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Capítulo 2

Author: Ana Bela
No dia em que recebi alta do hospital, Gael foi me buscar.

Ele mesmo colocou o casaco sobre meus ombros e depois se abaixou para calçar meus sapatos.

Sete anos antes, quando entrei pela primeira vez para a família Loureiro, eu nem sabia andar de salto alto direito.

Naquele dia, ele se ajoelhou no hall de entrada, fechou a fivela do meu sapato e disse, sorrindo:

"Você não precisa aprender essas coisas para ser Sra. Loureiro."

Naquela época, ninguém na família Loureiro me respeitava.

Os empregados me chamavam pelas costas de "a garota que servia bebidas", e Hebe se recusou até a comparecer ao casamento.

Foi Gael quem segurou minha mão e me levou para o salão principal. Diante de todos, ele declarou:

"Ela pode não ter nascido em berço de ouro, mas é a mulher que eu escolhi para ser minha esposa."

Mais tarde, quando ele disputou o comando da Loureiro Participações, eu o acompanhava às reuniões, virava noites trabalhando ao lado dele e organizava pilhas e mais pilhas de documentos.

Quando uma hemorragia gástrica o levou ao hospital, eu fiquei ao lado dele por três dias inteiros.

Só depois que ele conquistou o cargo mais alto da empresa foi que Hebe finalmente se dignou a falar comigo.

Eu pensei que sete anos bastariam para conquistar de vez meu lugar na família Loureiro.

Mas, quando voltei à mansão, encontrei todos os objetos do quarto do bebê empilhados na sala.

Hebe estava sentada no sofá, com a voz fria:

— Depois que a criança se foi, você precisa guardar essas coisas de bebê. Ficar olhando para isso só traz sofrimento.

Eu peguei o cavalinho de balanço que estava no alto da pilha.

Gael tinha montado aquele brinquedo com as próprias mãos.

Na época, um dos parafusos não encaixava direito, e ele passou horas debruçado sobre o manual, tentando resolver o problema. Ele nem me deixou ajudar e disse:

"Quando nosso filho perguntar, eu vou dizer que fui eu quem fez tudo sozinho."

Agora, o cavalinho de balanço estava sem uma das pernas, jogado de qualquer jeito dentro de uma caixa.

Milena estava sentada ao lado de Hebe. Os olhos dela ainda estavam vermelhos. Assim que me viu voltar, ela se levantou depressa:

— Dora, me desculpe. Se eu soubesse que isso ia acontecer, eu jamais teria deixado Gael me salvar primeiro.

Gael a segurou pelo braço:

— Seu tornozelo ainda não sarou. Fique sentada.

Só depois disso ele se virou para mim:

— No futuro, podemos comprar tudo de novo para o nosso filho.

No futuro.

O médico tinha dito claramente a ele que eu nunca mais engravidaria.

Talvez ele não tivesse coragem de encarar essa realidade. Talvez acreditasse que, se ninguém tocasse no assunto, tudo acabaria se resolvendo sozinho.

Hebe empurrou uma declaração até a beira da mesa:

— Lá fora, estão atacando a Milena, dizendo que Gael abandonou a esposa grávida para salvar a ex-namorada. Você vai assinar esta declaração e dizer que foi você quem pediu para Gael salvá-la primeiro.

Eu olhei para aquela declaração.

Gael realmente tinha perguntado se eu conseguia sair. Mas ele não esperou minha resposta.

— Ela não me pediu para salvar a Milena.

Gael falou de repente.

Meus dedos tremeram de leve.

No segundo seguinte, porém, ele continuou:

— Troque essa parte por: Naquele momento, Dora estava mais perto da saída, e eu achei que ela conseguiria escapar sozinha.

Danilo assentiu na hora:

— Assim, além de ser verdade, isso também não joga a responsabilidade sobre Sra. Loureiro.

Verdade.

Bastava mudar a forma de contar a história para transformar o abandono de mim e do nosso filho em um simples erro de julgamento.

Milena abaixou a cabeça, e as lágrimas caíram sobre o dorso da mão dela:

— Deixem para lá. Não coloquem a Dora nessa situação. Afinal, algumas críticas contra mim não são nada tão graves assim.

Hebe imediatamente a abraçou, cheia de pena:

— Você sofre justamente porque é boazinha demais.

Gael olhou para mim. A voz dele ficou mais baixa:

— Dora, a Milena acabou de voltar ao país, e a família Navarro é uma parceira importante da Loureiro Participações. Essa declaração serve apenas para conter a opinião pública por enquanto.

Ele raramente explicava algo com tanta paciência.

Sete anos antes, quando os veteranos da empresa o pressionaram para me mandar embora, ele jogou a própria carta de demissão sobre a mesa da sala de reuniões:

"Se a Loureiro Participações não consegue aceitar minha esposa, eu também não preciso continuar aqui."

Naquela época, ele era capaz de abrir mão de tudo por mim.

Agora, ele já tinha tudo.

Por isso, também podia me pedir que eu cedesse.

Eu peguei a caneta e assinei meu nome.

A tensão entre as sobrancelhas de Gael finalmente se desfez. Ele se inclinou e me abraçou:

— Eu sei que isso foi injusto com você.

Milena também se aproximou. Quando passou por mim, ela disse em uma voz que só eu podia ouvir:

— Está vendo? Ele ainda escolhe a mim.

Eu não olhei para trás.

Apenas entreguei ao advogado aquele cartão de crédito sem limite. Depois, guardei o cavalinho de balanço dentro da caixa.

Gael me perguntou:

— Por que você não deixa os empregados cuidarem disso?

Eu limpei com delicadeza a poeira sobre o cavalinho de balanço:

— Isto era do bebê. Eu quero guardar com as minhas próprias mãos.

Um traço de culpa passou pelos olhos dele.

Mas ele não percebeu que, dentro daquela caixa, além das lembranças do nosso filho, também estava a primeira joia que ele havia me dado.

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