LOGINLyra CastelAquela conversa trouxe de volta sentimentos que estavam adormecidos e agora um novo sentimento se misturava aos anteriores: a injustiça. Soluço sobre o travesseiro. É vergonhoso, eu sei, mas não consigo me controlar. Meu peito dói, minha alma dói, aquele lugar especial onde vivia a minha loba também dói com o vazio. As lágrimas vertem com força.Eu deveria ter ficado nas muralhas, mas depois me entendo com o rei. O fato é que estava abalada demais para enfrentar uma batalha, eu poderia colocar não apenas a minha vida em risco, mas também a vida de outros soldados que ficam sob o meu comando.Ouço um som na janela e ergo o olhar para ver a coruja chegar.— Demorou, hoje — comento, limpando a lágrima.“Pruh”— Pruh pra você também.Sento-me na cama, o peito doendo, os olhos da coruja piscando lentamente na minha direção, como se dissesse que estava me esperando falar, desabafar com ela como fiz milhares de vezes desde que cheguei aqui.— Aquele canalha — pego o travesseiro e
Lyra CastelNão permito que suas palavras me atinjam. Como o general me ensinou, muitas coisas que não são feitas de metal são armas: a beleza, o olhar, a sedução, as palavras... Não sei quais são as intenções do Alfa Cassian. Já fui vítima de suas palavras bonitas, não permitirei que ele as use em mim novamente.— É melhor falar o que quer, Alfa Cassian, ou darei ordem para que os ataquem. — Cruzo os braços sobre meu peito.— Você não é apenas um soldado — constata, me analisando. A malha grossa preta como a roupa dos outros soldados fica semicoberta pela capa de pele de urso e uma proteção de metal que atravessa meu peito.— Sou pupila do general, um dos melhores soldados da muralha... Surpreso, Alfa Cassian? — E sim, ele estava surpreso. Sua expressão denunciava. — Diga logo o que quer, é a última vez que pergunto.— Vim levá-la de volta para o lugar de onde não deveria ter saído — diz ele, a voz baixa, como se não quisesse que os outros o ouvisse. Isso acendeu um alerta na minha c
Alfa CassianDepois de uma longa e exaustiva viagem, finalmente enxergo as muralhas do castelo. Altas e extensas como se fossem infinitas.Levei alguns dias para receber a autorização do rei supremo do Reio do Sol e para reunir uma grande quantidade de soldados, um número suficiente para garantir que teremos sucesso em nossa missão: resgatar Lyra. Já tenho tudo planejado.— Ergam o estandarte — peço aos meu soldados que começam a arrumar a bandeira do nosso reino, um tecido cru com um Sol bordado e um lobo sobre ele. — Talvez enviem algum diplomata para entender os nossos motivos.E dessa forma pouparíamos derramamento de sangue. Basta me entregarem a garota. Mas antes que eu pudesse erguer o estandarte, uma saraivada de flechas nos acerta, fazendo gritos de dor surgir de todos os lados.— Ergam a porra do estandarte! — grito, encolhendo-me, fugindo de uma flecha que se cravou no chão ao meu lado.***Lyra CastelEnquanto as tochas se aproximam, reúno ao longo da muralha um grande núm
5 anos depoisAlfa CassianFinalmente uma notícia. Recebo uma sentinela em minha sala de reuniões, peço sigilo total e ponho guardas no corredor, impedindo a aproximação de outra pessoa.— O que descobriu? — inquiro ao homem em minha frente. Seus cabelos escuros trançados chegam até o ombro.— Ela está no Reino da Lua Partida — anuncia ele sem rodeios.Meu coração pesa no peito. Pela sua expressão sabia que era ruim, mas pensei que talvez estivesse na Bruma com os humanos, por isso concentrei minhas buscas por lá e eu jamais tive resposta.— O Reino da Lua... — Isso bem ruim, muito ruim.Todos conhecem aquele reino pela crueldade de seu rei, se ela está lá...— Ela está presa em algum lugar ou foi feita escrava? — pergunto preocupado.A culpa me corrói por dentro desde o dia em que parti o coração da garota. Não deveria ter feito aquilo, nem por toda riqueza, bens e segurança do mundo.— Não senhor. Ela é um dos soldados da muralha.— Lyra... se tornou um soldado? — Lembro-me de como
Lyra CastelPara mim não há diferença da escuridão de quando caí no rio para esta que nos cerca agora. Sem as lamparinas penduradas na carruagem, seria impossível ver o chão por onde estamos passando.Meus olhos ficam presos nas árvores que se modificam conforme o tempo passa. A viagem é longa e se passam algumas horas até que estamos diante de uma imensa muralha de pedra, um portão de madeira de uma extensão que daria para passar duas carruagens juntas.O homem desce da parte da frente, onde guiava o cavalo, e foi até o portão sinalizar para os guardas que, por algum motivo, autorizam a entrada deles.Acho um pouco estranho. Eles devem ter acesso ao castelo por algum motivo, duvido que qualquer morador da floresta ou vilarejo pode apenas chegar nas muralhas do castelo e pedir para entrar, mas me mantenho calada. Não tenho destino planejado, então, se o que vier for melhor do que minha vida de rejeitada no Reino do Sol, eu aceito.Os imensos portões são abertos e atravessamos a grande
Alfa CassianMeu corpo está frio e entorpecido, sentado nesse trono dourado horas a fio, sozinho, analisando a poeira que flutua pelo raio de Sol que entra pela janela aberta. A claridade e calor da sala não refletem em nada o que há dentro de mim, o que sou, me tornei um trapo velho ambulante.— Amor — ouço a voz melosa me chamar, encaro o teto fingindo não ouvir seu chamado. — O que houve?— Quero ficar sozinho — declaro sem olhar para a beldade diante de mim.— Não vai ouvir o que tenho a dizer? — Ela se aproxima, mas continuo com a face virada para a janela.— Está um dia lindo, hoje, não é? — Sinto seus dedos tocando meus cabelos.— O dia está sempre a mesma coisa — respondo frio.— Não é verdade, há dias de chuva — contesta, tentando se sentar em meu colo, mas antes que consiga me levanto. Ela se desequilibra e quase cai. Não me importo.— E continuam sendo iguais para mim.Ela segura em meu rosto, forçando-me a olhar para baixo. Ela fez um bico, tentando me comover, ou me seduz







