Share

O Amor que Virou Cinza
O Amor que Virou Cinza
Penulis: Aurora Bellini

Capítulo 1

Penulis: Aurora Bellini
Enquanto as línguas de fogo já lambiam as cortinas, eu esmurrava a porta do quarto. A maçaneta estava em brasa, e a pele da minha palma chiava ao tocar a maçaneta.

Sem me importar com a dor, protegi com todas as forças a barriga enorme. A fumaça espessa entrava pelas frestas da porta, queimando meus pulmões a cada respiração.

Do lado de fora, ouvi os latidos estridentes da poodle e a voz suave de Gustavo tentando acalmá-la.

— Não tenha medo, Tita. O papai vai tirar você daqui agora mesmo.

Colei o corpo à porta e arranhei a fresta com as unhas enquanto gritava, com a voz dilacerada:

— Gustavo! Abra a porta! Cof, cof... Eu e o bebê ainda estamos aqui dentro! O fogo está chegando em mim! Gustavo!

Os passos pararam diante da porta. Pensei que ele ainda tivesse um resquício de consciência.

Mas então, a voz de Gustavo atravessou a porta, tão calma que me fez estremecer.

— Valentina Azevedo, pare de fazer cena aí dentro. Você não aguenta nem um pouco de fumaça? A poodle da Maria tem asma e não pode respirar fumaça. Você aguenta, não vai morrer só por ficar aí mais um pouco.

Arregalei os olhos, sem conseguir acreditar. As lágrimas escorriam sem parar por causa da fumaça.

— O que você está dizendo? Isto é um incêndio! Eu vou morrer! O bebê vai morrer!

Gustavo soltou uma risada de desdém.

— Não use o bebê para chamar minha atenção desse jeito. Se realmente se importasse com ele, ficaria quieta aí dentro e pararia de causar problemas para Maria. Quando aprender a valorizar uma vida, eu volto para abrir a porta.

Seus passos se afastaram sem a menor hesitação.

Então, ouvi-o dizer a Maria Santos:

— Rápido, cubra o focinho dela com uma toalha molhada.

Desabei no chão, e minhas unhas deixaram dez rastros de sangue na madeira da porta. Naquele instante, finalmente enxerguei quem era o homem que eu havia amado por três anos.

Para ele, eu e o bebê que carregava no ventre valíamos menos do que a poodle de seu primeiro amor.

O fogo se espalhava depressa demais. Aquilo não era normal. Havia no ar um odor forte e irritante.

Era terebintina.

Gustavo era pintor e guardava grandes quantidades de terebintina em seu ateliê.

O foco do incêndio estava bem diante da porta do quarto. As chamas avançavam de fora para dentro.

Quando vi o líquido oleoso escorrendo por baixo da porta, senti todo o sangue do meu corpo gelar.

Aquilo não havia sido um acidente. Gustavo não estava apenas salvando a poodle, também queria se livrar de mim.

Me lembrei da apólice de seguro que tinha encontrado por acaso alguns dias antes.

No campo reservado ao beneficiário, não constavam os nomes dos meus pais, e sim o do cônjuge.

Em caso de morte acidental, a indenização chegaria a trinta milhões.

Então era isso. Ele queria cobrir o rombo da empresa e abrir caminho para Maria.

Queria me transformar em um cadáver carbonizado.

Corri até a janela, ergui uma cadeira e a arremessei contra o vidro com toda a força.

A cadeira ricocheteou e caiu sobre o peito do meu pé. O vidro nem sequer se moveu.

Então me lembrei. No início da gravidez, Gustavo acariciara minha barriga e dissera que, por segurança, substituiria todas as janelas da casa por vidros blindados.

Na época, achei que ele fosse atencioso nos mínimos detalhes. Agora eu entendia: ele esteve construindo meu caixão com as próprias mãos esse tempo todo.

Estávamos no terceiro andar. As janelas estavam seladas, e a porta, trancada por fora.

Eu estava encurralada, sem qualquer chance de escapar. Uma dor ardente rasgou minhas costas, as chamas já lambiam a barra do meu vestido.

Não tentei mais apagar o fogo. Me encolhi e mantive a barriga firmemente protegida sob o corpo.

