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CAPÍTULO 3

Author: BZ02
Na manhã seguinte, Heitor saiu do quarto de hóspedes. Ao ouvir barulho vindo do banheiro, empurrou a porta e viu Lívia apoiada na pia, com ânsia de vômito.

— O que foi? — Ele se aproximou rápido. — Está se sentindo mal com o quê?

O rosto de Lívia estava pálido. Ela não tinha intenção de lhe dar atenção.

— Nada. Só um pouco de enjoo.

Heitor passou a mão de leve nas costas dela. Quando ela finalmente se recompôs, ele falou, com uma expressão complicada:

— Lívia, ontem minha mãe ficou sabendo que você já conhece a existência da Bárbara. Ela disse que não faz sentido continuar escondendo as coisas.

Lívia levantou a cabeça e olhou para ele pelo espelho.

— Ela pediu para a gente ir hoje à casa antiga. Disse para eu levar a Bárbara também, para a família toda jantar junta.

Família?

Lívia sorriu em silêncio. Então, para Heitor, Bárbara já contava como "família".

Ela se lembrou do jantar na casa da família da outra vida. Depois da refeição, sofreram um acidente de carro e Bárbara perdeu o bebê. A partir dali, Heitor passou a tratá-la com todo tipo de cuidado, sempre sob o pretexto da culpa. Agora, pensando bem, era ridículo. Aquilo nunca foi culpa. Era sentimento.

— Se você não estiver se sentindo bem, descansa um pouco. Mais tarde eu peço para o motorista vir te buscar.

Depois de falar isso, Heitor saiu do banheiro.

No fim, ela foi à casa da família Lopes.

Assim que entrou, Lívia ouviu a risada da sogra, Célia, mimando Bárbara.

Só quando a empregada, Dona Rosa, percebeu Lívia na porta é que avisou em voz baixa:

— Sr. Heitor, senhora, a senhora Lívia chegou.

As risadas na sala cessaram de imediato.

Célia lançou um olhar para Lívia. O sorriso desapareceu do rosto.

Disse com um tom indiferente:

— Já que veio, sente-se. Vamos servir o jantar.

Lívia escolheu o lugar mais afastado. O cheiro forte da carne a fez levar a mão à boca, enjoada.

— O quê? A comida da família Lopes não agrada você? — A voz de Célia era ácida. — Que frescura. Não é como a Bárbara, que come tudo com gosto. Dá pra ver que é boa de parir.

Enquanto falava, colocou uma grande porção de comida no prato de Bárbara.

— Bárbara, você é a grande benfeitora da nossa família. Quando essa criança nascer, eu mesma vou cuidar!

Bárbara baixou a cabeça, envergonhada, e lançou um olhar frágil para Heitor.

— Obrigada, Dona Célia.

De repente, Heitor bateu os talheres na mesa. O rosto estava fechado.

— Mãe! Eu já disse. Nesta vida, minha esposa é só a Lívia!

O rosto de Bárbara ficou branco.

Lívia baixou os olhos, sorrindo friamente.

Ela se lembrava. No dia do casamento, ele tinha dito exatamente isso. E agora, já havia outra pessoa em seus braços.

Nem sete anos tinham se passado, contando as duas vidas.

A refeição terminou sem que ninguém tivesse apetite.

Ao sair, Heitor apressou o passo para alcançar Lívia e falou em tom baixo:

— Lívia, minha mãe é assim mesmo. Não leva a sério.

Ela não respondeu.

Ao chegar perto do carro, foi puxar a porta traseira por hábito. A porta, porém, se abriu de dentro.

Bárbara estava sentada ali. Olhou para Lívia com um sorriso inocente:

— Lívia, eu fico enjoada no carro. O Heitor pediu para eu sentar aqui.

A expressão de Heitor ficou um pouco constrangida.

— Lívia, ela está grávida. É mais seguro ir atrás.

A mão de Lívia parou no ar. Em seguida, ela a recolheu, como se nada fosse, abriu a porta do passageiro da frente e entrou.

O carro mergulhou em silêncio.

No espelho, Bárbara se inclinou de repente, encontrando o olhar de Lívia.

— Heitor, está meio abafado aqui dentro.

Enquanto falava, puxou de propósito o decote, deixando à mostra uma marca vermelha chamativa no pescoço.

O rosto de Lívia não mudou. Até que seus olhos pararam no colar de íris de platina no pescoço de Bárbara.

As pupilas de Lívia se contraíram de repente.

Na outra vida, naquele mesmo trajeto, o pescoço de Bárbara estava completamente vazio! Por que, desta vez, ela usava aquele colar?

Era o colar que o pai de Lívia tinha colocado nela pessoalmente quando ela fez dezoito anos. Naquele dia, a mãe sorriu e disse:

— Nossa princesinha cresceu. Este é o presente de maioridade do papai e da mamãe. Seja sempre feliz.

Era a única coisa que eles tinham deixado para ela. A única lembrança que ainda a ligava a este mundo.

Lívia se virou bruscamente. A voz tremia.

— Meu colar… por que está com você?

— Me devolve.

Bárbara se assustou. Instintivamente, cobriu o colar com a mão e olhou para Heitor, magoada.

— Eu não sei do que você está falando… foi o Heitor que me deu.

Foi o Heitor que deu.

Lívia olhou para o homem à sua frente e sentiu apenas estranhamento.

Ele sabia muito bem o que aquilo significava para ela.

Na outra vida, mesmo quando chegaram ao pior ponto, ele nunca tinha tocado naquele colar. Nesta vida… ele o tirou da caixa de joias dela e o entregou pessoalmente a Bárbara!

Lívia não aguentou mais.

Soltou o cinto de segurança, se virou do banco da frente para trás e estendeu a mão para arrancar o colar do pescoço de Bárbara.

— Isso é meu!

Bárbara soltou um grito agudo.

O som estridente dos pneus raspando no asfalto ecoou. O carro parou no acostamento.

— Lívia, já chega! É só um colar. Eu já te dei o "Única". Esse é só um colar que você usa há não sei quanto tempo. A Bárbara gostou, por isso eu dei. Ela não se importa, por que você ainda está fazendo escândalo?

— Meu… meu estômago está doendo… — Bárbara chorava sem conseguir respirar direito, nos braços dele. — Heitor, minha barriga…

O rosto de Heitor mudou na hora.

Ele disse friamente a Lívia:

— Desce do carro. Volta sozinha de táxi.

O enjoo voltou com força. Uma dor aguda atravessou o baixo-ventre de Lívia. O rosto ficou ainda mais pálido. Ela segurou a barriga e falou com dificuldade:

— Heitor, eu também não estou bem…

— Lívia, já não chega? — Ele a interrompeu, impaciente.

A porta foi aberta sem hesitação.

Lívia foi puxada para fora do carro.

Heitor falou com o motorista da frente:

— Seu Reis, hospital!

— Sim, senhor. — Respondeu ele, virando o volante em direção ao hospital.

O Bentley preto arrancou, levantando vento e bagunçando os cabelos de Lívia.

Ela ficou parada na calçada movimentada. A dor no ventre ficava cada vez mais forte. A visão escurecia.

Tentou levantar a mão para chamar um táxi, mas não tinha forças nem para isso.

No fim, o corpo cedeu, e ela perdeu a consciência por completo.

Quando acordou de novo, sentiu o cheiro forte de desinfetante do hospital.

O médico falou com um tom de reprovação:

— Acordou? Você desmaiou por anemia e por causa da agitação emocional. Aliás, cadê seu marido? Seis semanas de gravidez, e ele ainda deixa você sair sozinha desse jeito.

Seis semanas de gravidez…
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