LOGINEstou cercada.
Vários lobos claramente hostis me rodeiam como se eu fosse o prato principal.
Mas, um deles, maior que todos os outros, se sobressai. Enquanto os outros lobos mostravam suas presas e rosnavam, este não demonstrava nenhuma raiva. Era enorme, de pelagem cinzenta como cinzas sobre a neve, e tinha olhos azul-acinzentados que brilhavam como prata. Seu olhar carregava algo muito pior do que apenas hostilidade primitiva: um desdém frio que congela os meus ossos.
A sensação era tão terrível que boa parte de mim considerava melhor ser destroçada viva por todos aqueles lobos raivosos do que encarar aqueles olhos cinzentos.
Ele se aproxima, os outros nem ousam respirar errado. Era nítido quem mandava ali. E então ele rosna baixo, como se quisesse que apenas eu notasse.
“Eu rejeito você.”.
A voz ressoa na minha mente, como uma maldição. Uma voz tão familiar e desconhecida ao mesmo tempo.
Ele avança sobre mim e… Eu acordo. O coração a mil.
Um pesadelo. Apenas isso.
Raios de sol já invadiam meu quarto, anunciando a manhã.
Balancei a cabeça, convencendo-me de que aquilo era consequência do resgate da noite anterior. Então me lembrei do meu paciente secreto e pulei da cama, correndo para a garagem.
Encontrei o lobo acordado. Ele ainda parecia fraco, mas estava sentado sobre as patas dianteiras e muito melhor do que na noite anterior. Quando me aproximei, seus olhos cinzentos se fixaram em mim. Por um instante, a sensação do pesadelo voltou. Como se aqueles mesmos olhos estivessem me observando outra vez.
— Oi, amigão. Você está melhor, hein?
Peguei os materiais para trocar seus curativos. Por um instante ele pareceu ficar alerta, mas sorri para tranquilizá-lo.
— Calma. Só vou cuidar desses machucados.
Como sempre, ele colaborou sem reclamar. Honestamente, eu já tinha atendido chihuahuas muito mais difíceis do que aquele lobo gigante. Havia algo de estranho nele. Inteligente demais. Quase como se entendesse cada palavra que eu dizia.
Ao terminar os curativos, tomei uma decisão impulsiva e soltei sua corrente.
— Você merece esticar as pernas um pouco. Vai ajudar na recuperação.
Apesar de dizer isso, ainda me pegava ponderando como eu poderia levar um lobo desse porte para passear por aí como se fosse um cãozinho qualquer.
Foi então que notei a quantidade de sangue seco espalhada por sua pelagem.
— Certo... definitivamente precisamos resolver isso.
A ideia de passear com um lobo pelas ruas já era questionável. Passear com um lobo coberto de sangue parecia ainda pior.
— Que tal um banho?
Para minha surpresa, suas orelhas se moveram como se tivesse entendido a pergunta.
Levei-o para o quintal com os shampoos da clínica. Ele me seguiu sem resistência, comportando-se melhor do que muitos cães domésticos. Quando liguei a mangueira, pareceu até apreciar a água fresca.
Admito que hesitei antes de tocá-lo. Mesmo de focinheira, ele continuava sendo um predador enorme. Mas o lobo apenas se aproximou, empurrando levemente a cabeça contra minha mão, como se me encorajasse.
O banho correu sem problemas. Quando terminei, ele sacudiu toda a água da pelagem e me deixou completamente encharcada.
— Ei! Assim não vale!
Ri sozinha enquanto ele me observava.
Agora limpo, seu pelo cinzento brilhava sob a luz da manhã. Igual ao do meu sonho.
Afastei o pensamento e sorri.
— Você foi um ótimo garoto. Acho que merece um passeio.
Ainda estava me perguntando se tinha enlouquecido quando soltei a coleira da cerca do quintal.
O lobo permaneceu imóvel. Não tentou fugir, nem demonstrou agressividade. Apenas me observou com aqueles olhos cinzentos misteriosos.
Pensei em tirar a focinheira também, mas logo descartei a ideia.
— Desculpe, grandalhão. As pessoas não estão preparadas para você.
Por incrível que parecesse, ele parecia entender.
Com um leve puxão na coleira, comecei a caminhada. Enquanto andávamos pelas ruas mais próximas da mata, uma parte de mim ainda achava absurda a situação. Eu estava passeando com um lobo enorme como se fosse um cachorro de estimação.
