Share

4.

Author: Ana Fischer
last update publish date: 2026-07-25 03:44:49

— Quantas bailarinas talentosas! — Sophia exclamou sorrindo. — Vocês estão de parabéns! Agora vamos fazer um círculo?

Cinco meninas correram para o centro do estúdio, mas Emma ficou para trás, grudada à barra. Sua expressão tímida dispensava qualquer explicação. Devia estar com medo de errar na frente das colegas, já que tinha conseguido se soltar na aula experimental, a sós com a professora.

Sophia se aproximou da pequena.

— Me faz um favor?

Emma a encarou com olhos tensos.

— Hm… — hesitou. — Faço.

— Preciso de uma assistente. Quer ser minha ajudante na aula de hoje?

— Quero. — Ainda parecia acanhada. — O que eu faço?

Sophia pegou uma fita de cetim rosa no armário e entregou a Emma.

— Seu primeiro trabalho é escolher quem vai fazer o próximo exercício.

— Mesmo?! — O rostinho se iluminou.

— Mesmo. — Deu uma piscadela.

As outras meninas riam e conversavam entre si, o círculo já formado.

Emma caminhou até elas. Ficou pensativa por um instante, como se estivesse prestes a tomar uma decisão muito importante. Observou cada uma das colegas antes de finalmente passar a fita para uma garotinha ruiva com sardas: Melissa.

— Você quer começar? — perguntou Emma, já menos tímida.

Melissa assentiu com um sorriso sapeca.

Ao olhar de relance para a porta de vidro, Sophia sentiu uma ligeira inquietação no peito. Nathan assistia à aula.

Desviou os olhos rapidamente, voltando a atenção às alunas.

Não fazia sentido ficar nervosa por ser observada. O pai de Emma parecia um homem bastante simpático e fácil de lidar. E Sophia nunca se incomodava quando a mãe de uma das meninas resolvia acompanhar a aula através da porta. Achava muito natural que os pais quisessem ficar de olho nos filhos.

Ainda assim… sentiu o rosto corar de leve.

— — — 

— Quem quer aprender o plié? — Sophia exclamou, animada.

— Eu! — As alunas disseram em uníssono, levantando as mãos. Algumas deram pulinhos.

A professora demonstrou o passo e não demorou para que as crianças tentassem copiar o movimento. Algumas dobraram os joelhos demais, outras de menos. Melissa teve um acesso de riso sem motivo aparente. Emma fez um bom plié logo na primeira tentativa. Alice tinha encontrado uma concorrente?

Sophia trocou os exercícios até chegar ao primeiro giro da aula.

Emma se concentrou, respirando fundo, a testa franzida e os lábios formando uma linha fina. Abriu os braços de forma levemente desajeitada. E girou rápido demais. Seus pés confundiram a rota. Caiu sentada no chão.

Gargalhadas infantis preencheram o estúdio.

Em vez de se envergonhar, Emma riu junto.

— Doeu? — Sophia perguntou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.

— Um pouquinho. — Mostrou o dedo indicador e o polegar quase juntos.

— Você aprendeu uma lição muito importante hoje: às vezes, a gente precisa cair para aprender algo. Mas toda bailarina se levanta e tenta de novo.

— Então eu já posso ser uma bailarina? — Emma levantou de supetão.

— Pode!

Quando Sophia olhou em direção à porta, viu Nathan sorrir para a filha.

— — —

A aula chegou ao fim rápido demais.

Sophia amava ensinar. Sempre que estava no estúdio, rodeada de crianças, sentia que viver tinha propósito. Só havia experimentado algo semelhante ao se apresentar no palco. Daria tudo para poder voltar no tempo e dançar diante da plateia lotada da Ópera de Paris.

Ainda sonhava com a queda.

Às vezes, pensava que jamais conseguiria superar o trauma. Quando precisava falar para um grupo de pessoas, sentia tanta ansiedade que o estômago embrulhava e o coração doía. O medo de passar vergonha era maior que qualquer razão. Não adiantava respirar fundo ou dizer a si mesma que tudo ficaria bem.

