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CAPÍTULO 3

Author: Sua Sombra
Ao me ver, ela parou por um instante e me trouxe um copo de água morna.

— Senhora, a senhora estava bem? Está muito pálida. Quer que te leve ao hospital? — perguntou, preocupada.

— Está tudo bem.

Eu sorri e balancei a cabeça.

Pois é, até pessoas de fora conseguiam perceber que eu não estava bem.

Então por que Clayton não via?

Já tinham se passado dez dias, e ele não me procurou nem uma única vez.

Uma onda de revolta me atravessou.

Eu não estava triste por causa dele. Eu simplesmente não conseguia aceitar a minha situação.

Não conseguia aceitar que o meu casamento terminasse daquele jeito.

Não conseguia aceitar que tinha perdido o meu filho.

Não conseguia aceitar que, depois de lutar tanto por nós, eu tivesse deixado de amar.

Assim que voltei para o quarto, comecei a arrumar minhas coisas em uma mala.

Quando estava quase terminando, Clayton entrou em casa de repente.

Ele congelou ao ver a mala na minha mão.

— Por que você estava arrumando as coisas? Para onde ia? — perguntou, nervoso.

Eu o dispensei com indiferença, sem sequer olhar para ele.

— Estou de mau humor. Vou viajar para espairecer.

— Isso é para você. — Ele segurou meu pulso e enfiou um saco de presentes na minha mão.— Minha secretária, a Srta. Clark, disse que essa bolsa é de uma edição limitada mais recente da primavera-verão. É exclusiva do país e perfeita para servir como bolsa de fraldas.Também comprei esse brinquedo especialmente para o nosso bebê. A vendedora disse que era ótimo para recém-nascidos.

Ele parecia tenso, mas os olhos brilhavam de expectativa.

Aquele brilho esperançoso me fez falar sem pensar.

— Clayton, o nosso bebê já…

Antes que eu terminasse, ele me interrompeu:

— A Srta. Clark disse que a sua data prevista era no fim de dezembro, mas eu acabei de prometer à Ruby que viajaria com ela nessa época.

— Então pensei que, como você sempre foi tão compreensiva, não se importaria de ter o bebê sozinha, certo?

A verdade que eu não disse ficou entalada na garganta como uma pedra, amarga e cortante.

Eu abri o closet e revelei as noventa e nove bolsas organizadas cuidadosamente lá dentro.

— Clayton, você me deu noventa e nove bolsas. Conte.

Clayton ficou chocado.

— Eu já te dei noventa e nove bolsas?

— Sim. — Respondi em voz baixa. — Então… você ainda pretende cumprir a sua promessa?

Clayton apertou os lábios com força.

Eu sabia que ele estava em conflito.

Mesmo assim, eu queria ouvir a resposta, ainda que já a conhecesse no fundo do coração.

Como esperado, após uma breve hesitação, ele disse:

— Ruby ainda não melhorou. Vamos esquecer aquele acordo.

Essa foi a gota d’água.

Eu assenti.

— Tudo bem. Eu entendi.

Clayton ficou atônito. Ele não acreditava que eu tivesse concordado com tanta facilidade.

— Obrigado por ser tão compreensiva, Hazel. — Ele me puxou para um abraço e disse, animado. — Prometo que, assim que Ruby estiver estável, eu voltarei para casa e compensarei você.

Eu murmurei um som de concordância e disse que tinha apenas um pedido.

— Eu não encontrei o terço do bebê. Você poderia providenciar um novo para ele?

Ao mencionar a criança, a expressão de Clayton se suavizou ainda mais.

— Tudo bem. Vamos comprar o melhor, o mais perfeito terço para o nosso pequeno.

Meus olhos se encheram de lágrimas, e a dor de perder o nosso filho me atingiu mais uma vez.

— Ok.

A verdade era que eu nunca mais veria o meu filho.

Depois que ele saiu, fui até a gaveta e tirei um maço de prontuários médicos, todos organizados com extremo cuidado.

Eles estavam separados por etapas desde o primeiro exame confirmando a gravidez, o primeiro pré-natal e a primeira receita para estabilizar a gestação.

Todas as noites em que Clayton não voltava para casa, eu os tirava e os olhava repetidas vezes.

Ao observá-los, eu sentia a expectativa e a alegria de me tornar mãe pela primeira vez. Eles também representavam a minha esperança, como esposa, de ter uma família feliz.

No entanto, aquela expectativa e aquela esperança já tinham virado pó.
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