LOGIN[8 anos depois - Cidade]
Meu plantão acabou.
Bato meu ponto e organizo rapidamente minhas coisas, ansiando sair o mais rápido possível. Me despeço às pressas do pessoal da clínica e corro até a parada de ônibus, mesmo que meu corpo inteiro pareça pesar uma tonelada de cansaço.
Consigo ouvir o motor do ônibus chegando a alguns quarteirões. Não chegarei a tempo.
Paro de correr, aceitando minha derrota.
— Droga! Esse era o último! — esbravejo, ofegante.
Enquanto sigo para casa andando, minha mente começa a processar pensamentos negativos, os quais espanto para longe. Eu não tenho o direito de me estressar por ter perdido um ônibus, devo ser grata por ter chegado até aqui. Grata por ter para onde voltar.
Eu não era ninguém há oito anos atrás.
Apenas uma garota que perdeu as memórias após sofrer um atropelamento. Tudo que me restou foi o nome: Roselyn. Apenas isso, não consigo sequer lembrar o sobrenome, nem sei se havia um. Ninguém me procurou após isso, minha família me abandonou, e, por isso, tive que ser enviada para um orfanato que parecia mais o inferno na terra.
Devo ser grata por ter chegado até aqui, ter conseguido estudar, ter me esforçado o suficiente para virar veterinária. Esse cansaço… É uma benção, não uma maldição. Mas eu ainda me sinto tão só, ainda sinto um vazio tão grande que ameaça devorar tudo. O caminho para casa só evidenciava ainda mais isso, não tem um pé de gente a essa hora e tudo que consigo ouvir são os sons noturnos da floresta Vento Prata, que se destacam bastante em relação à pacata cidade de Alvorim, onde vim parar após tudo.
De repente, um som incomum me tirou dos meus pensamentos.
Um choro agudo. Parece ser de cachorro.
Uma pequena e egoísta parte de mim adoraria ignorar e ir direto ao encontro do meu merecido descanso. Mas essa maior parte de mim, tão empática e solícita, jamais conseguiria ignorar um inocente em apuros. Procuro de onde vem o choro, perto da estrada onde algum cãozinho pode ter se machucado.
E então, finalmente encontro a origem do choro.
Enorme.
Esse é o maior cachorro que já vi na minha vida.
Uma grande quantidade de sangue está espalhada por todo seu pelo, e perto da barriga há uma ferida nada agradável. Vai precisar de alguns pontos. Vai precisar de muitos pontos.
Eu me aproximo devagar, ele tenta rosnar, mas está fraco demais para isso. E foi aí que percebi… Não é um cachorro, é um lobo. Isso deveria explicar o tamanho, mas, sinceramente, até para um lobo esse aqui está muito além do tamanho normal.
Tiro o celular do bolso e meus dedos agilmente começam a discar o número da Polícia Ambiental.
Meus olhos encontram os olhos cinzentos do lobo, tão afiados e profundos que poderiam congelar minha alma. Meus dedos param antes de completar a chamada, minha intuição grita para que eu mesma cuide dele.
Tento me convencer de que isso é loucura, ele é grande demais para que eu possa carregar até em casa, apesar de não estar tão longe. E ele não pode ficar aqui se eu quiser tratar suas feridas. A minha razão grita: “Vamos, Rose! Reconheça seus limites. Você não pode ajudá-lo adequadamente.”. Mas, como sempre, aquela parte de mim, que aparece como uma sombra do que eu talvez era antes desses oito anos, rebela-se e grita mais alto.
Eu posso ajudá-lo. E eu vou fazer isso.
Olho pro celular em mãos e começo a discar para outro número. A voz feminina e melodiosa ressoa do celular:
— Rose? Esqueceu alguma coisa na clínica?
Eu tento manter a calma e penso como vou explicar para ela o pedido que estou prestes a fazer.
— Jéssica!! Eu preciso da sua ajuda, urgente! Você está na clínica?
Ela assume um tom mais preocupado.
— Sim, meu plantão começa daqui a pouco. O que aconteceu? Ajudar com o quê?
