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O Amor que Virou Cinza

O Amor que Virou Cinza

By:  Aurora BelliniCompleted
Language: Portuguese
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No dia em que a mansão pegou fogo, meu marido trancou a porta do quarto para salvar o poodle de seu primeiro amor. Do outro lado da porta, protegi a barriga saliente com as mãos e implorei para que ele abrisse, enquanto a fumaça densa me sufocava, quase me levando à morte. Mas Gustavo Rocha apenas soltou uma risada fria: — O cachorro da Maria também merece viver! Você aguenta muito mais do que isso. Não vai morrer só por causa de um pouco de fumaça! Não use nosso filho para tentar chamar minha atenção de uma forma tão baixa! Com o cachorro nos braços, ele virou as costas e foi embora, não sem antes cobrir cuidadosamente o focinho do animal com uma toalha molhada. Durante nossos três anos de casamento, escondi a verdade de Gustavo, dizendo que trabalhava com cadáveres e que minha família não tinha dinheiro nenhum. Porque eu tinha medo de matá-lo de susto. Meu pai é um renomado especialista em serviços funerários e cremação, e minha mãe se especializou em maquiagem mortuária para condenados à pena de morte. Meu irmão consegue ser ainda mais assustador: seu maior passatempo é colecionar ossos humanos. Nossa família sempre soube caminhar entre o mundo legal e o ilegal. No instante em que as chamas lamberam a barra do meu vestido, enviei uma mensagem de voz para minha família. — Pai, Gustavo disse que quer experimentar como é não conseguir morrer de verdade. Assim que a mensagem foi enviada, o destino de Gustavo e de seu primeiro amor ficou selado: eles acabariam reduzidos a um pó ainda mais fino do que as cinzas de um crematório.

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Chapter 1

Capítulo 1

Enquanto as línguas de fogo já lambiam as cortinas, eu esmurrava a porta do quarto. A maçaneta estava em brasa, e a pele da minha palma chiava ao tocar a maçaneta.

Sem me importar com a dor, protegi com todas as forças a barriga enorme. A fumaça espessa entrava pelas frestas da porta, queimando meus pulmões a cada respiração.

Do lado de fora, ouvi os latidos estridentes da poodle e a voz suave de Gustavo tentando acalmá-la.

— Não tenha medo, Tita. O papai vai tirar você daqui agora mesmo.

Colei o corpo à porta e arranhei a fresta com as unhas enquanto gritava, com a voz dilacerada:

— Gustavo! Abra a porta! Cof, cof... Eu e o bebê ainda estamos aqui dentro! O fogo está chegando em mim! Gustavo!

Os passos pararam diante da porta. Pensei que ele ainda tivesse um resquício de consciência.

Mas então, a voz de Gustavo atravessou a porta, tão calma que me fez estremecer.

— Valentina Azevedo, pare de fazer cena aí dentro. Você não aguenta nem um pouco de fumaça? A poodle da Maria tem asma e não pode respirar fumaça. Você aguenta, não vai morrer só por ficar aí mais um pouco.

Arregalei os olhos, sem conseguir acreditar. As lágrimas escorriam sem parar por causa da fumaça.

— O que você está dizendo? Isto é um incêndio! Eu vou morrer! O bebê vai morrer!

Gustavo soltou uma risada de desdém.

— Não use o bebê para chamar minha atenção desse jeito. Se realmente se importasse com ele, ficaria quieta aí dentro e pararia de causar problemas para Maria. Quando aprender a valorizar uma vida, eu volto para abrir a porta.

Seus passos se afastaram sem a menor hesitação.

Então, ouvi-o dizer a Maria Santos:

— Rápido, cubra o focinho dela com uma toalha molhada.

Desabei no chão, e minhas unhas deixaram dez rastros de sangue na madeira da porta. Naquele instante, finalmente enxerguei quem era o homem que eu havia amado por três anos.

Para ele, eu e o bebê que carregava no ventre valíamos menos do que a poodle de seu primeiro amor.

O fogo se espalhava depressa demais. Aquilo não era normal. Havia no ar um odor forte e irritante.

Era terebintina.

Gustavo era pintor e guardava grandes quantidades de terebintina em seu ateliê.

O foco do incêndio estava bem diante da porta do quarto. As chamas avançavam de fora para dentro.

Quando vi o líquido oleoso escorrendo por baixo da porta, senti todo o sangue do meu corpo gelar.

Aquilo não havia sido um acidente. Gustavo não estava apenas salvando a poodle, também queria se livrar de mim.

Me lembrei da apólice de seguro que tinha encontrado por acaso alguns dias antes.

No campo reservado ao beneficiário, não constavam os nomes dos meus pais, e sim o do cônjuge.

Em caso de morte acidental, a indenização chegaria a trinta milhões.

Então era isso. Ele queria cobrir o rombo da empresa e abrir caminho para Maria.

Queria me transformar em um cadáver carbonizado.

Corri até a janela, ergui uma cadeira e a arremessei contra o vidro com toda a força.

A cadeira ricocheteou e caiu sobre o peito do meu pé. O vidro nem sequer se moveu.

Então me lembrei. No início da gravidez, Gustavo acariciara minha barriga e dissera que, por segurança, substituiria todas as janelas da casa por vidros blindados.

Na época, achei que ele fosse atencioso nos mínimos detalhes. Agora eu entendia: ele esteve construindo meu caixão com as próprias mãos esse tempo todo.

Estávamos no terceiro andar. As janelas estavam seladas, e a porta, trancada por fora.

Eu estava encurralada, sem qualquer chance de escapar. Uma dor ardente rasgou minhas costas, as chamas já lambiam a barra do meu vestido.

Não tentei mais apagar o fogo. Me encolhi e mantive a barriga firmemente protegida sob o corpo.

Era instinto materno. Mesmo que eu virasse cinzas, precisava preservar para meu filho a última chance de sobreviver.

As barras de sinal do celular oscilaram e, por fim, deram lugar a um X vermelho.

Gustavo havia ligado o bloqueador de sinal. Ele havia dito que instalou o aparelho em toda a casa para impedir o vazamento de segredos comerciais.

Que plano meticuloso. Que crueldade monstruosa.

Arrastei meu corpo pesado até o banheiro.

Ali havia uma pequena abertura de ventilação. Talvez eu conseguisse captar algum sinal.

A cada movimento, o piso escaldante arrancava mais uma camada de pele dos meus joelhos.

Cerrei os dentes e não deixei escapar um único gemido.

Uma filha da família Azevedo podia suportar a dor, mas nunca demonstrar fraqueza.

Por fim, ergui o celular até a abertura. Uma única barra fraca surgiu na tela.

Abri o grupo da família.

Pressionei o botão de áudio e, com o último fôlego, disse:

— Pai, Gustavo disse que quer experimentar como é não conseguir morrer de verdade.

A mensagem foi enviada. No segundo seguinte, a tela do celular explodiu sob o calor.

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