente pediu alta e saiu logo cedo.A respiração de Dante travou. Seus dedos se afrouxaram devagar.Por um instante, sentiu todo o sangue do corpo gelar.— Foi embora...?Sua voz saiu quase sem força.— Ela está ferida. Como conseguiu sair? Pra onde foi?A enfermeira também parecia intrigada.— Nós tentamos convencer ela a ficar, mas não adiantou.Suspirou.— Ela insistiu tanto que nem o médico conseguiu impedir.Dante engoliu em seco e respirou fundo.Voltou para o quarto com passos pesados e pegou os papéis do divórcio sobre a cama.Suas mãos tremiam.Seu olhar escureceu.Como Helena conseguiu ir embora?E, pior... como cons

  • Na Cama, Eu Era Só um Compromisso   Capítulo 4

    Do outro lado da linha, Dante ficou em silêncio por alguns segundos. Só então percebeu que havia alguma coisa errada.— O que aconteceu?Tirei uma foto do retrato e enviei para ele.— Olha direito.Dante se calou de novo. Depois, soltou um suspiro.— Entregaram no endereço errado.Soltei uma risada fria.— Então o único erro foi o endereço? Tirar fotos de casamento com ela está tudo certo?A voz dele carregou um pouco de impaciência.— Vem até a empresa. Eu te explico.A ligação terminou.Peguei minha bolsa e saí.Meu peito doía a cada passo.Dante nunca me deixava ir à empresa. Dizia que minha presença ali não pegava bem.Nunca imaginei que a única vez em que ele me permitiria entrar seria por causa de algo assim.Assim que saí do elevador, um funcionário me barrou.— Pessoas de fora não podem entrar na área dos escritórios. Por favor, aguarde na recepção.Eu ia responder quando Luna apareceu.Ela segurou meu braço e me levou para dentro.— Tudo bem, eu conheço ela.Luna circulava por

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status