Ponto de Vista de Sable.
— Qual é, Sable, aceita jantar comigo hoje à noite. — Pediu o Alfa Darius.
No lugar de qualquer outra loba, o normal seria querer chamar a atenção do líder. Especialmente de um cara tão bonito quanto Darius Steel. Mas eu não, nunca considerei a ideia de dar corda para um lobo que não fosse o meu companheiro destinado.
O Alfa Darius sabia disso, mas nunca deixou de insistir.
— Alfa, isso seria inadequado. Além do mais, nós não somos companheiros destinados, e você bem sabe o que eu penso sobre me envolver com qualquer lobo que não seja o meu companheiro. — Respondi, dando mais um fora nele pela milionésima vez.
— Não é um encontro. São apenas duas pessoas dividindo uma refeição. Vai, o que você me diz? — Ele insistiu.
— Alfa, eu agradeço o convite, mas de verdade, eu só quero ir para casa e descansar pelo resto da noite. O treino de hoje foi bem pesado e eu estou exausta. — Disse, recusando mais uma vez.
Ele me encarou com aqueles olhos azul-acinzentados e fingiu uma carinha triste.
— Tudo bem. Que tal amanhã, então?
— Só vou pensar no amanhã quando ele chegar. — Comentei, me despedindo com um aceno enquanto começava a andar em direção ao meu pequeno chalé.
Era uma casa simples, com dois quartos e um banheiro. Tinha um ar muito aconchegante, com ervas aromáticas crescendo nas floreiras das janelas. Na varandinha da frente, ficava uma cadeira de balanço antiga, mas firme. Dava para ver que era bem usada; os braços de madeira eram lisos de tanto eu esfregar as mãos ali no fim do dia, enquanto me balançava coberta por uma manta.
Entrei, tirei as roupas suadas do treino de guerreiros e liguei o chuveiro, deixando o banheiro encher de vapor. Quando olhei no espelho e vi o vapor subindo ao meu redor, notei como o meu olhar parecia vazio. Minha vida não era ruim, eu era uma guerreira na alcateia Dark Flame. O Alfa Darius Steel era um bom líder para o nosso povo, embora eu não fizesse a menor ideia de como a alcateia conseguia se manter tão rica se a nossa única fonte de renda era a agricultura. Eu sabia que a terra dava um bom retorno, mas não a ponto da alcateia ter várias Escalades na garagem e, ao mesmo tempo, reformar a sede e o hospital da alcateia. De qualquer forma, ele tratava todo mundo com respeito. Eu só queria que ele parasse de tentar dar em cima de mim.
Ele era atraente, tinha cabelos castanhos e olhos azul-acinzentados. Devia ter quase um metro e noventa e ombros largos. Era forte, mas sem exagero; tinha mais um porte atlético e esguio. Acho que eu poderia estar em uma situação bem pior, mas ainda assim, não queria me rebaixar ficando com alguém que não fosse o meu companheiro destinado.
Meus pais eram companheiros destinados, eles se amavam de verdade. Sempre conversavam comigo e diziam para eu esperar, não importava o que acontecesse. Esperar pelo lobo que a Deusa da Lua tinha reservado para mim. Eles diziam que, quando nos encontrássemos, seria no momento em que mais precisaríamos um do outro.
Assim que a água quente bateu no meu corpo, senti toda a tensão do dia se dissipar. Lavei o suor e a oleosidade do cabelo e tirei a sujeira da pele. Depois, me virei de costas e deixei a água quente cair direto nas minhas costas. Era o alívio que o meu corpo pedia.
Quando terminei, me enxuguei e fui me trocar no quarto. Coloquei uma calça legging capri e uma camiseta larga que caía por cima de um dos ombros. Sequei o cabelo com a toalha o melhor que pude, desembaracei os fios e fiz uma trança frouxa. Fui até a cozinha e esquentei uma das refeições que eu mesma tinha congelado no fim de semana.
Sentei-me à mesa pequena e comecei a comer. Minha mente acabou voltando para os meus pais. Quando eles eram vivos, nós três morávamos juntos e éramos muito felizes neste chalé. Minha mãe e eu cozinhávamos e meu pai ajudava a lavar a louça depois de cada refeição. Eles se movimentavam em perfeita sintonia em tudo o que faziam juntos. Se a perfeição pudesse ser representada por duas pessoas, seriam eles dois. Tudo parecia natural e sem esforço. Lembro que, quando eu tinha uns dezesseis anos, perguntei se eles nunca discutiam.
Eles olharam para mim e riram:
— Minha querida, nenhum relacionamento é perfeito. Exige dedicação, paciência, amor e compreensão. — Disse minha mãe, olhando com carinho para o meu pai.
— Quando você conhecer o seu companheiro destinado, pode ser que ele esteja passando por algo difícil, que você não saiba bem como lidar, e está tudo bem. Você só precisa se lembrar de que a Deusa da Lua não comete erros. Todo mundo é unido ao seu companheiro por uma razão, mesmo que você não entenda isso no começo.
Meu pai completou:
— Quando conheci a sua mãe, minha joaninha, eu não queria levar o vínculo a sério. Quase perdi a loba da minha vida. Graças à Deusa percebi a tempo, senão quem sabe o que teria sido de mim sem ela. — Ele concluiu, sorrindo para a minha mãe com o amor mais sincero e profundo nos olhos.
— Acima de tudo — acrescentou minha mãe —, espere por quem a Deusa da Lua reservou para você. Você vai precisar dele tanto quanto ele vai precisar de você, e o amor só vai crescer a partir dali.
Preparei um chá chai com um pouco de leite e fui para o lado de fora me balançar na cadeira. Quando eu era mais nova, tinha certeza de que o meu melhor amigo, Ethan, seria o meu companheiro. Nós dois éramos loucos um pelo outro. Ele completou dezoito anos primeiro, mas não encontrou a companheira dele de imediato. Nós tínhamos certeza de que o vínculo se confirmaria assim que eu completasse dezoito. Mas quando o meu aniversário chegou, percebemos que não éramos companheiros destinados. Em compensação, o destino dele era a Rosalie. Justo a Rosalie, que sempre implicava comigo e praticava bullying. E, num piscar de olhos, o meu melhor amigo sumiu da minha vida. Fiquei arrasada.
Para piorar, dois meses depois que fiz dezoito anos, minha mãe faleceu de repente. Meu pai ficou inconsolável e entrou em uma depressão profunda. Três meses depois, ele morreu de tristeza, com o coração partido. No fim das contas, eu estava completamente sozinha. Foi aí que decidi me tornar guerreira. Eu era forte, tinha um bom físico e seguir esse caminho pareceu o passo mais lógico, já que meus pais não estavam mais ali por mim.
Nia, minha loba, precisava desse contato com outros lobos. Meus pais tinham me deixado o chalé, e tudo ali era o que me restava das lembranças deles. Já se passaram cinco anos. Com vinte e três anos agora, havia me esforçado muito para me tornar a principal guerreira da Dark Flame. Embora tivesse orgulho do que conquistei, sentia que faltava uma parte de mim. Eu adoraria encontrar o meu companheiro, mas de uma coisa eu tinha certeza: ele não estava nesta alcateia. Isso me fez pensar em duas coisas. Primeiro, em qual alcateia será que ele está? Segundo, o que terá acontecido com ele?