LOGINNo dia seguinte, Iris quase não foi.
Acordou com os olhos inchados e a dor do vínculo latejando no peito como um hematoma que não cicatrizava. A dor física era real. Queimava sob a pele, apertava a garganta, fazia o estômago revirar toda vez que ela lembrava do cheiro de Sofia misturado ao de Luke. A mãe notou o rosto dela na cozinha e perguntou de novo se estava tudo bem. Iris mentiu com a voz rouca. Vestiu o uniforme, pegou a mochila e saiu de casa com as mãos trêmulas e o coração batendo alto demais. Na Academia, o ar já estava pesado. Os cartazes ainda estavam colados em alguns lugares, menos que no dia anterior, mas suficientes para lembrar a todos quem era a “luna pobre rejeitada”. Alguns alunos apontavam quando ela passava. Outros riam baixinho. Iris manteve a cabeça baixa e caminhou direto para o vestiário feminino do segundo andar. Queria trocar de blazer antes da aula de combate. Queria apenas cinco minutos de silêncio. Cinco minutos em que ninguém a olhasse como se ela fosse uma piada ambulante. Não teve nenhum. Assim que entrou, a porta se fechou atrás dela com um estrondo seco. Três alunas estavam esperando. Sofia Voss no meio, os braços cruzados, o sorriso doce e cruel que ela usava quando queria magoar. Ao lado dela, duas lobas do círculo próximo de Luke, uma ruiva de cabelo curto e olhar afiado, e outra morena de unhas longas e vermelhas. As três cheiravam a perfume caro e a arrogância. O cheiro de Sofia, especialmente, fez o vínculo de Iris se contorcer de dor. — Olha só quem apareceu — disse Sofia, dando um passo à frente. — A rejeitada. Iris recuou instintivamente até bater as costas no armário frio. A ruiva puxou a mochila dela com força. O zíper abriu. Os livros e cadernos caíram espalhados pelo chão de azulejo, folhas soltas voando. A morena chutou um caderno para longe, como se fosse lixo. — Você ainda não entendeu, é? — continuou Sofia, a voz baixa o bastante para não chamar atenção de fora, mas afiada o suficiente para cortar. — Luke te rejeitou. Na frente de todo mundo. Ele te olhou e decidiu que você não presta. E mesmo assim você continua andando por aí como se tivesse algum direito de existir perto dele. Iris abriu a boca para responder, mas a mão da ruiva já tinha agarrado os óculos dela. O estalo seco ecoou no vestiário. As lentes racharam. A armação torta caiu no chão e foi esmagada sob o salto do sapato de Sofia. O som do plástico quebrando fez Iris estremecer. — Nunca tente chegar perto dele de novo — sussurrou Sofia, inclinando o rosto perto do de Iris, tão perto que ela sentiu o hálito doce e o cheiro de Luke ainda impregnado na pele da outra. — Mesmo ele tendo te cuspido fora, uma Luna sempre será uma Luna. E você… você não é nada. Sem família, sem prestígio, sem beleza. Se tentar se aproximar outra vez, um óculos vai ser o de menos a ser quebrado. Entendeu, rejeitada? Iris sentiu o gosto de sangue na boca. Tinha mordido o lábio sem perceber. As três riram baixinho, o som ecoando nas paredes do vestiário, e saíram juntas, deixando-a sozinha no meio dos livros espalhados e dos cacos de vidro. Iris se agachou com as mãos trêmulas. Os óculos estavam inutilizáveis. O mundo ao redor ficou embaçado, distante, como se ela estivesse olhando através de água. Ela recolheu os cadernos um por um, o peito doendo tanto que mal conseguia respirar. O vínculo rejeitado latejava com mais força, como se a humilhação pública o alimentasse. Cada batida era uma lembrança: Luke empurrando dentro de outra, os olhos presos nela, a voz fria dizendo que ela não contava. Ela não entendia. Não entendia por que aquelas