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Três anos depois, comprei um pequeno prédio à beira-mar.No térreo ficava a minha padaria. No segundo andar, montei um espaço onde ensinava as garotas da região a preparar sobremesas.Algumas delas tinham passado por situações parecidas com a minha. Não tinham formação, nem uma família em quem pudessem se apoiar.Eu pagava um salário a elas e também lhes ensinava um ofício capaz de sustentá-las.Rosana costumava dizer que eu havia mudado muito.Eu já não vivia pisando em ovos, nem tinha o hábito de observar a reação dos outros antes de decidir o que fazer.Só percebi isso de verdade quando me olhei no espelho.Depois que deixei Gael, nunca me senti tão próxima de quem eu realmente era.Eu não vendi a casa antiga que minha mãe havia deixado.Os ipês do quintal floresciam todos os anos.Às vezes, eu me sentava debaixo das árvores e pensava naquele filho que não chegou a nascer.Ainda doía.Mas aquela dor já não me aprisionava.Em homenagem a ele, criei um fundo de assistência para ajudar
Um ano depois, a minha Padaria Novo Amanhecer inaugurou sua segunda unidade.Eu não usei o dinheiro que Gael havia deixado.No começo, meu negócio foi difícil. Eu hipotequei a casa antiga da minha mãe e passei a dormir apenas cinco horas por noite.Mas, daquela vez, o esforço era por mim.Bento ficou responsável pela divulgação, e Rosana me ajudou a cuidar da primeira padaria.No dia da inauguração da nova unidade, uma fila enorme se formou na entrada.Eu fiquei diante do forno, vendo os pães crescerem, fornada após fornada. Pela primeira vez, senti uma satisfação verdadeira, uma alegria que vinha de saber que estava construindo algo por mérito próprio.Antes, sempre que alguém falava de mim, dizia que eu era a esposa de Gael.Agora, havia pessoas que viajavam só para comer um pedaço de bolo feito por mim.Eu já não vivia à sombra de ninguém.Gael ainda aparecia de vez em quando.Ele não me pedia mais para voltar. Também não ficava mais no meu caminho.Ele apenas se sentava à mesa mais
Gael não foi embora da cidadezinha.Ele se hospedou no hotel ao lado.Todos os dias, antes mesmo de eu abrir a padaria, ele já estava em pé do outro lado da rua.Eu não falava com ele. Ele, então, esperava até a noite.Certa vez, um temporal passou pela cidade, e a placa da loja foi arrancada pelo vento.Quando cheguei à padaria na manhã seguinte, a placa já estava consertada.Bento disse que Gael tinha passado metade da noite debaixo de chuva tentando arrumá-la. A mão dele havia sido cortada por uma chapa de metal, e ele precisou levar seis pontos.Eu apenas liguei para os trabalhadores e pedi que instalassem uma placa nova.Gael olhou para a placa antiga sendo retirada, e um breve constrangimento passou por seu olhar:— Por que você trocou a placa?— Eu não gosto de dever favores.— Nós somos marido e mulher.— Em breve, não seremos mais.Ele não disse mais nada.Antes da audiência do divórcio, Gael finalmente assinou o acordo.No dia da assinatura, ele transferiu novamente todos os
No dia da inauguração da minha padaria, o tempo estava lindo.Eu dei a ela o nome de Padaria Novo Amanhecer.Rosana disse que o nome não era elegante o bastante.Eu, porém, achei perfeito.A loja não era grande, mas bastava abrir a janela para ver o mar.No começo, havia poucos clientes. Eu acordava todos os dias às quatro da manhã para sovar a massa e só fechava as portas às dez da noite.Meu corpo ainda doía de vez em quando, com uma dor surda que persistia mesmo quando eu descansava. O médico pediu que eu fizesse os exames de acompanhamento no prazo certo e também me alertou para não exagerar.Eu comecei a aprender a cuidar de mim.Antes, eu comprava remédios para o estômago de Gael, organizava reuniões e lembrava cada data importante da agenda dele, mas quase sempre esquecia que eu também podia adoecer.Um mês depois, a padaria começou a conquistar clientes fixos.Bento Dutra, o dono do hotel ao lado, tirou várias fotos para mim e as publicou na internet.O mar, as flores e os pães
Levei quinze dias para reformar a casa antiga que minha mãe havia deixado.No quintal, havia uma laranjeira seca.Rosana me aconselhou a cortá-la.Mesmo assim, eu a reguei por alguns dias.Depois, o jardineiro me disse que as raízes já estavam podres. Se eu mantivesse a árvore ali, ela só atrairia insetos.Eu fiquei parada debaixo dela por muito tempo:— Então pode cortar.Havia coisas que, depois de mortas, não voltavam à vida só porque alguém insistia em regá-las.Quando levaram o tronco embora, uma grande área do quintal ficou vazia.Ali, plantei ipês-brancos.Depois, usei minhas economias para alugar uma loja perto da praia. Eu queria abrir uma padaria.Antes de me casar com Gael, eu trabalhava como garçonete na boate e também tinha sido aprendiz em uma padaria.Quando minha mãe estava internada, eu costumava levar para ela os pães que sobravam no fim do dia.Ela sempre dizia que os pães feitos por mim eram deliciosos.Depois que entrei para a família Loureiro, a casa passou a ter
Quando o avião pousou, eu não liguei o celular imediatamente.Lá fora, chovia.As luzes daquela cidade desconhecida se espalhavam pela paisagem, difusas sob a névoa e a chuva.A cena me lembrou a noite chuvosa de muitos anos antes, quando acompanhei Gael pela primeira vez até a casa da família Loureiro.Naquela época, ele segurou o guarda-chuva para mim e colocou o casaco sobre meus ombros.Agora, eu arrastava minha mala velha e seguia sozinha sob a chuva.Quando liguei o celular, dezenas de chamadas perdidas surgiram na tela.Eu não abri nenhuma.O motorista do táxi perguntou para onde eu ia.Eu disse o nome de uma pequena cidade à beira-mar. Ali havia uma casa antiga que minha mãe tinha deixado.Quando eu era criança, ela sempre dizia que, assim que ela melhorasse, me levaria de volta para ver o mar.Mas esse dia nunca chegou.Quando o carro saiu do aeroporto, eu coloquei o celular no modo silencioso, encostei a cabeça no vidro e adormeci.Foi um sono pesado.Quando acordei, já era d







