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A chuva caía fina sobre o morro, como sempre fazia àquela hora da madrugada, lavando o concreto rachado e o sangue que, de vez em quando, ainda marcava as vielas. Ricardo Azevedo Brum estava de pé na laje da casa mais alta da comunidade, um sobrado reforçado com grades de ferro e com câmeras que vigiavam cada esquina. O vento frio batia no seu rosto marcado, cicatrizes antigas misturadas às novas. Aos quarenta e um anos, era o Chefão resoluto. O homem que mandava em Paraisópolis como se o lugar tivesse nascido para ser seu império de dor e de ordem.
Embaixo, as luzes amarelas dos postes tremulavam. O som distante de um funk abafado chegava, misturado ao choro de uma criança e ao latido de um cão. Ricardo acendeu um cigarro, tragou devagar. Seus olhos, antes azuis e vivos, agora pareciam duas pedras frias. Ricardo não sorria havia anos. Quando sorria, era um gesto calculado, para acalmar ou para ameaçar. Alguém bateu de leve na porta de ferro atrás. — Chefe, o moleque novo tá falando demais lá embaixo... — o homem sabia que daria encrenca. — Tá perguntando da Beatriz. O nome cortou o ar como faca quente. Ricardo não se virou de imediato. Fechou os olhos azuis e, por um segundo, o mundo desapareceu. Ricardo estava de novo com vinte e poucos anos, dentro do carro escuro, o celular grudado na orelha. — O preço já foi pago, mano... Beatriz... — o nome soou relativamente frio. — Rua das Acácias, 87... Vai logo... A voz do outro lado era calma, quase debochada. Ricardo pisou fundo no acelerador. O coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta. Beatriz não atendia o telefone desde a tarde. Tinha saído para visitar a mãe, como sempre fazia nas quartas. Grávida de três semanas. Ninguém sabia ainda. Ninguém tinha certeza absoluta, nem Ricardo tinha conhecimento naquela altura, e quando soube, seu mundo ruiu. Tinha visto o brilho diferente nos olhos castanhos de Beatriz de manhã. Ricardo chegou ao endereço — um terreno baldio nos limites de Paraisópolis, perto de onde a favela encontrava a marginal. O carro de Beatriz estava lá, porta aberta, faróis ainda acesos. Ricardo saltou antes mesmo de frear completamente. As pernas tremiam. O cheiro de sangue chegou primeiro, metálico, doce demais. Depois a imagem. Beatriz estava caída sobre o banco traseiro, o corpo nu, marcado por cortes profundos. O rosto — aquele rosto que amava desde os treze anos — estava irreconhecível de tanto espancamento. Os cabelos longos, sempre cheirosos de shampoo de rosas, colados no sangue seco. A barriga ainda pequena, quase imperceptível, tinha um corte vertical. Como se alguém quisesse ter certeza de que nada ali sobreviveria. Ricardo caiu de joelhos no asfalto molhado. Um grito rouco saiu da sua garganta, animal, sem palavras. As mãos tremiam quando tocou o corpo frio. Já estava rígida. Horas. Horas de tortura, de violações, de dor que nem conseguia imaginar. E não estivera lá. Não a protegera. — Beatriz... Meu amor... — a voz falhou, então puxou-a para os braços, embalando-a como se ainda pudesse aquecê-la, as lágrimas vieram quentes, misturadas à chuva. — Eu tô aqui... Tô aqui agora... Perdoa... Perdoa eu... Não havia mais nada para perdoar. Só silêncio. O silêncio mais cruel que já conhecera. Ricardo ficou ali por quase uma hora, até os primeiros raios de luz. Quando os guardas particulares que mantinha na época chegaram, encontraram o homem que sempre fora controlado, educado, filho de uma família rica de cosméticos, ajoelhado num mar de sangue, cantando baixinho a música que Beatriz gostava de ouvir no carro. A partir daquele dia, Ricardo Azevedo Brum morreu junto com Beatriz. Ricardo e Caio eram primos de primeiro grau, ambos herdeiros do império Azevedo Brum, uma rede de fábricas de cosméticos que se espalhava pelo Brasil e pela América Latina. Cresceram juntos, disputaram tudo desde a infância — brinquedos, atenção da família, e, mais tarde, o coração de Beatriz, a prima linda e doce que unia os dois ramos da família. Caio, sempre mais impulsivo e invejoso, perdeu Beatriz para Ricardo quando os dois tinham apenas dezesseis anos. O casamento discreto selou a derrota. A partir dali, Caio se desencaminhou de vez, mergulhou no mundo do crime, abandonou a herança, as boas maneiras e o sobrenome limpo. Tempos depois, reapareceu como o Chefão de Paraisópolis, um traficante cruel e ambicioso que transformou a favela em seu reino particular. O ódio antigo, guardado como brasa sob cinzas, finalmente encontrou combustível na inveja e na sede de vingança. Matar Beatriz não foi apenas um acerto de contas, foi o golpe final contra o primo Ricardo que, na visão distorcida de Caio, havia roubado tudo o que lhe era de direito. Assim, Ricardo juntou o que restava do dinheiro da família, vendeu ações das fábricas que ainda estavam em seu nome, hipotecou tudo. Contratou os piores que o dinheiro podia comprar, ex-militares, mercenários paraguaios, matadores de aluguel que não faziam perguntas. Pagou em dólares, em ouro, em promessas de poder. — Eu quero Paraisópolis... — disse Ricardo, na sala escura de um galpão abandonado, a voz sem emoção. — Quero Caio vivo... O resto, queima tudo... A invasão foi brutal. Três noites de tiroteio, facadas, gritos. Caio, que já se chamava de Chefão da favela, fugiu como rato. Ricardo tomou conta. Matou quem precisava matar. Poupou quem jurou lealdade. E impôs as regras. Regras rígidas. Ninguém tocava em mulher ou criança. Ninguém vendia droga perto de escola. Quem roubasse dentro da comunidade perdia a mão. Quem matasse sem ordem dele perdia a vida. O povo do morro temia-o muito, mas também respeitava-o como nunca. Porque com Ricardo no comando, o tráfico era controlado, a violência era dirigida, e o PCC, depois de anos de guerra fria, acabou aceitando o novo arranjo. Ricardo era útil. Ricardo frio. Era implacável. Anos se passaram. Caio reapareceu em Heliópolis, mais forte, mais cruel. Tomou conta de lá como um câncer. Ricardo sabia. Observava. Esperava o momento certo.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







