ログインMavie Ramos Sabendo que Sérgio queria me matar — ou pelo menos era essa a exata sensação que o seu olhar assassino transmitia enquanto o carro cortava a estrada escura de volta à mansão —, decidi que precisava mudar urgentemente o rumo da conversa que teríamos assim que estivéssemos a sós. Eu não podia deixar que a raiva dele se voltasse contra mim por ter saído do meu lugar ou por ter dado um tapa na cara de um dos homens mais perigosos de Sevilha. Eu precisava desviar o foco daquela fúria cega antes que ela explodisse dentro daquele veículo em movimento.Inspirei fundo, ajeitando o tecido rasgado e amarrotado do meu vestido de cetim vermelho-sangue, e lancei a primeira pedra para testar o terreno:— O que vai fazer com Domênico? — perguntei, mantendo a voz o mais firme e controlada possível, apesar do estômago ainda dar voltas.Sérgio estava recostado no banco de couro do outro lado, com os braços cruzados sobre o peito largo e a mandíbula travada a ponto de os músculos saltarem s
Sérgio RamosA alta sociedade de Sevilha podia continuar rindo, brindando com o seu champanhe de safra e fingindo que o mundo girava em torno de suas próprias vaidades, mas naquele vinhedo estúpido havia uma linha invisível que ninguém tinha o direito de cruzar. E Domênico acabara de atravessá-la correndo, pisoteando o território que pertencia exclusivamente a mim.Minha mandíbula estava travada com tanta força que os dentes douíam. Segundos antes, eu estava preso em uma conversa interminável e enfadonha com um investidor alemão que insistia em discutir margens de lucro trimestrais, quando o meu radar interno — aquele instinto frio e cínico que me manteve no topo da Ramos & Co. por tantos anos — disparou um alarme silencioso. Passei os olhos pelo salão aberto ao ar livre, varrendo os grupos de convidados engatados em risadas falsas, as mesas de aperitivos, as fontes iluminadas.Mavie não estava lá.A ausência dela me atingiu como um soco no estômago. Eu havia ordenado explicitamente
Mavie Ramos Recuei dois passos cambaleando, abraçando o meu próprio braço dolorido, com o coração disparado na garganta.Sérgio estava ali.A luz fraca das luminárias do jardim iluminava o seu terno impecável, mas o que realmente assustava era a aura que irradiava dele. Sérgio irradiava uma raiva primordial, um ciúme visceral, primitivo e escuro que eu nunca, em hipótese alguma, tinha visto em toda a minha vida. Suas narinas dilatavam, os punhos cerrados batiam levemente nas laterais das coxas, e os olhos escuros pareciam lâmpadas acesas de pura carnificina, encarando o homem caído no chão como se estivesse prestes a matá-lo com as próprias mãos.Domênico gemia no chão, tossindo e tentando apoiar o cotovelo, com o nariz sangrando copiosamente e o rosto completamente desfigurado pelo soco.— S-Sérgio... — Domênico gaguejou, cuspindo um filete de sangue no cascalho, tentando recuar enquanto se arrastava para trás. — Calma... foi apenas um... um mal-entendido... a sua esposa... ela co
Mavie Ramos Quando levantei a cabeça e os meus olhos finalmente conseguiram focar na pessoa que estava à minha frente, eu simplesmente não pude acreditar. O sangue congelou nas minhas veias por um segundo antes de voltar a ferver com uma violência avassaladora.Era Domênico.O magnata venoso, o dono daquele vinhedo luxuoso e o homem que havia passado a noite inteira me medindo com olhares de predador e destilando veneno sobre o passado de Sérgio. Ele estava ali, parado bem no meio das videiras escuras, com um sorriso cínico e prepotente colado nos lábios finos, segurando-me pela cintura com uma intimidade que me deu ânsia de vômito.— Cuidado para não cair, gracinha... — Domênico murmurou, a voz pingando um falso cuidado carregado de malícia. — Não quero que o seu marido venha atrás de mim com uma arma e me mate só porque o troféu favorito dele quebrou o pé por descuido.Eu não pensei duas vezes. Assim que processei o peso da palavra troféu saindo da boca dele, agi por puro instinto
Mavie Ramos Tudo naquele lugar parecia girar em torno de Sérgio Ramos e da lembrança fantasma de uma mulher que teve a coragem de fugir dele.O vinhedo de Domênico era deslumbrante, banhado por luzes amareladas que pendiam como vaga-lumes entre as videiras e preenchido pelo som discreto de taças de cristal lapidado se chocando. Mas, para mim, o ar ali dentro era simplesmente irrespirável. Eu não conseguia dar três passos sem capturar fragmentos de conversas venenosas. Os comentários circulavam tão livremente quanto o champanhe caro de safra especial, passados de boca em boca acompanhados por risadinhas disfarçadas por trás de leques e taças erguidas.À medida que eu caminhava com Sérgio, o salão ao ar livre parecia um mar de cobras vestidas em alta-costura. Os olhares daquela elite aristocrática me mediam da cabeça aos pés, desacelerando na fenda do meu vestido vermelho e na audácia das joias de diamantes negros que eu ostentava no pescoço.— Quem é ela mesmo? — sussurrou uma mulher
Sérgio Ramos O coquetel de gala não seria em um salão fechado de hotel, como a imprensa e os colunistas sociais tanto especularam, mas nas terras particulares de Domênico, um dos acionistas mais influentes, venenosos e ardilosos da alta sociedade espanhola. A propriedade ficava a apenas vinte minutos da nossa mansão, cobrindo colinas inteiras com uma iluminação cênica impecável e milimetricamente planejada. O vinhedo dele era o puro suco do luxo ostentativo: fontes de mármore esculpido, garçons servindo safras raríssimas em taças de cristal lapidado e uma multidão de empresários, banqueiros, políticos e especuladores de mercado — o tipo exato de gente superficial e nojenta que Mavie claramente desprezava à primeira vista.No carro, o silêncio entre minha mãe e Catalina tinha sido constrangedor, quase insuportável. Dona Cecília e minha irmã ainda se sentiam profundamente culpadas pelo desastre de mais cedo no quarto, quando tiveram a infeliz e desastrosa ideia de oferecer a Mavie o