Era instinto materno. Mesmo que eu virasse cinzas, precisava preservar para meu filho a última chance de sobreviver.

As barras de sinal do celular oscilaram e, por fim, deram lugar a um X vermelho.

Gustavo havia ligado o bloqueador de sinal. Ele havia dito que instalou o aparelho em toda a casa para impedir o vazamento de segredos comerciais.

Que plano meticuloso. Que crueldade monstruosa.

Arrastei meu corpo pesado até o banheiro.

Ali havia uma pequena abertura de ventilação. Talvez eu conseguisse captar algum sinal.

A cada movimento, o piso escaldante arrancava mais uma camada de pele dos meus joelhos.

Cerrei os dentes e não deixei escapar um único gemido.

Uma filha da família Azevedo podia suportar a dor, mas nunca demonstrar fraqueza.

Por fim, ergui o celular até a abertura. Uma única barra fraca surgiu na tela.

Abri o grupo da família.

Pressionei o botão de áudio e, com o último fôlego, disse:

— Pai, Gustavo disse que quer experimentar como é não conseguir morrer de verdade.

A mensagem foi enviada. No segundo seguinte, a tela do celular explodiu sob o calor.

Lanjutkan membaca buku ini secara gratis
Pindai kode untuk mengunduh Aplikasi

Bab terbaru

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 8

    Um ano depois, a família Azevedo realizou um grandioso "funeral".Apenas minha família e eu comparecemos. Não havia corpos, apenas duas pequenas urnas com cinzas.Eram as cinzas de Gustavo e Maria.Depois daquela noite, os dois passaram três dias agonizando no porão.No fim, ainda foram parar no forno.Lá dentro, Gustavo gritava: "Meu amor, eu errei!", até sua voz se extinguir.Maria não parou de cantar cantigas infantis e, em meio a risadas, foi reduzida a um punhado de cinzas.Henrique contemplou os dois montes de cinzas com repulsa.— Impurezas demais. Que nojo.Sem hesitar, despejou tudo no vaso sanitário e deu a descarga.Com o som da descarga, tudo desapareceu pelo encanamento, seguindo seu destino final.— Essas cinzas não servem nem para serem espalhadas no chão. Ainda poderiam prejudicar as plantas.Meu pai bateu uma mão contra a outra para tirar a poeira e se virou para mim.— Já sente que se vingou? Se ainda não for suficiente, mando alguém desenterrar os parentes deles.Com

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 7

    Gustavo despertou quando um balde de água gelada foi despejado sobre ele. Ao abrir os olhos, percebeu que estava em um imenso espaço subterrâneo.Havia câmaras frigoríficas por toda parte, e o ar estava impregnado de formol e do cheiro de cadáveres.Aquele era o necrotério particular da família Azevedo, construído no subsolo da propriedade.Maria estava amarrada à mesa de autópsia ao lado, com a coleira da sua poodle enfiada na boca.Ela já havia enlouquecido de medo. Seu olhar estava perdido, e a saliva escorria pelo canto dos lábios.Eu permanecia sentada na cadeira de rodas, segurando uma xícara de café quente. Meu pai ajustava o controle de preaquecimento do enorme forno crematório.O rugido da máquina ecoou pelo ambiente, e uma onda de calor nos atingiu. Gustavo encarou a abertura do forno, apavorado.— Valentina! Você enlouqueceu? Vai acabar na cadeia!Sorri e pousei a xícara de café.— Gustavo, estamos no décimo subsolo. Aqui não tem sinal nem câmeras. Mesmo que eu reduza você a

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 6

    A sala de cirurgia havia se transformado em uma câmara de tortura. Os gritos de Maria eram mais assustadores do que os guinchos de um porco no momento do abate.Minha mãe agia com uma precisão cirúrgica. Evitava todas as artérias principais e atacava apenas os pontos onde havia maior concentração de nervos sensíveis à dor.Cada golpe fazia o sangue jorrar, mas nenhum deles era fatal.— Essa técnica ainda precisa ser aprimorada.Meu pai comentou ao lado dela e, com um chute indiferente, lançou para longe a poodle inconsequente que ainda latia sem parar.A poodle bateu contra a parede e seu corpo ficou reduzido a uma massa disforme de carne.— Quando um animal não sabe se comportar, merece um fim condizente com sua natureza.Gustavo encarou a cadela morta, tremendo dos pés à cabeça.Estava aterrorizado, com medo de terminar como Maria.E temia ainda mais terminar como aquela cadela, arremessado para longe com um simples chute e reduzido a uma poça de carne podre.Ele tentou rastejar até