Quando Sophia fechou a porta da recepção, o silêncio fez o estúdio parecer melancólico.

Andou a passos lentos, quase hesitantes, em direção ao balcão. Abriu a gaveta devagar, atrasando o momento de encarar a verdade. Engoliu em seco ao ver o envelope branco.

Segurou a notificação extrajudicial, conferindo o prazo como se esperasse que a data tivesse mudado por mágica. Mordeu o lábio inferior ao pegar o tablet e abrir a planilha de gastos. Com o coração ardendo dentro do peito, analisou os números. Não conseguiu enxergar uma solução.

Se ao menos tivesse aceitado o pagamento anual de Nathan. 

Como pôde ser tão cabeça dura? Qual o problema de quebrar uma ou outra regra?

O celular vibrou sobre o balcão e Sophia paralisou ao ver a notificação da advogada do proprietário do imóvel. Faltava exatamente uma semana para o prazo acabar. Havia menos da metade do valor em sua conta bancária. De onde poderia tirar tanto dinheiro? Um empréstimo? Mas como pagaria o empréstimo?

Sentiu os olhos molhados.

— Vou dar um jeito — disse baixinho, observando o retrato da mãe na parede. — Não vou te desapontar de novo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   36.

    Nathan entrou no carro, mas não girou a ignição.Observou o prédio da escola de ballet por um momento, sorrindo sozinho. O que Sophia estava fazendo com ele? Não era um homem melancólico, mas também não costumava sorrir tanto assim. E, honestamente, estava gostando muito de se sentir mais leve depois de dois anos enfrentando um luto que parecia não ter fim. Era como se pudesse finalmente tentar viver de novo.Nunca ia desrespeitar ou apagar a memória de Georgia.Mas começava a entender que merecia ser feliz ao lado de alguém especial.E talvez essa pessoa pudesse ser Sophia.No entanto, tentou deixar o pensamento de lado. Não podia prever o futuro, por mais que tivesse suas intuições. Queria mesmo ir com calma. Tinha medo de se machucar e mais medo ainda de acabar machucando Sophia. Não se perdoaria se a fizesse chorar.Sentiu que precisava de ajuda. Ainda não conhecia Sophia tanto quanto gostaria, mas queria, mais que tudo, acertar na surpresa de domingo.Pegou o celular, entrou no I*

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   35.

    Sophia observou o papel sobre a mesa. Poderia simplesmente rasgá-lo e nunca mais pensar no assunto.Mas, no fundo, sabia que não conseguiria.Com os dedos trêmulos, porém ágeis, pegou o papel, dobrou duas vezes e enfiou de qualquer jeito na bolsa. Apenas uma precaução inocente. Não ia realmente precisar entrar em contato com Louise. Óbvio que não.— Com licença. Posso anotar seu pedido?Sobressaltou-se ao ouvir a voz do garçom. Não tinha percebido a aproximação. — Sanduíche número quatro e uma raspadinha de Coca-cola, por favor — pediu com a voz fraca.— Certo. — Ele fez uma anotação rápida no bloquinho e acrescentou: — Desculpe, moça, mas está tudo bem? Posso ajudar de alguma forma? — Pareceu preocupado.— Está tudo bem, obrigada — respondeu, tentando manter o tom controlado.— Qualquer coisa, estou à disposição.Sophia assentiu, sem conseguir falar.O coração estava tão dolorido que parecia haver uma mão fechada ao seu redor, apertando o músculo sem piedade. O ar se recusava a cheg

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   34.

