LOGINOs uivos fizeram Kalevi ficar imediatamente em alerta.Não precisei conhecê-lo por muito tempo para perceber. Seus ombros ficaram rígidos, os olhos percorreram a floresta ao redor e sua postura mudou completamente.Aquilo não era bom sinal.— Pela sua cara, ouso dizer que não são nossos salvadores chegando, não é? — perguntei.Kalevi lançou um olhar irritado na minha direção.— Precisamos sair daqui.Ele aumentou o ritmo da caminhada, o que seria uma ótima ideia se não estivesse coberto de ferimentos.Observei-o por alguns segundos antes de suspirar.— Grey, assim não vamos muito longe.— Não me chame assim.— Você respondeu por esse nome durante um mês inteiro.— Continua sendo irritante.— E continua sendo seu nome até eu decidir o contrário.Ele me lançou outro olhar atravessado.Eu sorri.Pequenas vitórias.— Precisamos encontrar um lugar para nos esconder. — continuei.— Ah, claro. E imagino que você tenha um castelo secreto escondido em algum lugar da floresta?— Não exatamente.
Acompanhei Kalevi pela floresta sem dizer nada.As sirenes já não pareciam tão próximas quanto antes, mas eu sabia que não demoraria para encontrarem o caos que havíamos deixado para trás. Minha casa destruída. O corpo do invasor. O sangue espalhado pelo chão.E, junto com tudo aquilo, a vida que eu havia construído nos últimos oito anos.A cada passo, a distância entre mim e Alvorim aumentava. Eu estava deixando para trás minha carreira na clínica veterinária, meus amigos, Jéssica, a rotina simples que havia construído com tanto esforço.Talvez eu nunca mais voltasse.O pensamento deveria me assustar mais do que assustava.Mas a verdade era que aquele vazio nunca tinha desaparecido completamente.Mesmo depois de reconstruir minha vida.Mesmo depois de encontrar um propósito.Mesmo depois de conquistar tudo aquilo sozinha.Uma parte de mim sempre soube que existiam respostas faltando.E agora eu finalmente tinha a oportunidade de encontrá-las.Ou de enterrá-las de uma vez por todas.M
As memórias me atingem como uma tempestade.Por um segundo, deixo de enxergar a sala ao meu redor. Fragmentos do passado explodem dentro da minha cabeça sem qualquer ordem: a cerimônia, a coroação, os olhos cinzentos de Kalevi, a dor da rejeição, o desespero enquanto eu corria pela floresta. Tudo volta de uma vez, arrastando junto uma dor que eu nem sabia que ainda existia.Meu corpo ameaça tremer. Uma parte de mim quer fugir, exatamente como fez oito anos atrás. Mas eu enterro esse impulso antes que ele possa me dominar.Não.Eu não vou fugir de novo.Nunca mais vou me humilhar diante de Kalevi Greyfang.Quando finalmente recupero o controle, percebo que ele também parece ter saído do transe. A confusão em seus olhos desaparece aos poucos, dando lugar a uma frieza racional que eu me lembro muito bem. Ao longe, sirenes ecoam pela noite, e nós dois entendemos imediatamente o que aquilo significa.Grey havia desaparecido.O lobo obediente que dormia na minha cama, roubava minha comida e
Por alguns segundos, simplesmente fiquei encarando aqueles homens.Meu cérebro parecia incapaz de processar o que estava acontecendo.O desconhecido não estava falando com um animal. O modo como olhava para Grey, a forma como pronunciou aquele nome... tudo indicava que estava se dirigindo a alguém escondido atrás daquele lobo.Grey respondeu com um rosnado tão grave que senti a vibração atravessar o chão da sala.O homem apenas riu.— Brincando de animal de estimação? Que decadência para um Alfa.Meu olhar saltou para Grey.Depois para o invasor.Depois voltou para Grey.— Quem são vocês? Do que estão falando? — exigi.O homem sequer se dignou a olhar para mim.— Calada, Ômega. A brincadeira acabou. Nenhum dos dois vai sair vivo daqui.Meu estômago afundou.Antes que eu pudesse responder, algo impossível aconteceu.As unhas dele cresceram diante dos meus olhos, transformando-se em garras afiadas. Seus caninos também pareciam longos demais para serem humanos.Por um instante, fiquei co
Meu coração quase saiu pela boca.Por um instante, imaginei todos os cenários possíveis. Ataques, gritos, ambulâncias, processos judiciais... Eu já estava me condenando por ter sido a pessoa mais irresponsável do planeta.Então voltei à realidade.O lobo não estava atacando a Sra. Woods.Ele estava pedindo carinho.Fiquei parada, piscando, enquanto aquele gigante esfregava a cabeça na mão da senhorinha e recebia afagos como um cachorro carente.— Ora, se eu soubesse que era essa gracinha, teria tirado a focinheira desde o começo! — ela disse, rindo.Observei a cena sem acreditar. Com a língua para fora e os olhos semicerrados de satisfação, ele parecia tudo, menos um lobo selvagem.— Você tem certeza de que é um lobo? — murmurei.— E como se chama esse bebezão? — perguntou a Sra. Woods.Travei.Eu não tinha pensado nisso.— Ah... o nome dele é... — tentei me apegar à característica mais básica. — Grey!Assim que falei, as orelhas do lobo se ergueram. Ele virou a cabeça na minha direçã
Estou cercada.Vários lobos claramente hostis me rodeiam como se eu fosse o prato principal. Mas, um deles, maior que todos os outros, se sobressai. Enquanto os outros lobos mostravam suas presas e rosnavam, este não demonstrava nenhuma raiva. Era enorme, de pelagem cinzenta como cinzas sobre a neve, e tinha olhos azul-acinzentados que brilhavam como prata. Seu olhar carregava algo muito pior do que apenas hostilidade primitiva: um desdém frio que congela os meus ossos.A sensação era tão terrível que boa parte de mim considerava melhor ser destroçada viva por todos aqueles lobos raivosos do que encarar aqueles olhos cinzentos.Ele se aproxima, os outros nem ousam respirar errado. Era nítido quem mandava ali. E então ele rosna baixo, como se quisesse que apenas eu notasse.“Eu rejeito você.”. A voz ressoa na minha mente, como uma maldição. Uma voz tão familiar e desconhecida ao mesmo tempo.Ele avança sobre mim e… Eu acordo. O coração a mil.Um pesadelo. Apenas isso.Raios de sol já







