MasukO dia seguinte amanheceu cinzento sobre Paraisópolis. A chuva fina da noite anterior deixara as ruas escorregadias e o ar mais pesado. Ricardo Azevedo Brum acordou sozinho na cama grande, o lençol ainda com o cheiro de sexo e perfume barato de Larissa. Se levantou nu, o corpo marcado por arranhões recentes, e tomou um banho longo e quente, como se pudesse lavar não só o suor, mas também a culpa que sempre sobrava depois.
Vestiu uma camisa preta justa e calça tática, desceu para o escritório improvisado no segundo andar do sobrado. O cômodo era simples, mas funcional: mesa de madeira escura, computadores, paredes cobertas por mapas do morro e algumas fotos antigas escondidas numa gaveta trancada. Às nove e meia em ponto, o investigador particular bateu na porta. Era um homem magro, de uns cinquenta anos, chamado Milton, ex-policial que Ricardo pagava generosamente para manter olhos discretos fora do morro. — Bom dia, Chefe... — Milton disse. — Trouxe o que pediu... Milton colocou um envelope pardo grosso sobre a mesa. Ricardo abriu sem pressa. Dentro, dezenas de fotos impressas em alta qualidade. Todas de Joice Azevedo Brum. Ricardo sentiu o ar faltar por um segundo. Joice tinha vinte anos agora. Era a cópia viva de Beatriz. Os mesmos cabelos longos e ondulados, castanhos com reflexos dourados de luzes. Os mesmos olhos grandes e expressivos, cor de mel. O mesmo formato do rosto, o nariz delicado, os lábios carnudos que, quando sorriam, pareciam iluminar o ambiente. O corpo também era parecido: magra, mas com curvas suaves e elegantes, pele clara e postura quase aristocrática. Nas fotos do evento social importante — um grande lançamento da linha de cosméticos da família Azevedo Brum num hotel de luxo na Zona Sul —, Joice era a convidada especial. Vestia um longo preto tomara-que-caia que valorizava os ombros delicados e o colo. Sorria para as câmeras com profissionalismo, mas Ricardo notou a melancolia sutil nos olhos castanhos. Joice era a nova garota-propaganda da marca. O rosto da família que tentava se reconstruir após os escândalos e as perdas. Ricardo folheou as fotos devagar, os dedos longos tremendo levemente. Melancolia invadiu seu peito como uma onda quente e dolorosa. Ricardo se lembrava de Beatriz quase com a mesma idade, tímida, virgem, entregando-se numa noite de chuva parecida com a pancada de ontem. O jeito como Joice tremia de nervoso e desejo. Como sussurrava “eu te amo” enquanto entrava pela primeira vez, devagar, com cuidado. — Joice tá limpa... — disse Milton, quebrando o silêncio. — Não namora ninguém... Vida extremamente discreta... Poucas festas, quase nenhuma exposição desnecessária... Estuda administração à distância e representa a empresa... Provavelmente ainda virgem, ou muito próxima disso... Os seguranças da família são rígidos... Ricardo sentiu um calor cru subir pela virilha. A ideia de Joice virgem, tão parecida com Beatriz, mexia com algo primitivo dentro de si mesmo. Era errado. Doentio. Mas era real. Ricardo acompanhava a jovem nas redes sociais havia meses, em perfis falsos. Via os stories cuidadosos, as fotos profissionais, os raros momentos em que aparecia mais relaxada. Nunca um namorado. Nunca escândalos. Quando Milton saiu, Ricardo trancou a porta do escritório. Sentou-se na cadeira de couro e abriu o notebook. O I*******m de Joice carregou na tela. Ele rolou as fotos lentamente, ampliando cada uma. Ali estava Joice, sorrindo num evento. Ali, posando com os novos cremes e perfumes da marca. Ali, uma foto mais antiga, de perfil, olhando para o mar. Cada detalhe transportava-o de volta. Beatriz... A nostalgia sufocava-o como nunca. Ricardo se lembrava do cheiro de Beatriz, do gosto dos beijos inocentes, do jeito como corava quando