LOGINA academia ficava numa sala estreita no fundo de um prédio comercial, com espelhos rachados e cheiro de ferro.Kayle empurrou a porta no primeiro sábado e olhou Iris de cima a baixo.— Você come como quem quer desaparecer — disse. — E o corpo responde. Magra demais. Ombro fechado. Cara de quem pede desculpa por ocupar espaço. Isso morre aqui.Iris cruzou os braços.— Eu não quero ser igual a elas.— Não vai ser. Elas usam o corpo para serem escolhidas. Você vai usar o corpo para não ser ignorada.O plano era simples e pesado.Comer de verdade. Treinar até doer. Dormir. Repetir.Nas primeiras semanas, Iris odiou cada parte. O arroz que a mãe passou a fazer em porção maior. O frango. O ovo. O peso nas mãos. O
O caderno de Kayle ficou aberto sobre a cama por três noites. Nomes. Alcateias. Datas. O que cada herdeiro valorizava. O que cada família fingia ser. Iris lia e relia até as letras se misturarem. O ódio ainda queimava, mas ódio sozinho não derrubava ninguém. Ela já tinha aprendido isso no pátio da Academia, quando chamou Luke de covarde e saiu menor do que entrou. Na quarta noite, Kayle fechou o caderno. — Se a gente voltar do mesmo jeito que saiu, eles vão rir de novo — disse. — Pobre. Sem nome. Sem peso. A faculdade dos herdeiros não aceita rejeitada. Aceita poder. Iris sentou na beira da cama, as costelas ainda doloridas por baixo da blusa. — Então eu preciso mudar. — Não só o cabelo e a roupa. Isso é o fácil. Você
A nova escola não tinha brasões esculpidos nem carros pretos no portão.Era um prédio comum, de paredes descascadas e pátio de concreto rachado. Ninguém usava uniforme de grife. Ninguém cheirava a perfume importado. Iris se sentou no fundo da sala no primeiro dia e, pela primeira vez em meses, ninguém apontou. Ninguém sussurrou “rejeitada”. Ninguém a olhou como se ela fosse uma piada.Ainda assim, o vínculo continuava lá.Uma dor baixa, constante, puxando na direção errada. Na direção de uma cidade que ela tinha deixado para trás. Na direção de um lobo que tinha escolhido cuspi-la.No terceiro dia, alguém sentou do lado dela no intervalo.— Você também veio da Academia Lobo Prateado, né?Iris ergueu os olhos.A garota tinha cabelo curto e
A pancada veio sem aviso.Iris estava saindo do banheiro do segundo andar quando alguém a puxou pelo cabelo e a jogou contra a parede. A nuca bateu no azulejo. O ar sumiu. Antes que ela conseguisse entender, mãos a seguraram pelos braços e a arrastaram de volta para o vestiário.Sofia estava lá.Não sozinha.Duas lobas do círculo dela e um menino do time de combate, o mesmo que tinha rido alto no pátio dias antes. A porta foi trancada por dentro.— A rejeitada ainda não aprendeu — disse Sofia, a voz doce demais. — Achou que podia chamar o Luke de covarde na frente de todo mundo e sair ilesa?Iris tentou se soltar. A loba dentro dela rosnou, mas o corpo humano ainda era fraco, cansado, marcado pelo vínculo rejeitado. Uma das garotas segurou seus pulsos. O menino empurrou o ombro dela com força suficiente para fazê-la cair de joelho no chão frio.O primeiro chute acertou as costelas.O segundo, a coxa.Alguém puxou o blazer até o tecido rasgar. Alguém cuspiu. Sofia se agachou na frente
Os dias seguintes foram um inferno lento. Toda manhã Iris chegava na Academia e já sentia os olhares. Os cochichos. As risadas baixas que paravam quando ela passava e recomeçavam assim que ela virava as costas. Os cartazes tinham sumido, mas a frase “luna pobre rejeitada” ainda ecoava pelos corredores como um grito silencioso. As alunas de Sofia a empurravam nos corredores. Derrubavam seus livros de propósito. Sussurravam “rejeitada” bem perto do ouvido dela quando o professor não estava olhando. Um dia alguém colocou cola no lugar dela na sala. Em outro, rasgaram a capa do único caderno novo que ela tinha. E Luke? Luke fingia que ela não existia. Passava por ela nos corredores como se fosse ar. Ria com Sofia. Beijava Sofia. Colocava o braço em volta dos ombros de Sofia na frente de todo mundo. Cada gesto era uma facada nova no vínculo já dilacerado. Cada vez que o cheiro dele se aproximava e depois se afastava sem sequer um olhar, a dor física aumentava e junto com a dor, cresci
No dia seguinte, Iris quase não foi. Acordou com os olhos inchados e a dor do vínculo latejando no peito como um hematoma que não cicatrizava. A dor física era real. Queimava sob a pele, apertava a garganta, fazia o estômago revirar toda vez que ela lembrava do cheiro de Sofia misturado ao de Luke. A mãe notou o rosto dela na cozinha e perguntou de novo se estava tudo bem. Iris mentiu com a voz rouca. Vestiu o uniforme, pegou a mochila e saiu de casa com as mãos trêmulas e o coração batendo alto demais. Na Academia, o ar já estava pesado. Os cartazes ainda estavam colados em alguns lugares, menos que no dia anterior, mas suficientes para lembrar a todos quem era a “luna pobre rejeitada”. Alguns alunos apontavam quando ela passava. Outros riam baixinho. Iris manteve a cabeça baixa e caminhou direto para o vestiário feminino do segundo andar. Queria trocar de blazer antes da aula de combate. Queria apenas cinco minutos de silêncio. Cinco minutos em que ninguém a olhasse como se ela f







