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Nós Não Chegamos ao Oitavo Ano
Nós Não Chegamos ao Oitavo Ano
Author: Ana Bela

Capítulo 1

Author: Ana Bela
Quando o médico disse que meu filho não tinha resistido, Gael estava em pé ao lado da minha cama.

O terno dele ainda estava impregnado pelo cheiro forte de fumaça e tecido queimado. A mão direita estava envolta em faixas de gaze.

Era aquela mesma mão que, na noite anterior, havia segurado Milena Navarro com força nos braços.

Depois de examinar os resultados, o médico baixou a voz:

— Sra. Loureiro sofreu lesões sérias. As chances de uma nova gravidez... são muito pequenas.

Gael apertou a mandíbula:

— O que significa "muito pequenas"?

O médico não respondeu.

O quarto caiu em silêncio.

Eu encarei o teto, e as lembranças do incêndio da noite anterior voltaram a passar pela minha cabeça.

Quando a fumaça invadiu a sala de descanso, Gael arrombou a porta com um chute e entrou correndo.

Milena estava caída junto à parede, com o tornozelo vermelho e inchado.

Eu segurava a borda da mesa com uma mão, enquanto a outra protegia desesperadamente meu ventre.

— Gael...

Milena mal tinha aberto a boca quando ele avançou até ela e a ergueu nos braços.

Eu estava mais perto da porta. Bastava dar alguns passos para escapar dali.

Gael olhou para mim uma única vez:

— Dora, vá pela saída de emergência primeiro. A Milena machucou o tornozelo. Eu vou levá-la para fora e volto imediatamente para buscar você.

Ele sabia que eu estava grávida.

Uma semana antes, ele havia ido comigo ao pré-natal.

O médico tinha dito que, naquele momento, o bebê tinha mais ou menos o tamanho de uma pequena uva.

No caminho de volta, Gael comprou uma caixa inteira de uvas e disse que queria que a "uvinha" dentro da minha barriga comesse até ficar satisfeita.

Por isso, eu acreditei quando ele disse que voltaria imediatamente.

Mas eu mal tinha dado dois passos quando um estrondo ensurdecedor veio do alto. O teto desabou sobre mim, prendendo-me sob os escombros.

Eu fiquei estendida no meio da fumaça, chamando o nome dele sem parar.

Quando recuperei a consciência, meu filho já estava morto.

Gael se sentou à beira da cama e segurou minha mão:

— Eu sinto muito.

Os olhos dele estavam muito vermelhos. Ele provavelmente não havia dormido a noite inteira.

— Eu achei que você conseguiria sair. Eu deixei a Milena com os médicos e voltei para buscar você, mas os bombeiros não me deixaram entrar.

Eu perguntei em voz baixa:

— E se tudo acontecesse de novo?

Os dedos dele se fecharam de repente.

Depois de um longo silêncio, ele respondeu com a voz rouca:

— Isso nunca vai acontecer de novo.

Ele não respondeu diretamente à minha pergunta. Mas eu já tinha entendido.

O celular de Gael tocou. Ele viu quem estava ligando e não atendeu.

Quando o celular tocou pela segunda vez, ele desligou o aparelho.

— Eu não vou a lugar nenhum. Vou ficar aqui com você.

Aquelas eram as palavras que eu mais tinha desejado ouvir um dia.

Sete anos antes, minha mãe precisava de uma cirurgia. Eu não tinha como pagar, então me agachei diante do caixa do hospital e chorei, sem saber a quem recorrer.

Gael pagou trezentos e setenta mil reais pela cirurgia da minha mãe e ainda passou a noite inteira ao meu lado.

Ao amanhecer, ele colocou um café da manhã quente nas minhas mãos:

— Enquanto eu estiver aqui, nada vai ser um problema.

Naquele tempo, eu acreditei que ele era o meu mundo inteiro.

Mas, quando meu mundo realmente desabou, a primeira pessoa que ele protegeu não fui eu.

A porta do quarto foi aberta de repente.

Hebe Loureiro, mãe de Gael, entrou com o rosto fechado:

— Gael, a Milena não para de chorar. Ela já tem pavor de fogo, e aquele acidente de carro de anos atrás ainda deixou traumas nela. Mesmo assim, você a deixou sozinha lá?

Gael franziu a testa:

— A Dora acabou de sair de uma cirurgia. Ela precisa que eu cuide dela.

— Ela tem médicos e uma equipe para cuidar dela. O que pode acontecer? — Hebe lançou um olhar frio para mim. — A Milena é diferente. Se ela não tivesse voltado para ajudar você, não teria se envolvido nesse incêndio.

Gael ficou em silêncio por alguns instantes. Então se levantou.

Ele ajeitou delicadamente o cobertor sobre mim:

— Eu vou lá ver como ela está. Volto rápido.

Assenti:

— Tudo bem.

Ele pareceu soltar o ar, aliviado:

— Se você quiser comer alguma coisa, peça para o Danilo comprar.

Danilo era o assistente dele.

Quando a porta se fechou, eu tirei debaixo do travesseiro o comprovante de pagamento da cirurgia da minha mãe.

Trezentos e setenta mil.

O papel já estava amarelado, mas os números continuavam nítidos.

Eu liguei para meu advogado:

— Olá. Por favor, eu preciso que você calcule o valor total dos imóveis, das ações e das joias que Gael me deu ao longo desses anos.

O advogado ficou em silêncio por um segundo:

— Sra. Loureiro, a senhora quer fazer um levantamento patrimonial?

Eu toquei meu ventre vazio:

— Quero. Essa conta está pendente há tempo demais. Já passou da hora de acertá-la.

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