تسجيل الدخول— Caio vai pagar... — murmurou Ricardo, voz rouca. — Mas não hoje... Heliópolis não é Paraisópolis... Mexer lá direto é declarar guerra aberta com o PCC inteiro, com os outros morros, com polícia que finge que não vê... Preciso de estratégia... Aliados... Tempo... Caio acha que tá seguro lá... Vai continuar achando... Até o dia que eu decidir que não tá mais...
Bigode assentiu, sem insistir. Todos sabiam: a vingança de Ricardo não era esquecida. Era cultivada como uma planta venenosa, lenta e letal. Continuaram a ronda. Em uma boca de fumo discreta, dois jovens soldados se endireitaram ao vê-lo chegar. Um, nervoso, entregou o relatório da noite. — Tudo tranquilo, Chefe... — o homem disse. — Só um cliente que quis passar a perna... Já resolvemos... Ricardo olhou para o rapaz. Tinha no máximo dezessete anos. — Resolvido como? — quis saber. — Poderia me explicar? — Demos um susto. — o homem engoliu em seco. — Nada grave. — Ótimo... — Ricardo suspirou. — Mas se eu descobrir que bateram em mulher ou em criança por causa disso, quem vai levar surra são vocês pra ver quem é que manda... Entenderam? — Sim, chefe... — o rapaz assentiu. — Pode deixar... Ricardo seguiu. As pessoas saíam de casa ao ouvi-lo passar. Algumas traziam pedidos, remédio para um filho doente, vaga no time de futebol da comunidade que mantinha para tirar moleques da rua, ajuda para enterrar um tio que morreu de câncer. Ricardo ouvia cada um. Decidia na hora. Às vezes mandava Zé Careca anotar. Nunca prometia o que não podia cumprir. Em uma casa simples, uma jovem grávida esperava-o na porta. Lembrava Beatriz de um jeito que doeu. — Seu Ricardo, o pai da criança sumiu... — a moça explicou. — Tô sozinha... A barriga tá grande e eu não tenho nem pra comer direito... Ricardo parou. Olhou para a barriga da garota. Três semanas. Era o que Beatriz tinha quando... A tristeza subiu como bile. Engoliu seco. — Bigode, leva a menina pro centro de apoio... — Ricardo tentou não pensar muito na própria desgraça. — Fala que é por minha conta... Alimentação, pré-natal, tudo... E arruma um trabalho leve na loja de cosméticos que a gente mantém aqui embaixo... — Obrigada... — a jovem começou a chorar. — O senhor salvou minha vida... — Cuida dessa criança... Que não cresça sem pai como tantos aqui... — Ricardo tocou de leve no ombro da moça, gesto quase paternal. — E se alguém te incomodar, meu nome tá na porta... Enquanto desciam, a tensão não abandonava-o nunca. Paraisópolis vivia pelas suas regras, sim. As pessoas podiam contar. Ricardo protegia o povo como não conseguira proteger Beatriz. Era sua penitência. Sua maldição. O império que construíra sobre sangue e perda. Mas à noite, sozinho na laje, o vazio voltava. Ricardo olhava para as luzes de Heliópolis ao longe, um brilho distante e hostil. Caio estava lá. Vivo. Rindo, provavelmente. Chefão de outro morro, cercado de gente que não sabia, ou não se importava, do preço que havia cobrado anos atrás. Ricardo apertou o punho até os nós dos dedos ficarem brancos. — Um dia, primo Caio... — sussurrou para o vento. — Um dia eu vou te fazer sentir cada corte que você deu no meu amor. Cada segundo que sofreu... E quando você implorar, eu vou lembrar da sua cara quando perdeu Beatriz pra mim há tantos anos... E vou sorrir... A chuva caía mais forte agora. Ricardo não se mexeu. O morro dormia pela sua vigilância. As pessoas confiavam em sua pessoa. Mas Ricardo Azevedo Brum sabia a verdade, por dentro, ainda era aquele homem ajoelhado no asfalto, segurando o corpo frio da mulher que amara desde os dezesseis anos. E nada, nem poder, nem regras, nem o medo que impunha, jamais traria Beatriz de volta.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







