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Capítulo 3

Author: DhaSantana
last update publish date: 2026-09-13 20:41:37

Mavie Castelhano

Às vezes eu tinha a impressão de que aquele dia na capela havia acontecido em outra vida. Uma vida que pertencia a uma mulher que eu mal reconhecia.

Aquela Mavie acreditava em promessas, que acreditava em casamento, e que o homem que dizia amar jamais seria capaz de abandonar diante de todos os seus convidados.

Dois anos se passaram, e as coisas não melhoram.

Estou a caminho da editora, mas as palavras do médico ainda ecoam na minha cabeça. Meu filho tem um diagnóstico de problema cardíaco desde o nascimento, e ele acabou de desmaiar novamente. Ele precisa urgentemente de uma cirurgia e, se eu não conseguir reunir o dinheiro a tempo, meu menino irá correr sérios riscos de vida.

Cheguei à editora, eu precisava mais do que nunca trabalhar. Entrei no prédio com a cabeça cheia de números. Eu encontraria uma maneira, sempre encontrava.

Talvez pudesse fazer horas extras, pedisse um empréstimo, ou vendesse algumas coisas.

As portas do elevador abriram no meu andar, e eu percebi imediatamente que havia alguma coisa errada.

O corredor estava silencioso demais, pessoas se aglomeram perto da recepção. Algumas choravam. Outras seguravam caixas. Uma mulher que trabalhava comigo há seis anos carregava uma planta dentro de uma caixa de papelão.

— O que aconteceu? - Ela me olhou.

— Você ainda não sabe?

— Saber o quê? - Ela desviou os olhos.

Caminhei rapidamente até minha mesa, havia um envelope sobre ela. Meu nome estava impresso naquele papel.

Eu abri com as mãos trêmulas. Li uma vez. Não entendi. Li novamente, e uma terceira.

Demissão. Uma única palavra que acabava com o meu mundo. Meu coração começou a bater violentamente no peito.

— Não. - Olhei ao redor.

— Não, não, não... - Uma colega se aproximou.

— Mavie...

— Eles não podem fazer isso! - Disse sentindo tudo ao meu redor desabando. - Não podem...

Voltei para casa porque precisava pensar o que faria a partir de agora. A pasta da editora ainda estava dentro da minha bolsa, retirei os documentos. Espalhei tudo sobre a mesa como se fosse me dar uma resposta que precisava.

Contrato, comunicado de reestruturação, aviso de demissão...

E então parei.

Havia um nome no topo daquela burocracia que tinha tirado minha segurança. O nome do novo proprietário.

Sérgio Ramos.

Meu coração não mudou de ritmo, não havia razão para mudar. Eu não conhecia aquele homem, pelo menos era isso que pensei. Peguei o celular em um movimento rápido. Digitei o nome no G****e, precisava saber quem estava mexendo em algo que era a única certeza na minha vida.

A primeira imagem apareceu. Fiquei imóvel. Um homem mais velho, elegante, terno escuro como a noite, expressão séria. A vida dele estava ali para quem quisesse ver. Entrevistas, fotografias, empresas, aquisições, patrimônio... E então percebi.

O homem responsável pela compra da editora. Meu carrasco, e de muitos. Soltei uma risada amarga.

— Claro.

Como poderia ser diferente? Um bilionário. Um homem que provavelmente nem sabia quantas pessoas trabalhavam naquela editora.

Para ele, demitir centenas de funcionários devia ser apenas uma linha em uma planilha. Uma redução de custos, decisão empresarial, um recomeço limpo. Para mim, significava o hospital do meu filho.

Continuei pesquisando.

Foi quando encontrei a informação importante, um evento de gala. Naquela noite. Sérgio Ramos estaria presente, ele era a estrela principal.

O evento reuniria empresários, investidores, jornalistas e nomes importantes da sociedade espanhola.

Olhei para o relógio. Ainda havia tempo. Meu primeiro pensamento foi absurdo.

Eu poderia ir.

Meu segundo pensamento foi ainda pior.

Eu poderia falar com ele.

Fiquei olhando para a tela.

Eu não tinha convite, e muito menos conhecia alguém que pudesse me ajudar com isso.

Não tinha dinheiro para comprar um vestido novo. Não tinha sequer certeza de que conseguiria chegar perto daquele homem, mas eu tinha uma coisa.

Meu trabalho.

Minha competência.

