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Capítulo 2

Penulis: Aurora Bellini
Acordei em meio a uma dor lancinante. Não era a dor de um ferimento na carne, mas a sensação de ter cada nervo do corpo brutalmente arrancado.

Abri a boca para gritar, mas da minha garganta saiu apenas um chiado rouco, como o ar escapando de um fole.

Minhas cordas vocais estavam lesionadas.

Quando abri os olhos, me deparei com o ambiente branco e frio cheio de aparelhos médicos.

O cheiro de desinfetante se misturava ao odor da minha própria carne queimada, provocando náuseas.

— Acordou?

Gustavo estava sentado ao lado da cama, descascando uma maçã.

Ele vestia um terno impecável, e seus cabelos estavam penteados, sem um único fio fora do lugar. Não tinha a menor aparência de alguém que acabou de sobreviver a um incêndio.

Ao me ver acordada, não perguntou se eu estava sentindo dor, muito menos apertou o botão para chamar um médico.

Apenas levou à boca a maçã que tinha acabado de descascar e a mastigou, produzindo estalos ruidosos.

— Valentina, você tem mesmo uma sorte incrível. Teve queimaduras em quarenta por cento do corpo e, ainda assim, conseguiu sobreviver.

Não havia alívio em seu olhar, apenas decepção.

Ele estava decepcionado por eu não ter morrido imediatamente.

Fitei-o com ódio, tentando erguer a mão para acusá-lo de seus crimes. Mas minhas mãos estavam inteiramente cobertas por bandagens, e eu não conseguia movê-las.

Gustavo puxou um lenço de papel e limpou as mãos com elegância.

— Já resolvi tudo com a polícia. Você usou um aparelho de alta potência sem autorização, sobrecarregando a fiação antiga e provocando um curto-circuito. Como sabe, a empresa está prestes a abrir o capital e não pode se envolver em nenhum escândalo. Portanto, você vai assumir a culpa.

Arregalei os olhos, sentindo que quase saltavam das órbitas.

Queria falar, contar à polícia que havia sido ele quem ateou fogo e trancou a porta.

Gustavo pareceu adivinhar meus pensamentos. Ele se inclinou em minha direção, com um sorriso cruel nos lábios.

— Quer chamar a polícia? Quer me processar? Valentina, agora você está muda. Além disso, tenho um laudo psiquiátrico. Você sofria de depressão durante a gravidez e apresentava tendências à automutilação. Foi você mesma quem provocou este incêndio. Acha que a polícia vai acreditar em mim, um empresário bem-sucedido, ou em uma louca como você?

Meu corpo inteiro tremia de raiva, enquanto o monitor disparava um alarme estridente.

Fiz um gesto em direção à barriga e formulei uma pergunta com os lábios:

— Onde está o bebê?

O olhar de Gustavo vacilou por um instante. Em seguida, ele assumiu a expressão de quem encarava uma pessoa insana.

— Bebê? Que bebê? Valentina, você inalou monóxido de carbono demais e ficou com o cérebro danificado? Você nunca esteve grávida. Tudo não passou de uma gravidez psicológica.

Impossível! Eu havia sentido o bebê se mexer. Havia ouvido as batidas do coração dele.

Eu já estava no sétimo mês. Como poderia ter sido uma gravidez psicológica?

Ele estava mentindo! Devia ter escondido o bebê em algum lugar, ou então...

Não tive coragem de concluir aquele pensamento. As lágrimas escorreram pelos cantos dos meus olhos e atravessaram a pele queimada do meu rosto.

A dor fez minha visão escurecer.

Nesse momento, a porta do quarto se abriu. Maria entrou vestindo um pijama de seda pura que reconheci no mesmo instante.

Minha mãe havia encomendado aquela peça especialmente a uma bordadeira para o meu enxoval de casamento. No corpo dela, porém, o pijama parecia completamente deslocado.

Maria carregava a poodle nos braços. No pescoço do animal, havia um colar de diamantes, o presente que eu recebi no meu aniversário do ano anterior.

— Meu Gustavo...a Valentina acordou?

Maria se aproximou da cama e me examinou de cima, com ar de superioridade.

Um sorriso inocente estampava seu rosto, mas seus olhos transbordavam maldade.

— Valentina, você está tão assustadora agora. Parece um monstro.

De propósito, ela estendeu o braço diante de mim.

Na pele clara, havia uma pequena marca avermelhada do tamanho de uma unha.

— Tentando salvar aquele monte de tralhas suas, acabei sendo atingida por uma fagulha. Gustavo ficou tão preocupado que insistiu em me trazer para o melhor hospital particular da cidade.

Visivelmente preocupado, Gustavo segurou a mão dela e soprou delicadamente sobre a marca.

— Eu disse para você não sair correndo daquele jeito. E se ficar uma cicatriz? Suas mãos foram feitas para tocar piano. A vida dela não significa nada. Como poderia se comparar à sua?

Ao ver aqueles dois desgraçados trocando demonstrações de afeto diante de mim, senti o estômago se revirar.

Maria se voltou para mim e baixou a voz:

— Embora você tenha ficado desfigurada e muda, Gustavo tem um coração tão bom que prometeu sustentar você pelo resto da vida. De agora em diante, pode ficar em casa como empregada. Por coincidência, está faltando alguém para limpar a sujeira da minha poodle. Parece que ela gosta bastante do seu cheiro. Afinal, vocês duas têm o mesmo cheiro de carne queimado.

A poodle latiu duas vezes para mim.

Gustavo acariciou a cabeça do animal, sorrindo com ternura:

— Até uma cachorrinha sabe se comportar.

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