E, por algum motivo, a presença dele me trazia uma sensação estranha de conforto. Desde que recomecei minha vida a oito anos atrás, sem saber de nada de quem eu fui, um vazio me acompanha por todos esses anos. Eu segui em frente, fiz amizades, conquistei o tão sonhado curso de medicina veterinária, mas ainda não conseguia ignorar essa parte que faltava.
Mas desde que esse lobo apareceu, esse vazio parece ter sido preenchido de alguma forma. Não sei definir se é uma forma boa ou ruim.
O passeio seguiu bem, ele parecia explorar o ambiente com cautela.
Como era de se esperar, não demorou para encontrarmos alguém.
— Ora, Roselyn! Que cachorro enorme! Mais parece um lobo! — exclamou a Sra. Woods ao nos avistar. Era notável, também, que ela manteve uma distância considerável.
Sorri sem graça.
— É um paciente temporário em recuperação. Um malamute-do-alasca, é uma raça bem grandona mesmo.
A senhorinha claramente não pareceu acreditar completamente na explicação, mas decidiu não insistir. Seu interesse foi imediatamente para a focinheira.
— E isso? Ele é agressivo? Você pode até ser veterinária, mas não conseguirá segurar um cão desse tamanho se ele tentar escapar…
O receio da Sra. Woods era válido, por mais que eu seja um tanto mais forte do que aparento, eu teria sérios problemas se ele tentasse se rebelar a qualquer momento. Estou confiando demais no bom comportamento dele até então.
— Não se preocupe, ele é totalmente inofensivo! — minto. — É só uma medida de segurança, devido à legislação local e o porte dele.
— Ora, que bobagem! Que se dane a legislação, não tem necessidade de manter um animal dócil num acessório desconfortável desses!!
Antes que eu pudesse impedir, ela se aproximou demais, fazendo menção de retirar a focinheira.
Meu coração disparou.
— Sra. Woods, por favor… Posso garantir que ele não se incomoda.
— Ora, querida, você está exagerando. Ninguém gostaria de usar um treco ruim desses!!
Eu olhei para o lobo. Ele continuava tranquilo. Dócil. Quase paciente.
Contra meu melhor julgamento, suspirei.
— Tudo bem. Mas deixe que eu tiro.
Agachei-me ao lado dele e levei as mãos até a trava da focinheira.
Por um instante, nossos olhares se encontraram.
— Seja um bom garoto — murmurei.
A trava se soltou.
O silêncio pareceu durar uma eternidade.
Até que o lobo adotou uma postura inesperada.
E então… Ele avançou.
Os uivos fizeram Kalevi ficar imediatamente em alerta.Não precisei conhecê-lo por muito tempo para perceber. Seus ombros ficaram rígidos, os olhos percorreram a floresta ao redor e sua postura mudou completamente.Aquilo não era bom sinal.— Pela sua cara, ouso dizer que não são nossos salvadores chegando, não é? — perguntei.Kalevi lançou um olhar irritado na minha direção.— Precisamos sair daqui.Ele aumentou o ritmo da caminhada, o que seria uma ótima ideia se não estivesse coberto de ferimentos.Observei-o por alguns segundos antes de suspirar.— Grey, assim não vamos muito longe.— Não me chame assim.— Você respondeu por esse nome durante um mês inteiro.— Continua sendo irritante.— E continua sendo seu nome até eu decidir o contrário.Ele me lançou outro olhar atravessado.Eu sorri.Pequenas vitórias.— Precisamos encontrar um lugar para nos esconder. — continuei.— Ah, claro. E imagino que você tenha um castelo secreto escondido em algum lugar da floresta?— Não exatamente.