tocava-a nos pontos certos. Joice era como um fantasma de carne e osso. Uma segunda chance cruel do destino. Ou uma tentação perigosa. Ricardo sentiu o pau endurecer dentro da calça só de olhar as fotos. Era uma excitação misturada a dor profunda. Ele imaginou Joice nua, tímida como Beatriz fora, abrindo as pernas para sua pessoa. Imaginou o corpo de Joice tremendo debaixo do seu, os mesmos gemidos suaves, o mesmo olhar de entrega total. Pensou em como seria tirar a virgindade de Joice, devagar, sussurrando o nome de Beatriz no escuro. — Porra... — murmurou, passando a mão pelo rosto. — Deus, eu tô ficando maluco... Ricardo sabia que era obsessão. Sabia que era doentio se aproximar da irmã caçula da mulher que Caio havia destruído. A família Azevedo Brum já o via como um pária, o viúvo que virou bandido. Se descobrissem que rondava Joice, seria guerra declarada. Mas o desejo cru falava mais alto. Ricardo abriu outra pasta no computador. Mais fotos que Milton havia enviado ao longo dos meses. Joice na faculdade, Joice correndo na praia ao amanhecer, Joice rindo com amigas em um café. Em todas, a semelhança era assustadora. O mesmo jeito de inclinar a cabeça. O mesmo sorriso que fazia o peito doer. Ricardo se recostou na cadeira, abrindo o zíper da calça devagar. Pegou o pau duro na mão e começou a se estimular lentamente, olhando as fotos. Era cru. Era sujo. Mas era honesto. Pensou em Beatriz na primeira vez. No sangue leve nos lençóis. No jeito como mordeu o lábio inferior para não gritar. Pensou em Joice, provavelmente intocada, reservada para alguém. E imaginou ser esse alguém. Os movimentos da mão ficaram mais rápidos. A respiração pesada. Ele olhava fixamente para uma foto onde Joice aparecia de vestido curto, pernas longas e torneadas. Imaginou aquelas pernas ao redor da sua cintura. Imaginou o cheiro de Joice — o mesmo de Beatriz. Gozo forte veio rápido, sujando sua mão e a borda da mesa. Ricardo soltou um gemido rouco, quase um soluço. Depois ficou ali, ofegante, olhando o teto. A culpa veio em seguida, como sempre. Beatriz estava morta. Assassinada. Profanada. E estava ali, fantasiando com a irmã caçula da esposa morta. O que restava da família. A única ligação viva com o passado que perdera. Mas a obsessão era mais forte que a vergonha. Ricardo limpou a mão, acendeu um cigarro e ficou olhando as fotos por longos minutos. Como se aproximar? Não podia simplesmente mandar um recado. A família protegia-a todo tempo. Joice vivia num mundo distante do morro, cercada de segurança e privilégios. Talvez através da empresa. Talvez fingindo interesse nos cosméticos. Ou talvez... Encontrando uma forma mais discreta. Um encontro “casual”. Um jantar. Qualquer coisa que permitisse olhar nos seus olhos e ver Beatriz novamente. Ricardo salvou as fotos numa pasta criptografada. Fechou o notebook e ficou em silêncio, o coração pesado. Lá fora, o morro seguia sua rotina. Gente pedindo favores, soldados esperando ordens, o povo confiando no Demônio Branco para manter a ordem. Ricardo era o protetor. O justiceiro. O viúvo amargurado que impunha regras rígidas. Por dentro, era só um homem quebrado, obcecado pelo fantasma da mulher que amara — e agora, pelo eco vivo dela. Joice não sabia. Ainda não. Mas Ricardo já sentia que o destino, cruel como sempre, estava aproximando seus caminhos. Ricardo apagou o cigarro e murmurou para si mesmo, voz baixa e carregada de nostalgia crua. — Você é tão parecida com Beatriz... — confessou para si mesmo. — Tão parecida que chega a doer... E eu... Eu não sei se consigo ficar longe... O escritório ficou em silêncio. Apenas o som distante dos tiros de festim no morro lembrava onde realmente estava.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