lobas a odiavam tanto. Não entendia por que o destino a tinha amarrado exatamente ao único lobo que a via como lixo. Não entendia como era possível sentir o corpo dele ainda, o calor, o cheiro, a urgência, mesmo depois de tudo. A loba dentro dela uivava de dor e confusão, querendo correr até ele e ao mesmo tempo querendo desaparecer para sempre. Quando finalmente saiu do vestiário, os corredores já estavam cheios. Iris caminhou devagar, os olhos quase fechados para enxergar melhor sem os óculos. Cada passo era um esforço. O mundo embaçado tornava tudo mais distante e, ao mesmo tempo, mais ameaçador. Foi então que ouviu as risadas e viu a pequena multidão no meio do corredor principal. Luke estava encostado no armário. Sofia estava grudada nele, as mãos no peito dele, o corpo pressionado contra o dele de um jeito proposital demais. Luke tinha uma mão na cintura dela e a outra no cabelo loiro, puxando a cabeça dela para um beijo lento, profundo, na frente de todo mundo. Os alunos ao redor riam, assobiavam, filmavam com os celulares. Alguém gritou “é isso aí, futuro Alfa!”. Ele não olhou para Iris. Mas ela sabia que ele sentia. O vínculo puxou, quente e cruel, no exato momento em que Sofia gemeu baixinho contra a boca dele. Luke aprofundou o beijo, apertando a cintura dela, como se quisesse deixar claro para todos e especialmente para ela, que a rejeição era real, pública e definitiva. O cheiro deles se misturava no ar, e Iris sentiu o estômago revirar. Ela parou a poucos metros. Ninguém precisou empurrá-la. Ninguém precisou xingá-la de novo. A imagem sozinha era suficiente. Luke Blackwood, o herdeiro, beijando sua futura Luna na frente da escola inteira, enquanto a verdadeira destinada dele, a pobre, a invisível, a rejeitada, observava de longe com os óculos quebrados na mochila e o coração em pedaços. Iris virou o rosto e continuou andando. Dessa vez, não chorou no banheiro. Dessa vez, a dor era grande demais até para lágrimas. Era uma coisa fria, pesada, que se instalava no peito e prometia ficar.A academia ficava numa sala estreita no fundo de um prédio comercial, com espelhos rachados e cheiro de ferro.Kayle empurrou a porta no primeiro sábado e olhou Iris de cima a baixo.— Você come como quem quer desaparecer — disse. — E o corpo responde. Magra demais. Ombro fechado. Cara de quem pede desculpa por ocupar espaço. Isso morre aqui.Iris cruzou os braços.— Eu não quero ser igual a elas.— Não vai ser. Elas usam o corpo para serem escolhidas. Você vai usar o corpo para não ser ignorada.O plano era simples e pesado.Comer de verdade. Treinar até doer. Dormir. Repetir.Nas primeiras semanas, Iris odiou cada parte. O arroz que a mãe passou a fazer em porção maior. O frango. O ovo. O peso nas mãos. O
O caderno de Kayle ficou aberto sobre a cama por três noites. Nomes. Alcateias. Datas. O que cada herdeiro valorizava. O que cada família fingia ser. Iris lia e relia até as letras se misturarem. O ódio ainda queimava, mas ódio sozinho não derrubava ninguém. Ela já tinha aprendido isso no pátio da Academia, quando chamou Luke de covarde e saiu menor do que entrou. Na quarta noite, Kayle fechou o caderno. — Se a gente voltar do mesmo jeito que saiu, eles vão rir de novo — disse. — Pobre. Sem nome. Sem peso. A faculdade dos herdeiros não aceita rejeitada. Aceita poder. Iris sentou na beira da cama, as costelas ainda doloridas por baixo da blusa. — Então eu preciso mudar. — Não só o cabelo e a roupa. Isso é o fácil. Você
