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Capítulo 5 — O Lado Feroz.

last update publish date: 2026-09-02 03:01:25

Os dias seguintes foram um inferno lento.

Toda manhã Iris chegava na Academia e já sentia os olhares. Os cochichos. As risadas baixas que paravam quando ela passava e recomeçavam assim que ela virava as costas. Os cartazes tinham sumido, mas a frase “luna pobre rejeitada” ainda ecoava pelos corredores como um grito silencioso.

As alunas de Sofia a empurravam nos corredores. Derrubavam seus livros de propósito. Sussurravam “rejeitada” bem perto do ouvido dela quando o professor não estava olhando. Um dia alguém colocou cola no lugar dela na sala. Em outro, rasgaram a capa do único caderno novo que ela tinha.

E Luke?

Luke fingia que ela não existia.

Passava por ela nos corredores como se fosse ar. Ria com Sofia. Beijava Sofia. Colocava o braço em volta dos ombros de Sofia na frente de todo mundo. Cada gesto era uma facada nova no vínculo já dilacerado. Cada vez que o cheiro dele se aproximava e depois se afastava sem sequer um olhar, a dor física aumentava e junto com a dor, crescia outra coisa.

Raiva.

No começo era só um calor desconfortável no peito. Depois virou um fogo baixo, constante. Iris tentava engolir. Tentava lembrar que ela era a invisível, a que não chamava atenção, a que só queria terminar o ensino médio em paz. Mas cada humilhação nova alimentava a chama.

Sofia ria alto demais quando a via.

Luke a ignorava alto demais.

E os outros alunos seguiam o exemplo como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Na quinta-feira, Iris estava no pátio quando um grupo de meninos do segundo ano passou por ela e um deles disse, alto o suficiente para metade do pátio ouvir:

— Olha a rejeitada. Será que o vínculo do Luke ainda lateja quando ele goza na Sofia?

As risadas explodiram.

Iris parou.

O sangue subiu quente até as orelhas. A loba dentro dela, até então encolhida e ferida, ergueu a cabeça. Os olhos de Iris escureceram por um segundo. As unhas se cravaram nas palmas das mãos.

Não.

Não ia mais engolir.

Naquele mesmo intervalo, ela viu Luke encostado na parede perto das arquibancadas, cercado por amigos e por Sofia grudada nele como sempre. O sorriso preguiçoso no rosto. O ar de quem era dono daquele lugar.

Iris andou até ele.

Cada passo era pesado. O coração batia tão forte que doía. O vínculo puxava, quente e traidor, mas a raiva era maior. Quando parou na frente dele, o pequeno círculo de pessoas ficou em silêncio.

Luke ergueu uma sobrancelha, como se ela fosse uma mosca inconveniente.

— O que foi? — perguntou, a voz preguiçosa, sem sequer se afastar de Sofia.

Iris sentiu a loba tomar conta da voz.

— Você é um covarde.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Várias cabeças se viraram. Alguém soltou um “o quê?” baixo. Sofia abriu a boca, pronta para atacar, mas Luke ergueu a mão e a fez calar com um gesto.

Ele olhou para Iris de verdade pela primeira vez desde a sala de artes.

Os olhos escuros estavam frios. Calculistas. O sorriso desapareceu.

— Repete — disse ele, baixo.

Iris não recuou. As mãos tremiam, mas a voz saiu firme, carregada de tudo que tinha engolido nos últimos dias.

— Você é um covarde. Rejeitou o vínculo na minha cara, deixou que me transformassem em piada e agora se esconde atrás dela como se nada tivesse acontecido. Olha para mim e diz de novo que eu não conto.

Por um segundo, só um, o vínculo latejou tão forte entre os dois que Iris quase tropeçou. Ela viu a mandíbula de Luke travar. Viu as pupilas dele dilatarem. Viu o lobo atrás dos olhos dele reagir.

Depois ele sorriu.

Não foi um sorriso bonito.

Foi cruel.

Luke se afastou de Sofia devagar, deu um passo na direção de Iris e inclinou a cabeça, como se estudasse um inseto.

— Você quer que eu diga de novo? — perguntou, a voz alta o suficiente para todos ao redor ouvirem. — Tudo bem.

Ele olhou em volta, garantindo que tinha a atenção de todo o pátio, e depois cravou os olhos nela.

— Você não conta, Iris. Nunca contou. E nunca vai contar. O vínculo foi um erro da Lua. Eu não quero você. Não te desejo. Não te respeito. E se continuar tentando aparecer na minha frente, eu vou garantir que a escola inteira saiba exatamente o quão patética você é.

Sofia riu.

Alguém no fundo assobiou.

Luke se aproximou mais um passo, tão perto que Iris sentiu o cheiro dele invadir os pulmões, madeira, couro e a Bruma ainda viva entre eles.

— Agora some da minha frente — sussurrou ele, só para ela. — Antes que eu decida fazer todo mundo daqui saber o qual miserável você é.

Iris ficou parada.

O lado feroz que tinha subido à tona segundos antes se quebrou no meio. A raiva ainda queimava, mas agora misturada com uma humilhação tão profunda que doía fisicamente. O vínculo latejou uma última vez, traído e rejeitado de novo, publicamente, na frente de dezenas de pessoas.

Luke virou as costas como se ela já tivesse deixado de existir.

Sofia passou o braço no dele e os dois se afastaram, rindo baixinho.

Iris ficou sozinha no meio do pátio, cercada de olhares e risadas, com o gosto de sangue na boca e uma certeza nova crescendo no peito:

Um dia, ele ia se arrepender.

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