Acompanhei Kalevi pela floresta sem dizer nada.As sirenes já não pareciam tão próximas quanto antes, mas eu sabia que não demoraria para encontrarem o caos que havíamos deixado para trás. Minha casa destruída. O corpo do invasor. O sangue espalhado pelo chão.E, junto com tudo aquilo, a vida que eu havia construído nos últimos oito anos.A cada passo, a distância entre mim e Alvorim aumentava. Eu estava deixando para trás minha carreira na clínica veterinária, meus amigos, Jéssica, a rotina simples que havia construído com tanto esforço.Talvez eu nunca mais voltasse.O pensamento deveria me assustar mais do que assustava.Mas a verdade era que aquele vazio nunca tinha desaparecido completamente.Mesmo depois de reconstruir minha vida.Mesmo depois de encontrar um propósito.Mesmo depois de conquistar tudo aquilo sozinha.Uma parte de mim sempre soube que existiam respostas faltando.E agora eu finalmente tinha a oportunidade de encontrá-las.Ou de enterrá-las de uma vez por todas.M
As memórias me atingem como uma tempestade.Por um segundo, deixo de enxergar a sala ao meu redor. Fragmentos do passado explodem dentro da minha cabeça sem qualquer ordem: a cerimônia, a coroação, os olhos cinzentos de Kalevi, a dor da rejeição, o desespero enquanto eu corria pela floresta. Tudo volta de uma vez, arrastando junto uma dor que eu nem sabia que ainda existia.Meu corpo ameaça tremer. Uma parte de mim quer fugir, exatamente como fez oito anos atrás. Mas eu enterro esse impulso antes que ele possa me dominar.Não.Eu não vou fugir de novo.Nunca mais vou me humilhar diante de Kalevi Greyfang.Quando finalmente recupero o controle, percebo que ele também parece ter saído do transe. A confusão em seus olhos desaparece aos poucos, dando lugar a uma frieza racional que eu me lembro muito bem. Ao longe, sirenes ecoam pela noite, e nós dois entendemos imediatamente o que aquilo significa.Grey havia desaparecido.O lobo obediente que dormia na minha cama, roubava minha comida e
Por alguns segundos, simplesmente fiquei encarando aqueles homens.Meu cérebro parecia incapaz de processar o que estava acontecendo.O desconhecido não estava falando com um animal. O modo como olhava para Grey, a forma como pronunciou aquele nome... tudo indicava que estava se dirigindo a alguém escondido atrás daquele lobo.Grey respondeu com um rosnado tão grave que senti a vibração atravessar o chão da sala.O homem apenas riu.— Brincando de animal de estimação? Que decadência para um Alfa.Meu olhar saltou para Grey.Depois para o invasor.Depois voltou para Grey.— Quem são vocês? Do que estão falando? — exigi.O homem sequer se dignou a olhar para mim.— Calada, Ômega. A brincadeira acabou. Nenhum dos dois vai sair vivo daqui.Meu estômago afundou.Antes que eu pudesse responder, algo impossível aconteceu.As unhas dele cresceram diante dos meus olhos, transformando-se em garras afiadas. Seus caninos também pareciam longos demais para serem humanos.Por um instante, fiquei co
Meu coração quase saiu pela boca.Por um instante, imaginei todos os cenários possíveis. Ataques, gritos, ambulâncias, processos judiciais... Eu já estava me condenando por ter sido a pessoa mais irresponsável do planeta.Então voltei à realidade.O lobo não estava atacando a Sra. Woods.Ele estava pedindo carinho.Fiquei parada, piscando, enquanto aquele gigante esfregava a cabeça na mão da senhorinha e recebia afagos como um cachorro carente.— Ora, se eu soubesse que era essa gracinha, teria tirado a focinheira desde o começo! — ela disse, rindo.Observei a cena sem acreditar. Com a língua para fora e os olhos semicerrados de satisfação, ele parecia tudo, menos um lobo selvagem.— Você tem certeza de que é um lobo? — murmurei.— E como se chama esse bebezão? — perguntou a Sra. Woods.Travei.Eu não tinha pensado nisso.— Ah... o nome dele é... — tentei me apegar à característica mais básica. — Grey!Assim que falei, as orelhas do lobo se ergueram. Ele virou a cabeça na minha direçã
Estou cercada.Vários lobos claramente hostis me rodeiam como se eu fosse o prato principal. Mas, um deles, maior que todos os outros, se sobressai. Enquanto os outros lobos mostravam suas presas e rosnavam, este não demonstrava nenhuma raiva. Era enorme, de pelagem cinzenta como cinzas sobre a neve, e tinha olhos azul-acinzentados que brilhavam como prata. Seu olhar carregava algo muito pior do que apenas hostilidade primitiva: um desdém frio que congela os meus ossos.A sensação era tão terrível que boa parte de mim considerava melhor ser destroçada viva por todos aqueles lobos raivosos do que encarar aqueles olhos cinzentos.Ele se aproxima, os outros nem ousam respirar errado. Era nítido quem mandava ali. E então ele rosna baixo, como se quisesse que apenas eu notasse.“Eu rejeito você.”. A voz ressoa na minha mente, como uma maldição. Uma voz tão familiar e desconhecida ao mesmo tempo.Ele avança sobre mim e… Eu acordo. O coração a mil.Um pesadelo. Apenas isso.Raios de sol já