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 5

    Ele encarou o velho que segurava uma motosserra, convencido de que algum lunático havia invadido o hospital.— O que você pensa que está fazendo, seu velho desgraçado? Eu sou Gustavo! O diretor deste hospital é meu amigo! Seguranças! Onde diabos estão os seguranças?Gustavo se levantou do chão e brandiu o bisturi, tentando parecer ameaçador.O jovem que estava parado atrás do meu pai entrou em ação. Era meu irmão, Henrique Azevedo.Com óculos de armação dourada e um jaleco branco impecável, ele tinha uma aparência elegante e refinada.No entanto, segurava uma faca de desossar longa e estreita. Sem dizer uma palavra, fez um movimento rápido com o pulso, e um lampejo prateado cortou o ar.— Aaaah!Gustavo soltou um grito lancinante e caiu de joelhos, apertando a mão direita.Metade do dedo indicador voou pelo ar e caiu bem no colo de Maria.Ao ver o dedo decepado, ainda com o anel, Maria revirou os olhos de horror e quase desmaiou.Henrique ajustou os óculos e disse, em tom indiferente:

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 4

    Ele se virou e foi embora, a passos leves.Às duas da tarde, alguns cuidadores me puseram com brutalidade em uma maca.Nenhum familiar me acompanhava. Ninguém me dirigiu uma palavra de consolo antes da cirurgia.O corredor parecia interminável. O ruído das rodas da maca ecoava pelo espaço vazio, e cada giro soava como o toque de um sino anunciando meu funeral.Maria caminhava ao meu lado, cantarolando.Ela havia trocado de roupa e agora usava um vestido ainda mais bonito, além de uma maquiagem impecável.— Valentina, obrigada pela sua pele. Gustavo disse que, depois que eu ficar com a sua pele, vou poder tê-lo para sempre aos meus pés. — Ela riu, radiante. — Ah, quase me esqueci de contar. O médico disse que não será necessário usar anestesia. Segundo Gustavo, para garantir que a pele continue viável, o melhor é retirá-la diretamente. Afinal, você já está queimada desse jeito, um corte a mais não fará diferença.Fitei as lâmpadas brancas no teto. Meu coração ficou tomado por um silênci

  • O Amor que Virou Cinza   Capítulo 3

    Quando Gustavo voltou, segurava nas mãos um termo de consentimento cirúrgico.Maria não estava com ele. Ele veio sozinho e atirou o documento sobre o meu peito.— Assine.Com esforço, movi os olhos até conseguir ler o que estava escrito."Termo de Consentimento para Doação de Enxerto de Pele.""Receptora: Maria.""Área doadora: pele de espessura total da face interna de ambas as coxas."Ergui bruscamente a cabeça para encará-lo, deixando escapar da garganta um som rouco de indignação.Gustavo ajeitou a gravata e falou como se aquilo fosse a coisa mais razoável do mundo:— O braço de Maria sofreu queimaduras. É com aquelas mãos que ela toca piano, não podem ficar com nenhuma imperfeição. O médico disse que a pele das suas coxas é a mais adequada. De qualquer forma, você não vai mais usar saias. Valentina, é preciso saber demonstrar gratidão. Foi você quem provocou o incêndio e fez Maria passar por aquele susto. Isso é o mínimo que você deve a ela.Gratidão? Quase deixei escapar uma risa

Bab Lainnya
Jelajahi dan baca novel bagus secara gratis
Akses gratis ke berbagai novel bagus di aplikasi GoodNovel. Unduh buku yang kamu suka dan baca di mana saja & kapan saja.
Baca buku gratis di Aplikasi
Pindai kode untuk membaca di Aplikasi
DMCA.com Protection Status