— Eu preciso que você traga a ambulância da clínica para me ajudar com um resgate.
— Um resgate? Qual o animal e a localização?
Hesito por um momento, olhando para o lobo gigantesco.
— Um cachorro, gravemente ferido. Vou te passar a localização, por favor venha sozinha e não fale nada para ninguém…
Ela rapidamente questiona:
— Hã? Por quê? Eu posso chamar os estagiários para ir, não precisa sacrificar seu tempo de descanso.
Eu acabo aumentando o tom de voz:
— Não!! Não chama ninguém! Eu quero cuidar desse caso eu mesma, então, por favor, só confia em mim.
Jéssica parece hesitar por um momento, mas então responde.
— Tá bem! Chego aí em alguns minutos.
Não há muito o que eu possa fazer sem o equipamento necessário. Então apenas observo o pobre lobo e sua respiração lenta enquanto espero por Jéssica.
Não demora muito para a ambulância veterinária chegar, a clínica não é tão longe de carro. Jéssica desce rapidamente e se aproxima:
— Onde está nosso paciente? — ela pergunta como se fosse algo rotineiro.
— Jess… Antes de vê-lo, preciso que mantenha a calma… — tento prepará-la para o que está por vir, mas nem sei como.
— O que foi? Ele está tão mal assim? — ela muda para um tom preocupado e passa por mim, seus olhos se voltam para o lobo ferido.
Os olhos de Jéssica se arregalaram diante do tamanho colossal do “cachorro”. Após o choque, ela analisa com mais atenção e se vira para mim com uma expressão indignada:
— Rose!!! Isso não é um cachorro! É um lobo! Isso é com a guarda ambiental!!! — as frases saem da boca dela sem pausas.
Ela prontamente pega o celular e começa a procurar o número da polícia ambiental. Tomo o celular da mão dela.
— Por favor, Jess! Não ligue para eles!
— Espera aí… — ela pensa por alguns segundos, como se tivesse acabado de perceber algo. — Você sabia esse tempo todo que era um lobo e ainda sim me chamou??
— Sim… — assenti, baixinho. — Se eu tivesse te falado, você não viria! E eu só podia contar com você… Eu quero tratá-lo. Algo me diz que só eu posso fazer isso.
— Rose, você pirou de vez? Olha o tamanho desse bicho, nunca vão deixar você tratar ele na clínica veterinária! — ela aumenta o tom de voz e me olha como se eu fosse uma louca.
E talvez eu realmente seja.
No entanto, eu apenas dou um sorriso sem graça e respondo:
— Não vamos levá-lo para lá… Vou cuidar dele em casa.
Os olhos de Jéssica se arregalam ainda mais. Antes dela falar alguma coisa, eu me adianto:
— Relaxa, eu tenho especialização em animais silvestres, lembra? Já tive experiência com isso também, já analisei as feridas dele e sei que consigo tratar com o equipamento que tenho em casa. Só… Confia em mim.
Jess se prepara para rebater, mas então respira fundo e assente com a cabeça.
— Ok. Eu te ajudo. Mas só se me garantir que não vou me dar mal depois.
Eu apenas sorrio.
Com certa dificuldade, nós duas conseguimos colocar o enorme lobo sobre uma maca e levá-lo até a ambulância. Para nossa surpresa, ele não reluta e coopera. De lá, seguimos para minha casa. Eu tinha uma pequena estrutura improvisada na garagem para atender animais resgatados, mas nunca havia tratado um paciente daquele tamanho. Ainda assim, uma antiga maca que estava encostada em um canto serviu perfeitamente.
Jéssica me ajudou a acomodá-lo e trouxe tudo o que eu precisava antes de olhar para o relógio com preocupação.
— Preciso voltar para a clínica e devolver a van antes que percebam que saí com ela.
Assenti e sorri.
— Pode deixar, Jess. Eu assumo daqui em diante. Obrigada por me ajudar!
Antes de sair, ela lançou mais um olhar para o lobo.
— Ele deve estar mesmo muito debilitado. Qualquer lobo selvagem já teria tentado nos atacar uma dúzia de vezes. Esse aí deixou até colocarmos uma focinheira sem reagir. Parece que sabe que estamos tentando ajudá-lo.
