تسجيل الدخولAgora, na laje, o homem que bateu na porta esperava resposta. Ricardo virou-se devagar. A cicatriz que descia do olho esquerdo até o canto da boca ficou mais evidente sob a luz fraca.
— Traz o cara aqui... — Ricardo começou. — Vamos ver uma coisa... O rapaz foi trazido minutos depois. Jovem, uns dezenove anos, olhos castanhos arregalados de medo. Estava tremendo. — Chefe Demônio Branco... — o moleque começou. — Eu só... Eu só ouvi falar que sua mulher... Ricardo deu dois passos e segurou o pescoço do moleque com uma mão só. Não apertou forte o suficiente para matar. Só o suficiente para lembrar quem mandava. — Beatriz não é assunto pra boca suja sua. — Ricardo iniciou. — Entendeu? O garoto assentiu, lágrimas escorrendo. — Beatriz era minha... Era tudo... E tiraram de mim do jeito mais sujo que um homem pode imaginar... Torturaram... Violaram... Mataram meu filho que nem tinha nascido ainda... — Ricardo engoliu em seco. — E o filho da puta que fez isso ainda respira em Heliópolis... Ricardo soltou o pescoço. O jovem caiu de joelhos, tossindo. — Levanta... — Ricardo disse, cheio de raiva. — E espalha isso, que quem falar o nome de Beatriz sem meu consentimento, vai descobrir por que me chamam de Demônio Branco... O garoto saiu correndo. Ricardo voltou para a mureta da laje. A chuva aumentou. Fechou os olhos azuis novamente. Lembrou do cheiro do shampoo de rosas. Do riso de Beatriz quando e rodopiava-a na cozinha da casa antiga, antes de tudo desabar. Lembrou dos dezesseis anos, do casamento escondido que a família quase não aceitou, do jeito que Beatriz olhava como se o mundo inteiro coubesse nos seus olhos azuis. — Eu nunca aceitei, Bia... — murmurou para a noite. — Nunca aceitei que você se foi... E enquanto eu respirar, esse morro vai ser meu... E um dia... Um dia, eu vou terminar o que comecei... Ricardo abriu os olhos azuis. Lá embaixo, as luzes da favela pareciam estrelas caídas. Paraisópolis era seu. Mas não bastava. Nada nunca bastaria. Ricardo Azevedo Brum apagou o cigarro na sola da bota e desceu as escadas de ferro. O morro dormia inquieto. E o Chefão, como sempre, não dormia. A madrugada ainda não havia rendido lugar à manhã quando Ricardo desceu da laje. O colete à prova de balas pesava sobre o peito, mas era quase um abraço familiar. Dois homens armados acompanhavam-no em silêncio, Zé Careca e Bigode, fiéis desde a invasão. As ruas estreitas de Paraisópolis despertavam devagar, o cheiro de pão fresco misturava-se ao fedor de esgoto aberto, o choro de um bebê ecoava entre as paredes de tijolos à vista. Ricardo andava com passos firmes, mas não apressados. Seus olhos azuis varriam cada sombra, cada beco. Ricardo não era mais o jovem herdeiro das fábricas de cosméticos dos Azevedo Brum. Era o Demônio Branco. O homem que transformara sangue em ordem. Na primeira esquina, uma mulher magra, de uns trinta e poucos anos, esperava com um menino pequeno no colo. Os olhos castanhos estavam vermelhos de choro. — Seu Ricardo... — murmurou, aproximando-se com respeito. — É o meu marido... Sumiu ontem depois da boca... Disseram que brigou com um dos seus soldados por causa de uma dívida pequena... Ricardo parou. O menino encarava-o com medo e curiosidade. Ricardo se abaixou ligeiramente, nivelando o olhar azulado com o olhar castanho da mulher. — Qual é o nome dele, dona Maria? — perguntou, direto. — Pode me dizer.... — Jorge... Jorge da birosca... — a mulher explicou. — Nunca se meteu em encrenca grande, seu Ricardo... Juro pela alma da minha mãe. O Chefão Demônio Branco fez um sinal discreto para Zé Careca. O homem anotou o nome num celular. — Vou mandar verificar... Se não matou ninguém, não roubou da comunidade, volta pra casa até o fim do dia... — Ricardo deixaria claro. — Mas avisa, dívida se paga trabalhando, não fugindo... Entendeu? A mulher assentiu, lágrimas escorrendo. Segurou a mão de Ricardo por um segundo, gesto raro. — Deus te abençoe, seu Ricardo... — a mulher beijou sua mão, num gesto de apreco. — O senhor é duro, mas é justo... Sem o senhor aqui... a gente já tinha virado comida de rato... Ricardo não respondeu. Apenas acenou com a cabeça e continuou a ronda. Por dentro, o peito doía. *Deus*. A palavra que Ricardo evitava. Depois de Beatriz, Deus tinha virado um silêncio incômodo, uma ausência que doía mais que qualquer bala. Mais adiante, na praça improvisada onde as crianças jogavam bola de gude à luz dos postes, um idoso chamou-o ao se aproximar. — Chefe, a infiltração na casa da Dona Lourdes tá feia... A chuva de ontem piorou... — o homem explicou. — A velha tá tossindo sangue, mas não quer sair... Diz que nasceu aqui e morre aqui... Ricardo olhou para o morro que subia, as casas empilhadas como caixas de fósforo. Paraisópolis era seu. Cada tijolo, cada telha. Havia pagado com a alma para conquistar aquilo. — Manda o pessoal da obra reforçar a casa hoje mesmo... — Ricardo persistiu. — E leva Dona Lourdes pro posto médico... Se resistir, carrega no colo... Ninguém morre de infiltração enquanto eu mandar aqui... O idoso sorriu, dentes faltando. — O senhor mudou tudo, seu Ricardo... Antes era só tiro, morte, estupro... Agora a gente consegue dormir... As meninas andam sem medo até tarde... Ricardo sentiu o peso das palavras. Sim, havia mudado tudo. Mas o preço fora alto demais. Ricardo se transformara no monstro necessário para proteger o que restava de humanidade no morro. Regras rígidas. Justiça própria. Uma espécie de paz armada. — Chefe, tem movimento estranho em Heliópolis... — enquanto subiam uma viela mais íngreme, Bigode falou baixo. — Caio tá recrutando mais gente... Dizem que anda falando do senhor... Chamando de traidor da família... O nome “Caio” acendeu um fogo lento no peito de Ricardo. Parou no meio da escada, mão no corrimão improvisado. A memória veio como sempre vinha, Beatriz no banco traseiro, o corpo frio, o corte na barriga. O cheiro de sangue. A ligação fria, “O preço já foi pago”. Ricardo fechou os olhos azuis por um segundo. A chuva fina recomeçava.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







