LOGINA tarde caía devagar sobre o apartamento de Aline na Zona Sul, em Higienópolis. O céu estava nublado, daquele jeito cinzento que prometia chuva mais tarde, e o ar-condicionado mantinha a sala num fresco artificial. O cheiro de café passado ainda pairava na cozinha, misturado ao perfume doce que Aline usava demais. Joice Azevedo Brum estava sentada no sofá de couro bege, as pernas dobradas sob o corpo, o celular apoiado no joelho. Rolava o feed sem realmente ver as imagens. Não pensava em festa. Não pensava em baile. Não pensava em nada além de terminar o dia em silêncio e voltar para o apartamento da família antes que a noite ficasse pesada demais.
Aline, ao lado dela, mexia no próprio celular com um sorriso bobo colado no rosto. De vez em quando soltava uma risadinha baixa, digitava rápido e depois olhava para a tela como se esperasse uma resposta que valesse ouro. — Ele já tá quase chegando... — comentou, sem tirar os olhos castanhos do aparelho. — Vai me buscar pra gente sair um pouco... Nada demais... Só um jantar e depois a gente vê... Joice ergueu o olhar, curiosa, mas sem interesse real. — Qual é o nome desse de novo? — Joice perguntou mais por educação. — É alguém especial? — Ronaldo... Te falei semana passada... — Aline respondeu. — Trabalha com uns caras… Mais pesados... Mas comigo é gente boa... Não se preocupa... Joice apenas assentiu. Não gostava quando Aline se envolvia com homens desse tipo. Já tinha visto demais o que “caras pesados” eram capazes de fazer. Mas aprendera, com o tempo, que discutir com a amiga só gerava briga e silêncio. Então ficou quieta, voltando a atenção para o celular. O apartamento estava calmo. Só o som baixo da televisão ligada em algum canal de notícias ao fundo e o barulho distante do trânsito lá embaixo. Quando a campainha tocou, Aline se levantou rápido demais, arrumando os cabelos castanhos com as mãos delicadas e puxando a blusa para baixo, como se quisesse parecer mais arrumada do que estava. — Já volto... — Aline disse. — Preciso atender... Joice nem se mexeu. Continuou sentada, o corpo relaxado contra as almofadas, os dedos longos deslizando pela tela. Ouviu a porta se abrir, a voz animada de Aline cumprimentando alguém, e depois passos pesados entrando na sala. Passos de homem. Passos de quem não pedia licença com o corpo. Foi quando Joice ergueu o rosto simétrico. O homem que entrou atrás de Aline era alto, de ombros largos, camisa preta justa e um olhar que varria o ambiente como quem estava acostumado a avaliar riscos em segundos. Ronaldo. Um dos homens de Ricardo Azevedo Brum. Não era dos mais altos na hierarquia do morro, mas era o tipo que resolvia problemas sem fazer muita pergunta. O tipo que sabia quando calar a boca e quando abrir. O tipo que carregava o nome do Chefe como uma arma invisível. Assim que seus olhos encontraram Joice, algo mudou no ar. O sorriso educado que Ronaldo carregava no rosto sumiu por um segundo inteiro. Os olhos azuis se estreitaram. Ronaldo encarou-a com uma intensidade que fez o ambiente ficar mais pesado, como se a temperatura tivesse caído alguns graus. Não era só desejo. Era reconhecimento. Era cálculo. Era a expressão de alguém que acabara de ver uma oportunidade e já estava medindo seu tamanho. Joice sentiu o desconforto subir pela espinha como um formigamento frio. Ajustou a postura no sofá, cruzando os braços sem perceber. O olhar de Ronaldo era direto demais, demorado demais. Não era o olhar de alguém que via uma mulher qualquer. Era o olhar de alguém que via algo valioso. — Oi... — disse Ronaldo, a voz mais baixa e rouca do que o necessário. — Você deve ser a Joice... Aline riu, completamente alheia à tensão que acabara de se instalar na sala. — Sim... — Aline comentou. — A famosa da propaganda... Joice, esse é o Ronaldo... Joice apenas acenou com a cabeça, educada, mas fria. — Oi... — Joice tentou parecer desinteressada. — Tudo bem? Ronaldo não desviou o olhar. Continuou parado no meio da sala, como se estivesse medindo cada detalhe: O cabelo longo e ondulado caindo sobre os ombros delicados, o rosto idêntico ao de uma mulher morta há anos, a postura retraída, a ausência de qualquer segurança visível no apartamento. Seus olhos azuis percorreram a sala rapidamente — portas, janelas, possíveis saídas, a falta de câmeras aparentes — e voltaram para Joice com uma lentidão deliberada. Havia uma ideia se formando atrás daqueles olhos azuis. Uma ideia perigosa. Aline continuou falando, animada, contando alguma coisa sobre o restaurante para onde iriam, sobre o trânsito, sobre como estava com fome. Ronaldo respondia com monossílabos, mas a atenção não estava na conversa. Estava na jovem sentada no sofá. Na semelhança absurda. No valor que aquele rosto podia ter nas mãos certas. Ou nas mãos erradas. Joice sentiu o peso do olhar como se fosse físico. Levantou-se, desconfortável, precisando se afastar daquele escrutínio. — Vou buscar uma água... — murmurou, saindo em direção à cozinha só para sair dali, só para respirar. — Volto logo... Enquanto Joice se afastava, Ronaldo ficou olhando suas costas delicadas. O jeito de andar. A curva do pescoço. A forma como o cabelo se movia a cada passo. Tudo gritava Beatriz, e ao mesmo tempo, era outra pessoa. Mais jovem. Mais viva. Mais acessível. Mais desprotegida. Aline tocou no braço de Ronaldo, puxando-lhe a atenção. — Ei! — Aline questionou. — Você tá estranho! Ronaldo piscou, forçando um sorriso que não chegou aos olhos azuis. — Tô de boa... — Ronaldo disfarçou. — Só não esperava ver essa garota aqui... — Por quê? — Aline franziu o cenho. — Todo mundo conhece a Joice... É o rosto da marca... Ronaldo não respondeu. Apenas ficou ali, de pé, enquanto a ideia continuava a se solidificar na cabeça com uma clareza quase cruel. Uma ideia que, se desse certo, podia mudar muita coisa. Uma ideia que envolvia o Chefe. Envolvia dinheiro. Envolvia risco. Envolvia o nome Azevedo Brum de um jeito que ninguém no morro ainda tinha ousado. E envolvia aquela menina de olhos castanhos que agora voltava da cozinha com um copo d’água na mão, alheia ao perigo que acabara de entrar na sala. O silêncio ficou tenso por alguns segundos. Ronaldo ainda não tinha se mexido para sair. Continuava ali, no meio do apartamento, olhando Joice como quem olha uma peça rara que acabara de cair no tabuleiro. A respiração estava controlada, mas havia uma agitação contida nos ombros, um cálculo acontecendo em tempo real atrás daquelas pupilas escuras. Joice sentou-se novamente, desta vez mais reta, mais alertada. Não gostava da forma como aquele homem observava-a tanto. Não gostava do silêncio que Ronaldo carregava. Não gostava da sensação de que algo estava sendo decidido sem que soubesse. Aline, ainda alheia, pegou a bolsa e começou a se arrumar perto do espelho da sala, falando sozinha sobre o que ia pedir no restaurante. Ronaldo não a acompanhou com o olhar. Continuou fixo em Joice. A ideia já estava clara por dentro. Clara, perigosa e completa. Só faltava decidir o momento certo de usá-la. E, por enquanto, ainda não tinha saído.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