    Eram exatamente nove horas da manhã quando Sophia se sentou à mesa para a primeira refeição do dia: uma tigela generosa de sucrilhos ao leite e uma xícara de café forte. Ainda usava sua velha camisola de seda preta e se sentia bastante sonolenta, apesar de ter dormido como uma pedra. Tirando a preocupação com a situação do estúdio, estava de bom humor.Assim que terminasse de comer, gravaria um vídeo para postar nas redes sociais. E mandaria uma mensagem para Nathan. Precisava, com urgência, voltar a conversar sobre marketing.Sorriu quando o celular vibrou inesperadamente sobre a mesa.Uma notificação dele.“Bom dia. Dormiu bem?”Ela respondeu no mesmo instante:“Sim, e você?”“Também, o que já é uma vitória, considerando que tenho uma terça-feira agitada pela frente.”Dois segundos depois, mais uma mensagem chegou:“Tenho outra pergunta importante: você está maratonando alguma série?”Sophia riu e bebericou o café antes de responder:“Não gosto tanto de séries, prefiro filmes.“Send

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   33.

    As borboletas no estômago de Sophia pareciam ter virado águias.Com o rosto levemente corado, ela observou Nathan se afastar, passar pela porta de vidro e caminhar sem pressa até o carro estacionado em frente ao estabelecimento. Sentia um alívio inusitado, como se um peso tivesse sido arrancado de suas costas. Por um instante, quase esqueceu que havia uma mãe e uma criança na recepção.Desculpar alguém nunca tinha sido tão fácil.Mas não podia baixar a guarda.Nathan havia dito com todas as letras que sentiu medo e que queria ir com calma. Ele não parecia totalmente pronto para sair com uma mulher. Ao menos, não com pretensões mais sérias. Talvez o mais sensato fosse não criar expectativas e não pensar tanto no futuro. E proteger o coração de todas as maneiras necessárias. Sophia não podia se envolver. De jeito nenhum.O problema era que já estava se envolvendo.— Moça? Eu gostaria de matricular minha filha. — A mulher repetiu, o cenho franzido.— Desculpe. — Sophia se apressou em diz

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   32.

    Nathan estacionou o carro em frente ao estúdio.Sentiu um incômodo esquisito no peito ao observar a fachada. Tudo continuava exatamente igual: os dois vasos com flores de lavanda junto à porta, as janelas longas de vidro fumê, o letreiro discreto, a parede de tijolos claros... Mas, por alguma razão, parecia que tudo estava diferente.Naquele dia, havia assinado documentos que movimentariam milhões de dólares, participado de longas reuniões e discutido números que tirariam o sono de qualquer pessoa.Ainda assim, não tinha sido capaz de parar de pensar em Sophia.Aquilo era loucura.Fazia duas semanas que a conhecia.E já gostava dela.Por que continuar negando?Sophia não recuou na cozinha. E depois, ao fim da noite, perguntou se Nathan queria que ela voltasse. Nenhuma mulher agiria daquela forma se não estivesse, no mínimo, atraída. Por que ele demorou tanto tempo para entender?Desceu do carro, respirando devagar e lutando para manter os nervos controlados.Mas lembrar que nem Georgi

  • O CEO Viúvo e a Bailarina   31.

    Nathan acordou sentindo alguém balançar seu ombro.Ainda exausto, precisou de alguns segundos para entender o que estava acontecendo.Não tinha dormido bem. Durante a madrugada, acordou duas vezes e teve dificuldade para adormecer de novo. Não conseguia ficar parado na cama ou manter os olhos fechados por tempo suficiente para o sono chegar. Sentia uma dor leve, mas bastante incômoda no peito.Pensava em Sophia.E na expressão de decepção em seu rosto.— Papai, acorda — murmurou Emma.Nathan esfregou os olhos, ainda um tanto confuso pelo sono interrompido.Mas sorriu.— Bom dia, princesinha. Por que acordou tão cedo?— Não sei, eu só acordei.O alarme sempre tocava às seis da manhã em dias úteis. Era estranho que Emma já estivesse de pé.— Martha já chegou? — perguntou Nathan, sentando na cama.— Já.— Fique um pouco com ela. Papai precisa resolver uma coisa antes de tomar café com você.— O que você precisa resolver? — Fez bico.— Assunto de adulto.— Você pode chamar Sophia para tom

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status