Durante anos, eu havia trabalhado naquela editora. Eu conhecia os projetos, conhecia os números. Sabia quais autores estavam prestes a ser lançados, quais contratos tinham potencial, quais erros a nova administração estava prestes a cometer. Eu tinha informações que poderiam provar meu valor. Talvez ele não precisasse de mais funcionários, mas precisava de resultados.

E eu podia oferecer resultados.

— Eu vou conseguir.

Abri o guarda-roupa, não havia vestidos de gala. Nunca tive isso, imagina agora que precisava ainda mais de dinheiro?

Dois vestidos baratos que eu usava em ocasiões especiais, e escolhi o menos gasto. Ele era preto, simples, ajustei a cintura.

Prendi o cabelo, passei uma maquiagem discreta. Não parecia uma mulher rica, nem de longe.

Não parecia pertencer àquele mundo, mas não precisava.

Eu não estava indo para ser admirada, estava indo para lutar. Peguei minha pasta. Coloquei dentro dela meu currículo, alguns relatórios antigos e uma apresentação que eu havia preparado meses antes sobre a expansão digital da editora.

Talvez eu sequer conseguisse passar pela porta.

No entanto, ficar em casa significava aceitar, e eu não podia aceitar. Peguei o celular. Olhei novamente para o nome, a foto daquele que eu tinha que convencer de não me mandar embora. Enfiei os documentos na bolsa.

Desci as escadas, a cada degrau, meu coração batia mais forte. Quando cheguei à rua, olhei para o céu escuro.

Eu não tinha dinheiro, não tinha contatos, não tinha influência, não tinha marido, não tinha família para me socorrer aqui e Sevilha.

Tinha apenas um filho doente e um emprego que precisava recuperar. Então agarrei a única oportunidade que apareceu.

Naquela noite, eu invadiria uma gala de bilionários, entraria naquele lugar sem convite. Encontraria Sérgio Ramos. E faria aquele homem entender que demitir Mavie Castelhano tinha sido um erro.

Porque eu não estava pedindo caridade. Eu estava oferecendo aquilo que sabia fazer.

Trabalho.

Competência.

Resultado.

E, se precisasse atravessar uma sala inteira de pessoas ricas para chegar até ele, eu atravessaria.

Porque, quando uma mãe não tem mais nada a perder, o medo deixa de ser um obstáculo.

Ele se transforma em coragem.

E naquela noite eu estava prestes a descobrir até onde a minha coragem seria capaz de me levar.

Eu sabia que não conseguiria entrar pela porta principal.

Ali, dois seguranças vestidos de preto controlavam cuidadosamente cada convidado. Pediam convites, conferiam nomes em tablets e barravam qualquer pessoa que não estivesse na lista. E com toda certeza eu não estava naquela lista. Por isso, dei a volta pelo quarteirão até encontrar a entrada de serviço do hotel.

Meu antigo crachá da editora ainda estava dentro da bolsa.

Eu o segurei entre os dedos enquanto me aproximava.

— Boa noite — cumprimentei o funcionário responsável pela entrada.

Mostrei o crachá rapidamente, mantendo o rosto sério.

Ele olhou para a identificação, depois para mim.

— Imprensa?

— Equipe editorial. - Não era exatamente uma mentira.

Pelo menos ainda não, ele aproximou o crachá do leitor.

A luz ficou verde.

Meu coração quase parou.

Eu tinha esquecido que, apesar da demissão, meu acesso ainda não havia sido desativado.

— Pode entrar.

— Obrigada. - Atravessei a porta antes que ele pudesse fazer outra pergunta.

Assim que entrei no corredor de serviço, meu coração começou a bater tão forte que tive medo de que alguém pudesse ouvir. Segui as placas até encontrar uma porta que dava acesso ao salão principal. Parei diante dela.

Do outro lado, eu conseguia ouvir a música, as vozes e o tilintar das taças. Respirei fundo. Se descobrissem que eu havia entrado escondida, provavelmente seria expulsa imediatamente. Mas eu não tinha vindo até ali para desistir na porta.

Pensei em Miguel. Naquele pequeno coração que precisava de uma cirurgia que eu não podia pagar. Então empurrei a porta. O luxo do salão me atingiu de uma vez.

Por alguns segundos, fiquei parada, tentando parecer como se pertencesse àquele lugar. Ninguém precisava saber que meu coração estava prestes a sair pela boca. Apertei a pasta contra o corpo e comecei a caminhar. Eu só precisava encontrar Sérgio Ramos.

E conseguir cinco minutos...

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