A nova escola não tinha brasões esculpidos nem carros pretos no portão.Era um prédio comum, de paredes descascadas e pátio de concreto rachado. Ninguém usava uniforme de grife. Ninguém cheirava a perfume importado. Iris se sentou no fundo da sala no primeiro dia e, pela primeira vez em meses, ninguém apontou. Ninguém sussurrou “rejeitada”. Ninguém a olhou como se ela fosse uma piada.Ainda assim, o vínculo continuava lá.Uma dor baixa, constante, puxando na direção errada. Na direção de uma cidade que ela tinha deixado para trás. Na direção de um lobo que tinha escolhido cuspi-la.No terceiro dia, alguém sentou do lado dela no intervalo.— Você também veio da Academia Lobo Prateado, né?Iris ergueu os olhos.A garota tinha cabelo curto e
A pancada veio sem aviso.Iris estava saindo do banheiro do segundo andar quando alguém a puxou pelo cabelo e a jogou contra a parede. A nuca bateu no azulejo. O ar sumiu. Antes que ela conseguisse entender, mãos a seguraram pelos braços e a arrastaram de volta para o vestiário.Sofia estava lá.Não sozinha.Duas lobas do círculo dela e um menino do time de combate, o mesmo que tinha rido alto no pátio dias antes. A porta foi trancada por dentro.— A rejeitada ainda não aprendeu — disse Sofia, a voz doce demais. — Achou que podia chamar o Luke de covarde na frente de todo mundo e sair ilesa?Iris tentou se soltar. A loba dentro dela rosnou, mas o corpo humano ainda era fraco, cansado, marcado pelo vínculo rejeitado. Uma das garotas segurou seus pulsos. O menino empurrou o ombro dela com força suficiente para fazê-la cair de joelho no chão frio.O primeiro chute acertou as costelas.O segundo, a coxa.Alguém puxou o blazer até o tecido rasgar. Alguém cuspiu. Sofia se agachou na frente
Os dias seguintes foram um inferno lento. Toda manhã Iris chegava na Academia e já sentia os olhares. Os cochichos. As risadas baixas que paravam quando ela passava e recomeçavam assim que ela virava as costas. Os cartazes tinham sumido, mas a frase “luna pobre rejeitada” ainda ecoava pelos corredores como um grito silencioso. As alunas de Sofia a empurravam nos corredores. Derrubavam seus livros de propósito. Sussurravam “rejeitada” bem perto do ouvido dela quando o professor não estava olhando. Um dia alguém colocou cola no lugar dela na sala. Em outro, rasgaram a capa do único caderno novo que ela tinha. E Luke? Luke fingia que ela não existia. Passava por ela nos corredores como se fosse ar. Ria com Sofia. Beijava Sofia. Colocava o braço em volta dos ombros de Sofia na frente de todo mundo. Cada gesto era uma facada nova no vínculo já dilacerado. Cada vez que o cheiro dele se aproximava e depois se afastava sem sequer um olhar, a dor física aumentava e junto com a dor, cresci
No dia seguinte, Iris quase não foi. Acordou com os olhos inchados e a dor do vínculo latejando no peito como um hematoma que não cicatrizava. A dor física era real. Queimava sob a pele, apertava a garganta, fazia o estômago revirar toda vez que ela lembrava do cheiro de Sofia misturado ao de Luke. A mãe notou o rosto dela na cozinha e perguntou de novo se estava tudo bem. Iris mentiu com a voz rouca. Vestiu o uniforme, pegou a mochila e saiu de casa com as mãos trêmulas e o coração batendo alto demais. Na Academia, o ar já estava pesado. Os cartazes ainda estavam colados em alguns lugares, menos que no dia anterior, mas suficientes para lembrar a todos quem era a “luna pobre rejeitada”. Alguns alunos apontavam quando ela passava. Outros riam baixinho. Iris manteve a cabeça baixa e caminhou direto para o vestiário feminino do segundo andar. Queria trocar de blazer antes da aula de combate. Queria apenas cinco minutos de silêncio. Cinco minutos em que ninguém a olhasse como se ela f