Olhei para o enorme animal deitado diante de mim e passei os dedos por sua pelagem cinzenta.
— Eu também tive essa impressão. Talvez ele simplesmente seja um bom paciente.
Dei uma risadinha e acariciei as costas dele.
— Não se preocupe, amigão. Logo você vai estar novinho em folha.
Quando Jéssica foi embora, a garagem ficou estranhamente silenciosa. Respirei fundo e comecei a trabalhar. Limpei cuidadosamente todos os ferimentos, removendo sangue e sujeira acumulados. Depois fiz as suturas necessárias e administrei medicamentos para a dor e para evitar infecções.
O processo levou horas, mas aos poucos sua respiração começou a ficar mais estável. Ainda era fraca, porém muito melhor do que quando o encontrei.
Senti um alívio enorme.
Acariciei suas costas largas e sorri.
— Viu só? Eu disse que você ficaria bem.
Com um pouco de esforço, consegui transferi-lo da maca para um colchão macio que espalhei no chão, cercado por almofadas. Sempre fui mais forte do que uma mulher comum deveria ser. Nunca entendi exatamente o motivo, mas, daquela vez, fiquei grata por isso.
Depois de me certificar de que ele estava confortável, apaguei as luzes da garagem. O lobo parecia finalmente entregue ao sono.
E, sinceramente, eu também estava.
Depois daquele dia exaustivo, tudo o que eu queria era cair na cama e dormir até o mundo acabar.
Eu realmente não sabia no que eu estava me metendo.
Mas, atrás dos olhos fechados, não havia um animal selvagem.
Havia um Alfa.
E ele acabava de acordar.
Por alguns segundos, simplesmente fiquei encarando aqueles homens.Meu cérebro parecia incapaz de processar o que estava acontecendo.O desconhecido não estava falando com um animal. O modo como olhava para Grey, a forma como pronunciou aquele nome... tudo indicava que estava se dirigindo a alguém escondido atrás daquele lobo.Grey respondeu com um rosnado tão grave que senti a vibração atravessar o chão da sala.O homem apenas riu.— Brincando de animal de estimação? Que decadência para um Alfa.Meu olhar saltou para Grey.Depois para o invasor.Depois voltou para Grey.— Quem são vocês? Do que estão falando? — exigi.O homem sequer se dignou a olhar para mim.— Calada, Ômega. A brincadeira acabou. Nenhum dos dois vai sair vivo daqui.Meu estômago afundou.Antes que eu pudesse responder, algo impossível aconteceu.As unhas dele cresceram diante dos meus olhos, transformando-se em garras afiadas. Seus caninos também pareciam longos demais para serem humanos.Por um instante, fiquei co
Meu coração quase saiu pela boca.Por um instante, imaginei todos os cenários possíveis. Ataques, gritos, ambulâncias, processos judiciais... Eu já estava me condenando por ter sido a pessoa mais irresponsável do planeta.Então voltei à realidade.O lobo não estava atacando a Sra. Woods.Ele estava pedindo carinho.Fiquei parada, piscando, enquanto aquele gigante esfregava a cabeça na mão da senhorinha e recebia afagos como um cachorro carente.— Ora, se eu soubesse que era essa gracinha, teria tirado a focinheira desde o começo! — ela disse, rindo.Observei a cena sem acreditar. Com a língua para fora e os olhos semicerrados de satisfação, ele parecia tudo, menos um lobo selvagem.— Você tem certeza de que é um lobo? — murmurei.— E como se chama esse bebezão? — perguntou a Sra. Woods.Travei.Eu não tinha pensado nisso.— Ah... o nome dele é... — tentei me apegar à característica mais básica. — Grey!Assim que falei, as orelhas do lobo se ergueram. Ele virou a cabeça na minha direçã
Estou cercada.Vários lobos claramente hostis me rodeiam como se eu fosse o prato principal. Mas, um deles, maior que todos os outros, se sobressai. Enquanto os outros lobos mostravam suas presas e rosnavam, este não demonstrava nenhuma raiva. Era enorme, de pelagem cinzenta como cinzas sobre a neve, e tinha olhos azul-acinzentados que brilhavam como prata. Seu olhar carregava algo muito pior do que apenas hostilidade primitiva: um desdém frio que congela os meus ossos.A sensação era tão terrível que boa parte de mim considerava melhor ser destroçada viva por todos aqueles lobos raivosos do que encarar aqueles olhos cinzentos.Ele se aproxima, os outros nem ousam respirar errado. Era nítido quem mandava ali. E então ele rosna baixo, como se quisesse que apenas eu notasse.“Eu rejeito você.”. A voz ressoa na minha mente, como uma maldição. Uma voz tão familiar e desconhecida ao mesmo tempo.Ele avança sobre mim e… Eu acordo. O coração a mil.Um pesadelo. Apenas isso.Raios de sol já
[8 anos depois - Cidade]Meu plantão acabou.Bato meu ponto e organizo rapidamente minhas coisas, ansiando sair o mais rápido possível. Me despeço às pressas do pessoal da clínica e corro até a parada de ônibus, mesmo que meu corpo inteiro pareça pesar uma tonelada de cansaço.Consigo ouvir o motor do ônibus chegando a alguns quarteirões. Não chegarei a tempo.Paro de correr, aceitando minha derrota.— Droga! Esse era o último! — esbravejo, ofegante. Enquanto sigo para casa andando, minha mente começa a processar pensamentos negativos, os quais espanto para longe. Eu não tenho o direito de me estressar por ter perdido um ônibus, devo ser grata por ter chegado até aqui. Grata por ter para onde voltar. Eu não era ninguém há oito anos atrás. Apenas uma garota que perdeu as memórias após sofrer um atropelamento. Tudo que me restou foi o nome: Roselyn. Apenas isso, não consigo sequer lembrar o sobrenome, nem sei se havia um. Ninguém me procurou após isso, minha família me abandonou, e,
Um suspiro escapou dos meus lábios, chamando a atenção de Kalevi. Até então, o Alfa sequer havia notado a minha presença ali. Mas quando seus olhos cinzentos finalmente pousam em mim, algo o atravessa também, o mesmo impacto que senti. Ele, porém, disfarça com maestria. Fico confusa e tento compreender: como a Deusa da Lua poderia unir uma ômega sem lobo a um Alfa tão poderoso? Seria eu digna? Ainda assim, estar tão próxima dele me provoca uma alegria tão intensa que quase dói. Sem perceber, abri um sorriso e murmurei:— Você também está sentindo?O antigo Alfa Tiberius observa, com uma expressão severa. Claire me lança um olhar de puro desdém, e murmúrios começam a se espalhar pela plateia. Kalevi não sorri. Seu cenho se fecha e sua voz fria corta o ar: — Quem é você? A qual família Beta pertence? Estremeço, tentando não gaguejar.— Eu… meu nome é Roselyn, senhor. Não sou Beta… sou Ômega, da família Silver. Claire se adianta, indignada.— O que está acontecendo aqui, Kal?Quase n
Os membros da matilha correm de um lado para o outro enquanto fazem os preparativos da grande festa. Apesar da ocasião de festividade, o clima entre os Ômegas é de agitação e preocupação para que tudo fique devidamente no lugar, ninguém quer lidar com as penalidades do Alfa Tiberius caso alguma coisa dê errado na coroação do seu filho herdeiro. Porém, mesmo com a tensão, todos estão animados, não é todo dia que acontecem grandes festas onde a população Ômega possa participar, não apenas como mão de obra, mas como convidados, a aposentadoria do Alfa Tiberius promete uma comemoração grandiosa, e a ascensão do Alfa Kalevi, o seu primogênito, como novo líder da matilha Lua Nascente, deixa todos esperançosos com uma nova gestão. — Roselyn! Pode levar essas toalhas de mesa para o salão? — a voz da minha mãe soa apressada e mal consigo vê-la antes dela me entregar as toalhas e correr de volta entre a multidão.No caminho para o salão principal, vejo uma senhora carregando alguns arranjos de







